ALIADOS IMPORTANTES PROCURAM CONTROLAR ISRAEL SEM DEIXAR FORA DE PERIGO

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A busca diplomática por um cessar-fogo em Gaza ganha força à medida que a ameaça de ofensiva terrestre em Rafah se aproxima


Crédito: Lior Mizrahi/Getty Images)

Key allies seek to rein in Israel without letting Hamas off the hook

The Guardian

Por Patrick Wintour

Em Nova Iorque, na Organização das Nações Unidas (ONU), em Bruxelas, na União Europeia, em Haia, no Cairo, no Rio e mesmo em Westminster, está em curso um conjunto de danças diplomáticas sutis e inter-relacionadas.

Os principais apoiantes de Israel estão a tentar exercer pressão sobre o seu aliado, evitando ao mesmo tempo fazer apelos absolutos a um cessar-fogo imediato em Gaza, que temem que deixaria um Hamas maltratado no comando, a sua liderança em geral.

O principal estado árabe no Conselho de Segurança da ONU, a Argélia, pretende votar na terça-feira (20) em Nova Iorque a sua resolução que apela a um cessar-fogo humanitário e apoia as ordens provisórias emitidas contra Israel pelo Tribunal Internacional de Justiça há três semanas. Os Estados Unidos (EUA) declararam que irão vetar a resolução – tendo já vindo em defesa de Israel duas vezes desta forma desde 7 de outubro.

Numa longa declaração na segunda-feira(19), a embaixadora dos EUA na ONU, Linda Thomas-Greenfield, explicou o pensamento da administração de Joe Biden: “Os EUA estão a trabalhar num acordo de reféns entre Israel e o Hamas, o que traria um período imediato e sustentado de calma para Gaza durante pelo menos seis semanas, e a partir da qual poderíamos então dedicar o tempo e as medidas necessárias para construir uma paz mais duradoura.”

Os EUA têm o seu próprio projecto, que visa proteger a sua reputação, exercendo pressão sobre Israel para não montar o seu ameaçado terreno ofensivo em Rafah.

A redação criou ondas na noite de segunda-feira porque pedia um cessar-fogo imediato, linguagem que os EUA não usaram anteriormente, embora com o acrescento crítico: “assim que for praticável”. Ao opor-se a uma zona tampão israelita, à deslocação em massa e a uma ofensiva terrestre em Rafah nas atuais circunstâncias, a resolução dos EUA tenta limitar as opções de Israel e fazer avançar as negociações no Cairo sobre um possível acordo de cessar-fogo.

Em Bruxelas a história é simples. Na segunda-feira, os participantes em uma reunião do Conselho dos Negócios Estrangeiros da UE concordaram sobre a necessidade de uma pausa humanitária imediata em Gaza que levaria a um cessar-fogo sustentável, à libertação incondicional dos reféns detidos pelo Hamas e à prestação de assistência humanitária aos palestinos.

A formulação é semelhante à política semi-declarada do governo do Reino Unido: uma pausa prolongada para retirar os reféns e os prisioneiros palestinos, e para negociar um cessar-fogo sustentável.

Cunhado pela primeira vez em conjunto pelo secretário dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, David Cameron, e pela ministra dos Negócios Estrangeiros alemã, Annalena Baerbock, o “cessar-fogo sustentável” é uma frase crítica no debate diplomático. Tal como definido por Cameron, significa que o Hamas já não representa uma ameaça à segurança de Israel, o que implica logicamente a remoção da atual liderança do Hamas de Gaza.

Alguns membros da UE prefeririam apoiar um cessar-fogo imediato e incondicional, mas isso teria perdido o apoio da Alemanha.

Em Westminster, a disputa é tanto entre dois partidos da oposição: os nacionalistas escoceses, que apresentaram um simples apelo a um cessar-fogo imediato a ser debatido na quarta-feira; e os Trabalhistas, que procuraram manter-se próximos da posição do governo do Reino Unido e durante mais de um mês usaram a linguagem de um incêndio sustentável, exigindo implicitamente que o Hamas se rendesse ou fosse derrotado por Israel.

No fim de semana, à medida que a pressão aumentava dentro do Partido Trabalhista, a linguagem e possivelmente a posição mudaram. Uma moção aprovada por unanimidade na conferência trabalhista escocesa no sábado (17) enfrentou muitas direções, afirmando claramente que não havia justificativa para a perda de vidas inocentes, mas também afirmando que não era sustentável para o Hamas permanecer em Gaza.

Em Munique, falando com diplomatas importantes durante o fim de semana, Keir Starmer, o líder trabalhista, teria recebido uma mensagem dos estados árabes que querem um cessar-fogo imediato e possivelmente outro do secretário de Estado dos EUA.

Starmer também teria sido informado de que o Hamas poderia ser persuadido, no contexto de um cessar-fogo, a retomar a discussão sobre a formação de um governo tecnocrata cuja fonte de autoridade seria a Organização para a Libertação da Palestina. Isto implicaria um reconhecimento do direito de Israel existir.

Em seu discurso ao Partido Trabalhista Escocês, Starmer evitou uma decisão. O gabinete sombra decidirá na terça-feira se cruzará o Rubicão e apoiará um cessar-fogo imediato.

Mas a história não termina aí. Na quarta (21) e quinta-feira(22), o Brasil – a sua liderança acusou abertamente Israel de genocídio – acolherá a reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros do G20 no Rio. É provável que ocorra um confronto global em Gaza. 

Entretanto, em Genebra, as partes no tratado sobre o comércio de armas se reunirão para discutir transferências de armas para o conflito entre Israel e a Palestina.

E até 26 de fevereiro, Israel terá emitido o relatório exigido ao tribunal internacional de justiça sobre a forma como está a cumprir as ordens emitidas pelo tribunal para fornecer ajuda a Gaza e acabar com o incitamento ao genocídio.

É neste contexto multifacetado que Israel decidirá se continuará a prosseguir uma ofensiva terrestre em Rafah. Na segunda-feira, um membro do gabinete de guerra de Israel disse que a ofensiva começaria no início do mês sagrado muçulmano do Ramadã, em pouco menos de três semanas, a menos que o Hamas libertasse os reféns israelenses restantes.

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