Silas Malafaia, Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro em ato bolsonarista. Foto: Taba Benedicto/Estadão Conteúdo

Ficou escondida, quase camuflada no meio de textos sobre a aglomeração fracassada de Copacabana, a informação sobre a artilharia disparada por Silas Malafaia contra os generais da ativa.

Malafaia sente-se com o poder de quem tem tropas civis para dizer o que disse. Que os comandantes militares que honram a farda devem renunciar aos postos que ocupam, até que haja uma investigação profunda do Senado.

Que investigação? Por que do Senado? Porque Malafaia e Bolsonaro, que ouvia tudo, acham que Rodrigo Pacheco deveria ser forçado a abrir o processo de impeachment de Alexandre de Moraes. Pacheco, segundo Malafaia, é frouxo, covarde e omisso. E os militares calados são cúmplices do Senado.

Os generais das três armas deveriam ir pra casa e ninguém poderia assumir seus lugares, até que tudo fosse esclarecido. Tudo seriam as decisões de Moraes, que o pastor chama de ditador da toga?

Malafaia cumpria ordens do tenente Bolsonaro e sabe que os militares não vão renunciar. Mas fez a sua parte. Avisar aos generais em geral, e não só aos que estão no poder, que a extrema direita se sente abandonada por eles e agora tenta humilhá-los.

Parece um recado irrelevante, mas não é. O fascismo sucumbiu à realidade. Braga Netto subiu no trio elétrico antes da chegada de Bolsonaro, para acenar para o povo, e foi embora, porque membros da mesma facção investigada não podem se encontrar. Hoje, Braga Netto não derruba mais o ajudante do síndico do prédio em que mora.

Generais que estiveram com ele, como Augusto Heleno, e oficiais subalternos golpistas não conseguiriam golpear hoje o chefe da torcida do time de peteca do Clube Militar.

O que sobra para Malafaia e Bolsonaro é fazer beicinho e esnobar os oficiais da ativa que assumiram postos de comando no governo. São esses os generais com tropas, que batem continência para Lula, mesmo que comandos sejam sempre instáveis e aderentes ao mais forte do momento.

Malafaia e Bolsonaro não tiveram a coragem de chamar os atuais e os ex-chefes militares de covardes, como o senador Jorge Seif definiu o ex-comandante do Planalto, general Gustavo Henrique Dutra.

Pastor Silas Malafaia em ato bolsonarista. Foto: Reprodução

Em setembro, em intervenção na CPI mista do Golpe, Seif chorou ao afirmar o seguinte, diante do general:

“Eu quero repetir para o senhor que o senhor é um covarde e o senhor presta continência para comunista. O senhor hoje serve um ladrão e o senhor traiu o seu povo”.

Na semana passada, ao depor na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, na Câmara, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, ouviu ataques ao mesmo Dutra, desta vez desferidos pelos deputados bolsonaristas Ricardo Salles e Marcel van Hattem.

Dutra foi o militar que autorizou a entrada da polícia no entorno do QG do Exército em Brasília, no dia 9 de janeiro, para que fossem presos manés e terroristas ali acampados. Salles e Van Hattem disseram ter vergonha do general.

Tomás respondeu que Dutra era um grande militar e que ele e os deputados têm conceitos diferentes do que possa ser vergonhoso. E o que ficou do embate foi a amplificação da gritaria contra quem a extrema direita considera traidor fardado.

Em Copacabana, Silas Malafaia citou por três vezes, com estocadas depreciativas, o general Freire Gomes, o ex-comandante do Exército que Braga Netto classificou como cagão por não ter aderido ao plano do golpe.

Alguns podem dizer: ah, mas Bolsonaro ficou quieto ao lado do pastor. Ora, diria a baleia que ouviu o comício em Copacabana, foi Bolsonaro quem mandou Malafaia atirar nos generais. Ele mesmo não atirou por covardia.

O comício flopado no Rio deu sequência aos ataques aos militares, para que Bolsonaro e Malafaia deixem claro que agora a tropa prioritária é outra.

É o rebanho evangélico de Malafaia, com o apoio de Edir Macedo e do reacionarismo católico, que precisa lutar, segundo Bolsonaro, “ou iremos para o matadouro como cordeirinhos”.

Malafaia e Bolsonaro desistem dos militares, porque no momento não há o que fazer, e se agarram ao poder da militância civil, dentro e fora das igrejas, que dá suporte ao bolsonarismo. No Rio, não funcionou. Nikolas Ferreira diria que eles apostam na fé e na testosterona.