“CHEGOU UMA HORA QUE EU NÃO QUERIA MAIS TOCAR TROMPETE DO JEITO TRADICIONAL”, AFIRMOU GUIZADO NO SABE SOM

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LINGUAGEM SONORA

Músico fala sobre criação, experimentação sonora e as inquietações que atravessam sua trajetória na música instrumental

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Músico Guizado, reconhecido por expandir as possibilidades do trompete com pedais| Crédito: Divulgação

“A melodia é uma coisa que me pega.” A afirmação de Guilherme Guizado sintetiza o olhar que guia seu trabalho como trompetista, compositor e produtor. Convidado do episódio 91 do Sabe Som?, podcast de música do Brasil de Fato apresentado por Thiago França, o músico revisita caminhos, inquietações e referências que moldaram a sua linguagem sonora ao longo dos anos.

Reconhecido por expandir as possibilidades do trompete com pedais, texturas eletrônicas e camadas melódicas, Guizado influenciou o próprio apresentador a experimentar efeitos no saxofone. Durante a conversa, ele conta que sua aproximação com os pedais nasceu de um desejo de reinvenção. “Chegou uma hora que eu não queria mais tocar trompete do jeito tradicional”, afirma.

Segundo o músico, por volta de 2005, a lógica de depender de convites para tocar acompanhando sessões passou a incomodar. “Eu achava que ia ser o segundo homem do telefone. Tipo ‘de repente eu vou dar uma ligada, penso no Gui e tal’, mas aí eu vi que não, talvez eu fosse a quinta opção”, relembra. 

Nesse período, Guizado passou a observar bandas que ensaiavam de forma mais coletiva, com espaço para criação conjunta e experimentação sonora. “E eu comecei a pensar nisso também, de uma certa forma, também pela forma de estética e de coração”, conta.

A curiosidade pelos pedais veio do contato com guitarristas e produtores, mas foi ao ouvir o trompetista Rob Mazurek que ele percebeu novas possibilidades para o instrumento. “Eu ouvi um som e pensei: isso não parece trompete”, conta. A partir desse impacto, Guizado passou a buscar outras formas de expressividade, explorando timbres, texturas e atmosferas menos convencionais.

Na conversa, o músico também destaca a importância de sua formação com Nahor Gomes e da convivência com a Banda Mantiqueira, referência fundamental para uma geração de instrumentistas. “A experiência com os outros músicos te ajuda a entender o que é um arranjo coletivo”, observa. Ao lado de Thiago França, ele reflete sobre a herança das big bands, o papel do primeiro trompete e as diferenças entre o jazz estadunidense e o caráter mais coletivo de gêneros brasileiros, como o choro.

A melodia aparece como elemento central em sua criação. “O que mais mexe comigo é uma melodia simples que pega no coração”, afirma. Guizado conta que muitas ideias surgem primeiro na cabeça e só depois chegam ao instrumento. Ele descreve esse processo como algo íntimo e emocional. “Eu tento chegar no meu íntimo, no que eu sinto de emoção ao ouvir a música na minha cabeça. Quando dá quase um arrepio, uma vontade de me sentir mais vivo”, relata, destacando que essa sensação também aparece ao ouvir músicos amigos.

Outra influência marcante em sua trajetória vem do hip hop e da produção eletrônica. Ele recorda o irmão que “era produtor de hip-hop dos anos 90, que tinha banda SP Funk” e estava sempre produzindo beats no quarto ao lado. “Meu irmão estava ali produzindo e eu fingia que não ligava, mas aquilo me impactou”, diz. Segundo Guizado, esse contato abriu novas possibilidades estéticas e ajudou a integrar bases, texturas e atmosferas ao trabalho com banda, improviso e composição.

O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira, às 10h da manhã, e está disponível nas principais plataformas de podcast como Spotify e YouTube Music.

Editado por: Luís Indriunas

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