FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: HÁ SEMPRE ‘ORELHA’ ATRÁS DA PORTA!
“Minha rede branca, meu Cachorro ligeiro, Sertão olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro…”
Belchior
1 – O texto publicado pelo site Afinsophia.Org sobre o cachorro Orelha, assassinado por gente de bem e amante do mundo Disney, dá bem a medida cognitiva do quanto o poder da riqueza, da arrogância financeira, pode converter pessoas em refugo do que ainda nos resta de humanidade.
2 – Os quatro adolescentes, com o intelecto coisificado até ao limite pelo padrão de consumo que Veblen denominava de “consumo conspícuo”, me trouxeram à memória a ação inominável daqueles cinco adolescentes que no dia 20 de abril de 1997, em Brasília, atearam fogo e queimaram vivo Galdino Jesus dos Santos, indígena do Povo Pataxó, e a quem dediquei minha dissertação de mestrado em Educação, defendida em dezembro de 1998. Ao tomar conhecimento desse brutal assassinato, Paulo Freire escreveu uma carta, cuja leitura recomendo.
3 – O maior educador desse país, Paulo Freire, morreria 12 dias depois, no dia 02 de maio de 1997. Na imanência do ceu (canino ou humano) o cachorro Orelha será recebido por Galdino e ambos, cada um em sua ontologia, humanocanina ou canino-humana, pensarão em sintonia: quão miserável e vazia é a vida de quem odeia a liberdade da rua e se refugia nos muros condominiais e no que Paulo Freire descrevia como “apetite burguês do êxito pessoal”.
4 – Em sua breve carta sobre o assassinato de Galdino, Paulo Freire escreve: “Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer”.
5 – Que diversão estranha e carregada de sadismo a de quem, coisificado, fez da vida livre e canina do Orelha um objeto de metódico, cruel e covarde ato de vingança. Eles matam e vão se divertir no Mundo Disney, que se liga a Florianópolis pela via da perversão nazifascista.
6 – A maldade que esses adolescentes impingiram ao Orelha nos onera a todos em nossa condição humana. Diz a filosofia antiga que a sabedoria, sobretudo a dos povos originários (digo) vem da escuta. E de escuta sábia entendiam Galdino e Orelha, que agora se unem noutro plano. A memória de Galdino e Orelha, sacrificados na rua, permanecerá!
Galdino Jesus dos Santos e Orelha. Presentes!
José Alcimar Oliveira é filósofo e professor do Curso de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, nascido no Ceara, mas batizado pelas Águas do Solimões-Negro diante do sorriso da Piraíba.