MARINGONI: “DECLARAR PCC E CV COMO TERRORISTAS É A PRIMEIRA INTERFERÊNCIA DE TRUMP NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS”
afinsophia 29/05/2026 0
ANÁLISE
Departamento de Estado dos EUA anunciou que organizações criminosas serão enquadradas a partir de 5 de junho
- SÃO PAULO (SP)
- RODRIGO GOMES
A decisão do governo de Donald Trump de declarar as organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pode ser considerada “a primeira interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras”. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Gilberto Maringoni.
A ida de Flávio Bolsonaro aos EUA foi uma reação às reportagens do The Intercept que mostram as relações do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e a produção do filme “Dark Horse”. Flávio pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para financiar a produção e há suspeitas de que o dinheiro tenha sido usado para financiar a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos EUA.
“Flávio agiu rápido. Vinha perdendo apoio nas pesquisas, mas os demais nomes da direita não subiram. Agora o governo Lula precisa responder defendendo a nossa soberania, sem parecer condescendente com o crime organizado”, ressalta Maringoni.
Para Maringoni, o governo Lula precisa dar uma resposta firme e mostrar o que vem fazendo no combate ao crime, já que, para boa parte da população, a ideia de combate ao crime é muito associada a ações violentas e grandes operações.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira (28) que vai classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, a partir de 5 de junho. A medida inclui as duas facções brasileiras nas categorias de “organizações terroristas estrangeiras” e “terroristas globais especialmente designados”, segundo comunicado divulgado pelo governo estadunidense.
O texto afirma que PCC e CV estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil”, responsáveis por “ataques brutais” contra policiais, autoridades públicas e civis. O governo dos Estados Unidos também sustenta que a atuação dos grupos ultrapassa as fronteiras brasileiras e alcança outros países da América Latina e o próprio território estadunidense.
O anúncio ocorre um dia após o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e dois dias depois de um encontro do parlamentar com o presidente Donald Trump na Casa Branca. Após a reunião, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou ter pedido ao governo Trump que classificasse as facções brasileiras como organizações terroristas.
Para o líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai, a medida representa uma resposta ideológica da extrema direita mundial à proposta de cooperação internacional apresentada pelo Brasil aos EUA. O acordo compreende a repatriação de valores, troca de informações, asfixia financeira e combate real ao crime organizado.
“Em vez de cooperação, a extrema direita oferece sanções, ingerência, pressão econômica e submissão do Brasil aos interesses de estrangeiros. A classificação pode produzir consequências financeiras desastrosas e ampliar os prejuízos à economia brasileira, como já ocorreu com as tarifas impostas pelos EUA. A medida também ameaça milhões de pessoas que vivem ou trabalham em territórios dominados pelo crime organizado, criando barreiras para circulação, serviços, contas bancárias e crédito”, argumentou, em nota.
Uczai destaca que Flávio devia era explicar as relações da família em vez de atacar o próprio país. “A mesma família que acumula relações com o crime organizado no Brasil tenta posar de defensora da segurança enquanto conspira contra o povo brasileiro. O Brasil precisa combater o crime organizado com Estado forte, soberania e lei brasileira. O Brasil não é colônia. O Brasil é dos brasileiros”, conclui.