GILBERTO MARINGONI: TENSÃO. VAMOS BAIXAR A BOLA, GENTE!

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2 de abril de 2024 –

 

Tensão. Vamos baixar a bola, gente!

por Gilberto Maringoni

  • Chegou todo mundo?
  • Quase… Tá vindo o pessoal do Trabalho. O da Reforma Agrária já tá na sala…
  • E a Fazenda?
  • São sempre os últimos. A turma da Comunicação da presidência tá aqui… O pessoal da Gestão tá a caminho.
  • Mas pra que chamaram todo mundo aqui pra Casa Civil?
  • Emergência, cara, emergência…
  • Putz, vocês da Articulação Política são tudo paranoico…
  • Vamos acabar com os voos de vocês pela FAB, hahahahahaha!
  • Babaca…
  • Gente, gente, juntem aqui na sala. Acho que tem cadeira pra todo mundo. Quem não tiver, pode sentar pelo chão mesmo. Tem café fresco ali no canto, água e uns biscoitinhos. Vai ser rápido.
  • Casa Civil sempre dando ordens…
  • Não são ordens, porra! São instruções do presidente da República. Vamos começar?
  • Vamos.
  • Demorô!
  • Vamos lá, que a agenda tá cheia…
  • Companheiros e companheiras – arram! – eu chamei vocês aqui agora por determinações do próprio presidente…
  • Sssshhhhh…. Olha o silêncio aí atrás!
  • Deixa o pessoal pegar o café e o ministro fala.
  • Não! Vou falar já. Isso aqui não é quinta série, gente! A situação é muito tensa. Muito mais do que vocês estão pensando!
  • Justo.
  • O presidente avaliou que foi muito positivo termos evitado qualquer provocação na semana do golpe. Se houvesse algum ato do governo, os quartéis iriam ferver, iria aparecer ordem do dia saudando 64 para todo lado e a situação ficaria incontrolável.
  • Justo. Isso mesmo.
  • Eu sei que muitos de vocês ficaram chateados, mas a vida é assim. Houve algum desgaste, mas foi na bolha. Essa gente de esquerda, militante de Fecebook e tik-tok. O presidente avalia que a grande maioria da população não tem a menor ideia do que seja golpe de 1964.
  • Verdade…
  • Então – estamos aqui com 15, 16 ministros. Nós superamos uma potencial crise com os generais. Caminhamos para a pacificação. Mas não acabou.
  • Como não acabou? A data do golpe passou….
  • O excelentíssimo ministro vai deixar eu continuar, ou paramos por aqui?
  • Desculpe. Vai lá, ministro.
  • Estou dizendo para vocês: a situação é muito séria, muito tensa. Agora temos problemas com os mercados. Temos de acalmar os agentes financeiros, se não, vocês sabem, o ambiente de negócios se deteriora, os investidores não sentem confiança…
  • …e comprometemos o déficit zero!
  • Eita! O ministro da Fazenda, como se diz em minha terra, enquanto eu tou voltando, ele já tá indo de novo… Mas vamos lá. Se a gente não se mexeu na semana do golpe, por absoluto senso de responsabilidade, o presidente pede que sejamos ainda mais responsáveis e comprometidos com o futuro desse país.
  • O presidente sabe o que faz…
  • Pois é… O presidente pede agora um sacrifício ainda maior. O presidente, depois de muito refletir, com toda a sua experiência política, determinou que não governemos.
  • Ããhhh? N-não governemos?
  • Como assim?
  • Que diabo é isso?
  • Não é Deus e nem Diabo. Temos de ter senso. A situação internacional, a crise climática, a crise na Ucrânia, as ameaças ao ajuste fiscal e a hesitação dos investidores indicam essa como a única solução. Assim como nós nos abstivemos de falar ou articular algo sobre o golpe, precisamos dar um passo adiante. Se começarmos a organizar iniciativas de cada pasta, de editar portarias, projetos de leis, deslocarmos equipes para fazer isso ou aquilo, dar andamento a algum tipo de reforma, administrar o que quer que seja, isso será entendido como interferência indevida do governo eleito no cumprimento de promessas de campanha. Interferência do Estado no mercado, entendem? E isso não pode acontecer!! Vocês querem o caos??
  • Não, mas…
  • O ministro tem razão! O presidente sabe o que faz.
  • Verdade. Se fizermos alguma coisa, se nos metermos a governar, o governo pode entrar em crise. Pode cair. Olha a correlação de forças. Olha o centrão, olha o Maduro…
  • Meus companheiros e companheiras, sabia que vocês entenderiam. Como se diz lá na minha terra, quando um não quer, dois não ralam! O presidente sabe o que está fazendo.
  • É estranho, mas é verdade…
  • Acho mais prudente, mesmo. E como fazemos?
  • Bom, todo mundo vai seguir entrando as 8 e saindo às 6, com duas horas de almoço, mas pelamordedeus, não toquem em nada. Fique cada um em sua sala, tomando café, na internet, no celular, mas nem sonhem em governar! Se a gente não governar, não tem provocação, não tem tentativa de golpe, os generais se recolherão às suas funções constitucionais e evitamos a polarização.
  • Bravo!
  • Déficit zero e governo zero!
  • O Brasil voltou!
  • Como se diz na minha terra, fora Bozo!

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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