APÓS 12 ANOS, ASSENTAMENTO WANDERLEY CASTRO RECEBE POSSE: “CONTRA O DOMÍNIO SECULAR”, DESTACOU DIRIGENTE DO MAST

0
mst-paraiba

CONQUISTA DA LUTA

Na Paraíba, 323 famílias receberam 1.936 hectares que esteve sob o domínio do latifúndio

Integrantes do assentamento em Pedras de Fogo.| Crédito: @carlabatista27

No território historicamente marcado pela monocultura da cana-de-açúcar e pela concentração de terras, a luta do povo sem terra transformou a resistência em conquista concreta. Em 28 de dezembro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra da Paraíba (MST-PB) recebeu oficialmente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a imissão de posse do Assentamento Wanderley Caixe, no município de Pedras de Fogo.

A área de 1.936 hectares, que, por décadas esteve sob o domínio do latifúndio, agora garante dignidade para 323 famílias que estavam acampadas no local desde 2013.

Paulo Romário, integrante da coordenação nacional do MST, contextualiza que a vitória ocorre em uma área de exploração secular, onde usinas atuam em pleno vapor explorando não apenas a lavoura, mas a classe trabalhadora.

Ele destaca que essa região carrega 500 anos de resistência, desde o povo negro até os indígenas Tabajara, e que o domínio das usinas sobreviveu à custa de muitos subsídios do Estado e isenções fiscais. Romário recorda que a ocupação do Engenho Dois Rios, parte da falida Usina Maravilhas, foi um marco nesse processo. 

“Começamos com uma ocupação que fica nas margens da BR-101 e foi de muita resistência, de muito enfrentamento inclusive contra a capangagem, que é esse método arcaico histórico utilizado pelas oligarquias rurais de botar capangas para ameaçar e cometer violências contra os camponeses”, afirma o dirigente.

A transformação do território é visível na diversidade da produção que substituiu o antigo “deserto de cana”. Onde antes imperava o veneno e a monocultura, hoje as famílias cultivam raízes, tubérculos e frutas variadas, fortalecendo a soberania alimentar. 

Assentamento Wanderley Caixe, no sul da Paraíba. Crédito: @carlabatista27
Assentamento Wanderley Caixe, no sul da Paraíba | Crédito: @carlabatista27

Paulo Romário enfatiza que o local passou a ser um espaço de reprodução da vida, integrando as famílias com a terra a partir de vivências coletivas e da sede da cooperativa.

“Hoje são 323 famílias que foram transformando aquilo ali nesse espaço de vida, de poder produzir a macaxeira, o inhame, a batata-doce, o maracujá, o mamão, a banana, o coco verde, produção de hortaliças e galinha”, detalha ele, reforçando que a agroecologia é o que garante a vida naquele território em contraposição ao agronegócio.

Além da produção agrícola, o Assentamento Wanderley Caixe, nomeado em homenagem ao advogado e defensor dos direitos humanos que lutou ao lado dos camponeses paraibanos, destaca-se pelos avanços sociais e políticos. 

Segundo Castro, o assentamento surge da demanda das famílias de poderem produzir a sua vida a partir da terra. “É uma ocupação que traz esse nome em homenagem a um militante, a um lutador do povo, a um camponês que foi assassinado na região e que traz esse nome como forma de homenageá-lo, como forma de dizer que Wanderley Castro vive na luta de cada uma daquelas famílias que estão ali ocupando aquela terra.”

Romário ressalta ainda o alto grau de politização do acampamento, que esteve nas ruas em momentos decisivos da história recente do Brasil, defendendo a democracia e combatendo o neofascismo. Para ele, a conquista é uma prova irrefutável da viabilidade do projeto popular. 

“O assentamento Wanderley Caixe é esse exemplo de que a reforma agrária dá certo, de que ela é o caminho para que a gente possa garantir a soberania alimentar e a dignidade do povo brasileiro”, conclui.

Transformação e produção da vida

A produção no assentamento garante a soberania alimentar não apenas das famílias residentes, mas também chega às cidades através de feiras agroecológicas e programas institucionais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)

O território já é considerado livre do analfabetismo por meio de turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e foi vanguarda na saúde comunitária durante a pandemia. 

O assentamento é “referência de produção, de resistência, de luta pela terra no litoral sul da Paraíba”, pontua. Para Paulo Romário, o Wanderley Caixe é a prova viva de que a organização popular pode reverter séculos de exclusão. “É um território que está em constante construção, em constante luta para que a gente possa garantir a dignidade daquelas famílias a partir da reforma agrária.”

Editado por: Luís Indriunas

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.