MST: 39 ANOS DO ENCONTRO QUE INICIOU O MAIS LONGEVO E IMPORTANTE MOVIMENTO DE LUTA PELA TERRA

PROGRAMA BEM VIVER

Hoje composto por mais de 450 mil famílias, MST tem como marco inicial um encontro em Cascavel (PR) em janeiro de 1984

Redação

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MST aposta na inserção dos povos do campo e das cidades para a tomada de decisões – Ricardo Stuckert

Em janeiro de 1984, na cidade de Cascavel, região Oeste do Paraná, um encontro nacional seria a semente da formação da mais longeva e importante união de pessoas pela luta pela terra. Durante uma semana, lideranças do campo estiveram reunidas e criaram a base para a formação do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

O primeiro evento oficial do Movimento viria acontecer no ano seguinte, em 1985, já intitulado 1º Congresso Nacional do MST. Desse encontro foram instituídos os lemas “Terra para quem nela trabalha” e “Ocupação é a Única Solução”. E nos meses seguintes aconteceriam as primeiras ocupações de terra com assinatura do MST.

No entanto, não foi a primeira ocupação, o primeiro lema, nem o primeiro congresso que decretaram o nascimento oficial. O Movimento colocou na sua certidão a data de 24 de janeiro de 1984 como a origem de tudo. Por tanto, nesta terça-feira, (24), o MST está de aniversário, completando 39 anos.

“Foi um encontro que celebrou esse nascimento”, define Ceres Hadich, membro da Coordenação Nacional do MST e assentada na região Norte do Paraná.

Em entrevista ao programa Bem Viver desta terça-feira (24), a liderança explicou que a celebração acontece, na verdade, durante toda a semana, ainda que o dia 24 seja considerado o aniversário em si.

“O marco do MST é janeiro de 1984. A partir da segunda quinzena do mês se iniciou esse encontro em Cascavel (PR) reunindo coletivos e grupos de  todo país que buscavam a retomada da democracia do país”, explica Hadich, destacando que o Brasil ainda vivia sob os temores da Ditadura Militar.

Atualmente, o MST é composto por 450 mil famílias assentadas e cerca de 90 mil famílias acampadas, organizadas em 24 estados brasileiros. Essas famílias estão organizadas por meio da agricultura familiar camponesa atuando em 1,9 mil associações comunitárias, 160 cooperativas e 120 agroindústrias, produzindo alimentos saudáveis para o campo e a cidade.

As bandeiras fundadoras do MST seguem as mesmas desde o processo de criação, aquelas mesas descritas nos lemas construídos no 1º Encontro Nacional. No entanto, Hadich lembra que o Brasil mudou nesse período, e algumas orientações do Movimento também foram adaptadas.

“Hoje, diferentemente, dos anos 1980, a população brasileira é majoritariamente urbana.” Diante disso, Hadich comenta que o MST precisou se adaptar à nova realidade para continuar incidindo no debate político e em diálogo com a população.

“Quanto mais perto do povo brasileiro a gente consegue chegar, mais a gente entende que está cumprindo nosso papel de construir a reforma agrária popular.”

As adaptações funcionaram. Hoje bonés e camisetas do MST, por exemplo, são comumente vistas na rua, sendo usadas por pessoas de diferentes idades, ainda que em maior proporção entre o público jovem. 

Solidariedade

Em 2020 uma das principais missões do MST foi colocada à prova. “Foi um momento muito difícil pra nós. É duro relembrar, foi um momento dificílimo pra história do país, pra humanidade e pro povo brasileiro”

Ceres Hadich se refere à pandemia de covid-19, que chegou ao Brasil em março de 2020, causando quase 700 mil mortes, registradas até o momento.

Durante a crise sanitária, o MST fez uma mobilização histórica. Foram doadas mais de 7 mil toneladas de alimentos e mais de 1 milhão de marmitas para pessoas e famílias inteiras em situação de fome e insegurança alimentar em todas as grandes regiões do país.

“A solidariedade na pandemia foi uma forma de retribuir aquilo que a gente foi capaz de conquistar com a luta pela terra. A gente tem muita gratidão com a nossa base assentada que fez isso individualmente também.”

Ceres Hadich segue seu raciocínio destacando como essas ações de apoio foram importantes para fortalecer, mais uma vez, a bandeira de solidariedade, erguida desde a construção do movimento. “Houve uma valorização da nossa auto estima, do nosso entendimento de como valeu a pena a luta pela reforma agrária, porque nesse momento a gente conseguiu apoiar aqueles e aquelas que mais tavam precisando”.

Agroecologia 

“Na prática é produzir comida de verdade, saudável e construir relações de respeito entre as pessoas, os povos e a natureza”. Mesmo afirmando que é um conceito complexo, Ceres Hadich resume em poucas palavras o que é agroecologia.

O movimento que propõe um tipo de plantio sem agrotóxicos e sem monoculturas tem ganhado cada vez mais adeptos. Não se trata de uma ideia nova, idealizada recentemente por meio de estudos científicos.  As bases da agroecologia vêm do conhecimento de povos tradicionais.

“A agroecologia é um jeito de viver, ela aponta pra gente a possibilidade de seguir vivendo, de seguir vivendo com dignidade, com respeito.”.

Ao mesmo tempo, a agroecologia faz um contraponto ao modelo do agronegócio, definido por Hadich como “lógica hegemônica de morte”. 

“A gente sabe que é esse futuro [agroecológico] que a gente quer, mas o futuro se constrói no nosso dia a dia.”

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