PRECISAMOS ENTENDER QUE AS CONDIÇÕES MUDARAM REALMENTE, DIZ METEREOLOGISTA SOBRE ‘NOVO NORMAL’ DO CLIMA

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Márcia Seabra destaca que nos meses de maio, junho e julho o Distrito Federal deve registrar temperaturas acima da média

Valmir Araújo
Brasil de Fato | Brasília (DF) |

 

Márcia dos Santos Seabra em participação no Seminário Extremos Climáticos e Desastres no DF – ED FERREIRA/MPDFT.

O aumento contínuo dos gases de efeito estufa na atmosfera fizeram com que o processo de aquecimento global se intensificasse e o Brasil já vive um “novo normal”, com ondas de calor, excesso de chuvas em um curto período e secas severas.

Essas foram algumas das considerações apresentadas por Márcia dos Santos Seabra, coordenadora-geral de Meteorologia Aplicada, Desenvolvimento e Pesquisa do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato DF.

Márcia Seabra, que é meteorologista e mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, falou dos impactos causados pela utilização do solo na capital do país e o reflexo para o clima, que segundo ela, tem ficado cada vez mais quente e com chuvas concentradas em um curto espaço de tempo.

Segundo a meteorologista, a tendência climática para o Distrito Federal para os meses de maio, junho e julho é de chuvas dentro do normal (pouca) e temperaturas de 0,4 até 0,6 graus acima da média.

“Toda a área do Distrito Federal mudou. O Cerrado que a gente tinha na década de 60, 70, já não existe. E isso a gente vê como resultado temperaturas mais altas em Brasília. Em alguns meses, essa temperatura já aumentou cerca de 2 graus”, destacou Márcia.


Previsão indica que as temperaturas deverão ser acima da média em maio / Reprodução/INMET

A coordenadora-geral de Meteorologia Aplicada, Desenvolvimento e Pesquisa do Inmet chama atenção para a melhor utilização dos alertas sobre o clima disponibilizados pelo Instituto, em que qualquer pessoa pode se cadastrar e receber as informações.

“Eu acho que o que falta no Brasil um pouco também de compreensão sobre os avisos e como são feitos.  Essa comunicação é feita, mas às vezes a população ainda não está acostumada em receber esse aviso e realmente seguir as instruções que estão sendo colocadas nos avisos”, observa.

A entrevistada ainda defendeu uma preparação maior por parte do poder público para o enfrentamento dos desastres climáticos, que vão continuar acontecendo. “Aprender a conviver com isso. Tentar, por exemplo, antes de um período chuvoso, já ir buscando as informações, se aquele período chuvoso vai ser realmente chuvoso, se a gente tem alguma tendência de seca. E tentar deixar alguns planos de ação, antes de que o desastre aconteça”, destaca.

Confira a entrevista

Brasil de Fato DF: Nos últimos anos temos visto, sobretudo, ondas de calor cada vez mais fortes e chuvas concentradas como essas do Rio Grande do Sul. O que explica esses fenômenos?

Márcia Seabra: Tanto as ondas de calor, como essas chuvas são reflexos também da questão do aquecimento global e mudanças climáticas. Quando falamos dos extremos que estão ficando mais frequentes, não são só os extremos de chuva forte, mas também de calor extremo e secas severas e tudo isso temos visto no Brasil.

Então, a depender da configuração, do fenômeno mais local que esteja acontecendo, tudo isso vai estar relacionado de uma certa forma com o aquecimento global e a mudança climática.

E o que explica as mudanças climáticas? Os estudos apontam que é reflexo de uma ação direta do homem?  

De uma certa forma, sim. Porque a gente tem toda uma influência, que podemos dizer que é local e estamos presenciando isso, por exemplo, de Brasília. Desde que começamos a medir os dados na década de 1960, temos observado mais calor e menos chuvas no geral em um curto espaço de tempo.

