JBS PRESSIONA: PRISÕES SÃO RISCOS MENORES DO QUE ENGAVETAR INVESTIGAÇÕES

Texto da ilustre jornalista Patrícia Faermann, do GGN.
Jornal GGN – Foi desenhada uma nova estratégia de defesa dos irmãos Batista e executivos da J&F: romper, ainda que aparentemente, com a relação amigável que caracterizou as negociações para o acordo de delação premiada, iniciando enfrentamentos com a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Ainda que são grandes as chances desse confronto serem parte de simulações para os próximos passos do acordo já fechado e agora sob revisão, os donos da JBS e funcionários da J&F receberam a ameaça de um fim dos benefícios alcançados no acordo com a prisão neste domingo (10) de Joesley Batista e Ricardo Saud.
Neste cenário, o atual procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deixou a épica denúncia do atual presidente da República Michel Temer como um feito histórico para concluir o seu mandato. Carregada de acusações dos empresários da J&F, para a empreitada, Janot defendeu a legalidade do acordo – combatida pela defesa de Temer – até o último minuto.
Conscientes do peso das informações que os empresários tinham a entregar com os depoimentos, arquivos e revelações, e dos cuidados já tomados para não se colocar a perder tais provas não somente pelo procurador-geral, como também pelos investigadores da força-tarefa da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo também o ministro relator Edson Fachin, a J&F decidiu fazer uma reviravolta na atuação da defesa.
Ao passo que pretendem reconquistar pelo menos parte dos benefícios aos delatores, o grupo passou a confrontar as medidas tomadas pelo procurador-geral Rodrigo Janot com dois caminhos: um, na contratação do combativo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que publicamente se posiciona contra Janot na defesa de outros réus da Lava Jato; e liberando cartas na maga, outras informações que poderiam endossar a Lava Jato.
A prisão de Saud e Joesley Batista, neste domingo, foi marcada por cenários atípicos: a entrega espontânea dos executivos à Polícia Federal, a fim de evitar uma imagem ainda mais negativa contra os delatores da JBS e do grupo J&F; e o encontro informal deflagrado entre Pierpaolo Bottini, um dos advogados dos empresários, e Rodrigo Janot em um boteco em Brasília.
Bottini foi quem assinou a petição protocolada no Supremo Tribunal Federal (STF), colocando os passaportes de Joesley e Ricardo Saud à disposição da Justiça. No domingo, imediatamente após os investigados se entregarem espontaneamente à Polícia Federal, o novo advogado Kakay emite comunicado à impresa.
No texto, o advogado confirma os riscos adotados por Janot e pela Lava Jato, incluindo o STF, com a prisão e um possível fim do acordo de delação premiada: “Não pode o Dr. Janot agir com falta de lealdade e, insinuar que o acordo de delação foi descumprido. (…) Este é mais um elemento forte que levara a descrença e a falta de credibilidade do instituto da delação.”
E expôs as consequências com a detenção provisória de dois dos maiores delatores do grupo: “Sempre ressalto a importância deste instituto, mas é necessário que seja revisto o seu uso. A proposta de quebra unilateral, sem motivo, por parte do Estado, no caso representado pelo Procurador Geral, gera uma insegurança geral para todos os delatores.”
A resposta de Kakay foi uma cobrança pública de que Rodrigo Janot e os procuradores que comandam as investigações no âmbito do Supremo se comprometam com a moeda de troca da Justiça no instituto de delação premiada para que eles possam seguir colaborando. Caso contrário, a ameaça da prisão dos empresários é risco menor em comparação ao engavetamento de incontáveis acusações.
Mais uma amostra do que eles têm a entregar, caso a Justiça e a PGR de Rodrigo Janot não queiram encerrar os indícios levantados, Joesley Batista admitiu ter ainda outras gravações e materiais inéditos guardados no exterior. O Painel da Folha trouxe a condição explícita: “o dono da JBS avisa agora que só repassará o material à PGR se o acordo da J&F não for rescindido”. Do lado ético e judicial, os advogados tratam de sustentar que não houve omissão de provas, porque as investigações estavam em andamentos e o ministro Edson Fachin havia concedido mais 60 dias para os delatores anexarem informações aos processos.