POR QUE O ADOECIMENTO MENTAL SE TORNOU PARTE DA ROTINA DOS POLICIAIS NO RIO DE JANEIRO?

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Bope police special forces patrol an alley of the Mare shantytown complex in Rio de Janeiro, Brazil, on May 4, 2015. Rio's police is on the econd phase of replacing the Brazilian army personnel involved in pacification tasks in the 140,000 inhabitants Mare slum complex, in a process they expect to end by June 30. AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA (Photo by YASUYOSHI CHIBA / AFP)

VIOLÊNCIA E SAÚDE

Segundo especialistas, há uma relação direta entre o aumento da violência e os casos de suicídio de agentes de segurança

Jéssica Rodrigues
Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |

 

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2022, o número de suicídio entre policiais civis e militares no Brasil cresceu 55% entre 2020 e 2021 – Yasuyoshi Chiba / AFP

Os índices de violência no Rio de Janeiro têm crescido nos últimos anos. Um levantamento do Instituto Fogo Cruzado mostrou que houve aumento de 29% nos tiroteios na região metropolitana da cidade no mês de janeiro de 2023. Ainda de acordo com os dados, 14 pessoas foram vítimas de balas perdidas na região, sendo 8 delas durante ações ou operações policiais.

Além de serem alarmantes, os números têm relação direta com um grande problema que atinge também os trabalhadores da área: a saúde mental. A rotina dos agentes de segurança pública do Rio, marcada pela violência, tem preço alto na vida desses profissionais, sobretudo quando se trata de adoecimento mental, assim como os casos de suicídio.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2022, o número de suicídio entre policiais civis e militares no Brasil cresceu 55% entre 2020 e 2021. No estado do Rio de Janeiro, foram 15 suicídios registrados entre esses profissionais no mesmo período.

 

Para a pesquisadora do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), Fernanda Cruz, existe uma relação direta entre o aumento da violência e o adoecimento dos trabalhadores da área de segurança.

“A gente sabe de todos os índices que a polícia tem de letalidade policial, a gente sabe que tem vítimas que são mais comuns da atividade policial e às vezes gera um mal estar nas pessoas falar que estamos querendo promover a saúde dos policiais. O que estamos tentando mostrar é como tudo isso está na mesma atmosfera, porque se a gente está falando de saúde do policia, também está falando da forma que o policial atua na rua”, explica a pesquisadora.

O ex-policial civil do Rio de Janeiro e atual policial federal, Roberto Uchôa, explica que “é muito difícil para o policial buscar ajuda e apontar a si mesmo como alguém fragilizado dentro desse meio muito masculino e conservador”. “Então quando o servidor tem a coragem ou a necessidade de mostrar que tem um problema, não é só que ele não recebe o apoio, ele é estigmatizado, ele passa a ser perseguido, ele passa a ser apontado como alguém que está usando de um pseudo problema para fugir de responsabilidades”, diz Uchôa.

 

Treinamento inadequado

Outro problema apontado pelo policial é o treinamento dado aos agentes, que segundo ele “é inadequado”. “A violência começa no treinamento. Nós não preparamos nossos policiais para serem prestadores de um serviço de segurança pública. A gente fala em segurança pública, mas ainda continua com o conceito de proteger o Estado e não a população. Você vê isso no treinamento, você foca muito mais no conceito de guerra, de inimigo, no conceito de que estamos ali para batalhar do que no conceito que estamos ali para prestar um serviço para todos”, aponta.

Já para Janaína Matos, perita criminal da polícia civil do Rio, o problema “é cíclico, uma vez que a violência destrói a saúde mental dos policiais, esses mesmos policiais vão para as ruas despreparados e acabam causando mais violência”. Segundo ela, é necessário investir em políticas de prevenção e cuidado com a saúde pública dos trabalhadores da área de segurança.

 

“É conhecido que se você combate muito o monstro, você precisa se cuidar para não virar o monstro. E aí quando você tem uma categoria que são os trabalhadores da segurança pública que convivem com o mais traumatizante psicologicamente a um ser humano que é a violência diariamente e você combina com o fato de não ter qualquer política ou trabalho para a saúde mental desse trabalhador você tem uma bomba que já explodiu e explode no número de policiais que se descontrolam durante o trabalho, agridem, atiram por motivo banal, no número de policiais que se suicida”, finaliza.

Em fevereiro deste ano, o estado do Rio de Janeiro adotou um programa de prevenção ao suicídio voltado para policiais civis, inspetores de polícia penal e servidores que trabalham com adolescentes que cumprem medidas socioeducativas.

O programa “Segurança Q Previne” é coordenado pelo IPPES, junto com o governo do estado e o Ministério Público do Trabalho (MPT). A ideia é que, no futuro, a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros também façam parte do projeto.

 

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Mariana Pitasse

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