Então, tem uma questão de influência local, de mudança de uso de solo e isso vai influenciar localmente naquela condição climática também globalmente. Quando pensamos na questão da elevação de gases do efeito estufa, por exemplo, aumentou muito e tudo isso contribui para essas mudanças climáticas que temos observado.

Qual a relação dos fenômenos El Niño e La Niña, com tudo isso que temos visto?

Quando falamos do El Niño e a La Niña é preciso reconhecer que eles sempre existiram. Agora, estamos falando de uma atuação de El Niño muito mais forte, com acontecimentos que nunca tínhamos visto, como esse do Rio Grande do Sul, em que choveu em cinco dias aquilo que estava previsto para dois meses em algumas cidades.

Então, o El Niño, normalmente, causa mais chuvas muito fortes na região sul [do Brasil], mas nunca tivemos um evento como o de setembro de 2023 e agora outro em maio, com intensidades maiores e frequências maiores também. Então, apesar do El Niño, a chuva ainda foi mais severa e com essa frequência, provavelmente, foi por conta dessa mudança global.

E a perspectiva é que isso continue acontecendo?

Infelizmente sim. Nós temos um problema grave de aumento acelerado de temperatura da terra, causado pelo excesso desses gases que falei. Os estudos mostram que a temperatura da terra está aumentando numa velocidade muito maior do que prevíamos no Acordo de Paris [2015], por exemplo. Então, enquanto essas temperaturas estiverem aumentando de forma acelerada, vamos continuar acelerando o processo de mudança climática.

Na verdade, já estamos vivendo uma nova condição climática no país. E isso, às vezes, pode até afetar as previsões de como vai ser o inverno e de como vai ser o verão. Porque precisamos até tentar estudar melhor como é que isso vai impactar até nos modelos climáticos, mas já estamos vivendo um novo normal. E essas temperaturas altas, com as ondas de calor, estão apenas comprovando essa realidade e que precisamos nos adaptar e conviver com essa nova condição climática.

E de que forma, enquanto sociedade, podemos estar mais atentos aos efeitos dessas mudanças?

O primeiro passo é a conscientização. Temos que mudar práticas do dia a dia que ajudam a acelerar esse processo e isso implica na forma de consumo. Depois, temos que ficar atentos ao funcionamento do sistema de alertas, seja do Inmet, que tem a possibilidade de você fazer um cadastro e receber alertas por e-mail, seja pelas estruturas dos estados e municípios.

Como funciona esse sistema de alertas do INMET para o poder público? Como prefeituras e governos podem utilizar melhor essas informações técnicas e se preparar diante de tragédias como essa do Rio Grande do Sul?

Todos os avisos do INMET são divulgados no portal e nas redes sociais do Inmet para todos. Inclusive, as pessoas podem também se cadastrar diretamente no portal para receber esses avisos. Temos um contato direto com a Defesa Civil Nacional, que é responsável em encaminhar esses avisos para os estados e municípios.

Muitos estados e muitos municípios têm defesas civis muito boas, que conseguem fazer com que essa informação chegue tanto à população em geral, como também a quem precisa tomar alguma ação. Então, essa articulação começa no governo federal, passa pelos estados e depois chega até os municípios.

Eu acho que o que falta no Brasil é um pouco também de compreensão sobre os avisos e como são feitos. Essa comunicação é feita, mas às vezes a população ainda não está acostumada em receber esse aviso e realmente seguir as instruções que estão sendo colocadas nos avisos. E aí entram diversas questões, porque tem a pessoa que mora numa região e ela fica com medo de sair de casa e de ser saqueada.

Enfim, é muito complicado, porque entra uma questão de cultura e realidade no Brasil. No entanto, estamos vivendo um novo normal e o poder público, assim como as pessoas, vão ter que se acostumar com tudo isso e a compreensão do sistema de avisos, que já temos a partir do Inmet é fundamental.

É claro que tem as pessoas em vulnerabilidade, que moram em áreas de risco e tudo isso já está ficando e vai ficar ainda mais arriscado. E sabemos que tudo isso é complicado, mas precisa de ações.

