CANTORA JULIANA PERDIÇÃO DESTACA “PÍLULAS DE BRASILIDADE” EM ÁLBUM FEITO EM MOÇAMBIQUE
afinsophia 31/01/2026 0
PAISAGENS SONORAS
Compositora detalha o processo criativo de seu novo disco produzido no continente africano
“Cada faixa tem um pouco de diálogo de universo”, declara Juliana Perdigão, cantora, compositora e instrumentista, a respeito do seu último disco, Machamba, produzido em Moçambique, em parceria com Matchume Zango, um músico percussionista local, que além de muito talento agregou muita cultura a um trabalho multimiscigenado, que além de enaltecer a musicalidade africana, também conta com diversas “pílulas de brasilidade” como reforça a artista.
No episódio 98 do Sabe Som?, Thiago França recebe a Juliana para um papo que atravessa música, deslocamento, processo criativo e escolhas de vida. Amiga de longa data do apresentador, a compositora fala sobre a gestação do seu álbum mais recente, nascido de uma residência artística em Moçambique e marcado pelo encontro entre ritmos, paisagens sonoras e escutas cruzadas entre Brasil e África.
De acordo com Juliana, a parceria com Matchume Zango garantiu mais do que ela previa antes de iniciarem as gravações, pois de acordo com a ela o moçambicano possui um “swingadaço” que chegou inclusive a redirecionar as composições das faixas do disco.
Gravado, portanto, a partir de uma experiência intensa em Maputo, o disco surge como um retrato do momento: quase todo instrumental, feito em poucos dias, com instrumentos disponíveis no local e sem a obsessão pela lapidação excessiva de estúdio. Ao longo da conversa, Juliana detalha o processo de criação ao lado do percussionista moçambicano, refletindo sobre groove, polirritmia, improvisação e as diferenças de sotaque musical entre tradições africanas, brasileiras e europeias.
Juliana relembra que quando decidiu produzir o disco no continente africano, levou instrumentos comuns e populares no Brasil, como por exemplo clarinete e flauta, mas acabou mergulhando na cultura de Moçambique, e para compor as cinco faixas de Machamba, ela e o percussionista também utilizaram instrumentos como adungu, timbila e tsudi, populares e tipicamente conhecidos na África.
Apesar de considerar Moçambique sua “residência artística”, uma vez que se sentiu completamente acolhida e ambientalizada, mesmo estando em outro continente, Juliana ressalta que não tinha interesse em gravar faixas em português, idioma também falado no país.
“Todo mundo sabe falar português ali, e isso é muito louco, mas ao mesmo tempo, a troco de quê? Existe todo um histórico e contexto de violência, logo, eu não queria cantar em português nesse disco e pensei: ‘Vamos tentar a comunicação em outras vias’, pois esse histórico colonial é muito presente ainda lá”, dado que boa parte do continente africano também foi colonizado por nações europeias, e sofrem as consequências disso até hoje.
‘Inventando moda’ em terras brasileiras
De volta ao Brasil, dividida entre São Paulo e Minas Gerais, Juliana compartilha um momento de redescoberta da cidade, novos projetos em andamento e a vontade de seguir experimentando e “inventando moda” no Brasil à frente de outros projetos musicais e pessoais.
“Estou meio apaixonada por São Paulo, estou andando de bicicleta, e conhecendo a cidade muito mais do que eu conhecia nos anos anteriores à minha ida para a Alemanha.”
A cantora revela que apesar de ter concluído há pouco a produção do disco Machamba, com seu retorno e andanças, principalmente por São Paulo, já está integrando outros projetos musicais, como por exemplo o trio Tranca, onde divide palco com Bernardo Pacheco e Juliano Gentile, além de outros trabalhos experimentais.
Entretanto, Juliana também revela que, apesar da paixão que tem pela sua arte e por todo o universo que engloba composições e produções musicais, não consegue se visualizar e se encaixar nos moldes atuais de divulgação e publicações em redes sociais, e suas ferramentas de autopromoção.
“Quando estou ali [em frente a câmera] é notório meu desconforto. Eu sofro, me enrolo, e postergo o máximo para fazer”. Diante das dinâmicas que envolvem publicações, seja através de fotos ou vídeos curtos, destaca como “esse imediatismo, essa coisa de tudo tem que ser agora, isso paralisa a gente!”
Contabilizando seu último projeto, Machamba, a multiartista terá cinco discos em seu portfólio, e ao que tudo indica, com muita disposição, ímpeto e vontade de produzir mais e mais, uma vez que “é nítido que meu tesão é na criação” como ilustra a cantora.
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