Então, eu acho que precisamos trabalhar melhor essa cultura dos avisos, mas entender também o lado humano dessas pessoas que estão lá.

Já que estamos falando de uma constante, como o poder público tem que se preparar? Como é possível avançar em termos de políticas públicas para minimizar o impacto dessas ações tão danosas?

Bem, talvez o que precisamos, enquanto cidades, estados e sociedade em geral é entender que as condições mudaram realmente. Então, aprender a conviver com isso. Tentar, por exemplo, antes de um período chuvoso, já ir buscando as informações se aquele período chuvoso vai ser realmente chuvoso, se a gente tem alguma tendência de seca. E tentar deixar alguns planos de ação, antes de que o desastre aconteça.

É claro que após um desastre tem um plano já de recuperação, de salvamento das pessoas, mas eu acho importante que cada estado, cada município tenha essa conscientização do que fazer antes do desastre acontecer. Porque essas previsões são realmente feitas.

Agora falando sobre a nossa região aqui do Centro-Oeste e Cerrado. Qual tem sido o principal impacto dos efeitos da mudança climática aqui?

Bem, a gente sabe que aumentou o desmatamento no Cerrado, sabe que as temperaturas têm aumentado e tudo isso influencia as condições climáticas e as ondas de calor, como vimos nos últimos anos.

E os fenômenos El Niño e a La Niña têm causado mais impactos aqui também?

A questão El Niño e a La Niña aqui na parte central do Brasil não têm um impacto tão direto como tem, por exemplo, na região sul ou nas regiões norte e nordeste.

Então depende de cada fenômeno, não tem uma relação direta na parte central como um todo. Porém, falando especificamente do Distrito Federal, podemos dizer que houve uma mudança total do uso do uso do solo nos últimos anos e a temperatura em Brasília mudou totalmente.

A estação meteorológica de Brasília começou a medir os dados em 1962 e fica localizada no Sudoeste. Esse bairro, por exemplo, não existia em 1962. E hoje está construindo uma quadra, que é vizinha ao Instituto. Então, toda a área em volta da estação mudou.

Toda a área do Distrito Federal mudou. O Cerrado que a gente tinha na década de 60, 70, já não existe mais. E isso a gente vê como resultado temperaturas mais altas em Brasília.

Para finalizar, qual é a previsão que temos para os próximos meses em Brasília?

Tem dois tipos de previsão. A previsão de tempo que vai de cinco a sete dias, é a previsão de céu claro, sem chuva ou chuva. Agora quando olhamos mais para a frente, falamos de previsão climática.

Então, quando falamos em tendência climática para um período longo, podemos ver aqui na página do Inmet a previsão para o período de maio, junho e julho deste ano.

Então, com relação à chuva, temos aqui uma área em cinza que indica que as chuvas devem ficar dentro da média para esse período de maio, junho e julho deste ano. O que não significa muita coisa, porque esses meses quase não chove e vamos ficar dentro dessa normalidade. Já, por exemplo, Rio Grande do Sul e para a parte Sul [do Brasil] temos um azul que indica chuva acima da média. Então, a gente ainda deve ter um trimestre com chuva lá.

Agora a temperatura para esses meses [maio, junho e julho], está indicando um laranjinha. Então indica temperatura acima da média. Uma temperatura de 0,4 até 0,6 graus acima da média. Então devemos ter nesse período [maio, junho e julho], que é outono, início de inverno, com chuvas dentro da normalidade, que é o início do período seco, e temperaturas ligeiramente mais elevadas.

E essa temperatura acima da média, agora voltando para o Brasil, está quase no Brasil todo, com exceção da região Sul dentro da média e partes da Amazônia muito acima da média. Seguindo a tendência mundial é que 2024 seja mais quente que 2023, em que já batemos vários recordes.

Fonte: BdF Distrito Federal

Edição: Márcia Silva

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