ATAQUE A PODCASTER POR ABRIR VAGA A NEGRAS E INDÍGENAS REACENDE DEBATE SOBRE AÇÕES AFIRMATIVAS

TRETA NA INTERNET

Para coordenador do Núcleo Negro da Unesp, o caso explicita dificuldade do Brasil em enfrentar desigualdades históricas

Gabriela Moncau
Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

 

O podcast Não Inviabilize tem cerca de 420 mil ouvintes – Reprodução – Redes sociais

Não demorou, depois de anunciar uma vaga de assistente de roteiro para mulheres pretas, pardas e indígenas, para que a podcaster Déia Freitas sofresse uma enxurrada de ataques na internet.  

Em menos de 24 horas, seu nome esteve, na última terça-feira (11), entre os assuntos mais citados no Twitter. O e-mail que receberia os currículos teve que ser desativado, depois de uma onda de tentativas de acesso.  

O anúncio explicita que a vaga é voltada para “mulheres cis [aquelas que se identificam com o gênero de nascimento], mulheres trans, travesti”: “pode mãe solo, pode casada, pode solteira, pode tico-tico no fubá, pode hétero, pode lésbica, pode bi, pode tudo”.  

“Tem uns caras falando que vão me processar porque estou discriminando gente branca e homens”, afirmou Freitas em sua rede social.  

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Em entrevista à Folha de S. Paulo, a redatora e apresentadora do podcast Não Inviabilize contou que entre os 60 currículos que recebeu antes de perder o acesso ao e-mail, a maioria era de pessoas brancas.  

Nesta quarta-feira (12), ela informou que o e-mail foi reabilitado e que o perfil para a vaga segue o mesmo.  

De acordo com Déia Freitas, as críticas que recebeu vieram, em sua maioria, de setores progressistas. “Eu não estou sendo atacada por bolsonaristas, nem pela direita, uma gente que nem conheço da esquerda é que está espalhando mentiras sobre mim”, expôs no Twitter. 

O caso levanta, uma vez mais, debates sobre o mito do racismo reverso, discriminação e políticas de ações afirmativas.  

Mecanismo de combate às desigualdades 

Professor de Jornalismo da Unesp de Bauru, Juarez Xavier é ativista do movimento negro e coordenador do Núcleo Negro Unesp para a Pesquisa e Extensão (Nupe).  

“O Brasil tem um déficit muito importante na discussão das suas desigualdades, que tem marcadores muito precisos, de gênero, de classes sociais e étnico-raciais”, constata.  

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Das 12,5 milhões de pessoas sequestradas da África e trazidas à América pelo sistema escravista, 4,8 milhões vieram ao Brasil, que implementou também uma política de genocídio indígena.  

“Todo esse passivo não foi desconstruído com a abolição da escravidão, pelo contrário”, argumenta Juarez Xavier. Citando os estudos do sociólogo Jessé Souza, o professor expõe como “entre 1870 a 1930 constituíram-se políticas no Brasil que permitiram a concentração do que Souza chama de um capital econômico, social, cultural e político numa franja da sociedade brasileira, formada fundamentalmente pelos cerca de 3 milhões de imigrantes que entraram no Brasil nesse período”. 

Concomitantemente, políticas eugenistas defendidas por figuras emblemáticas do racismo científico tais como Nina Rodrigues e João Batista de Lacerda “bloqueavam legalmente, por meio de políticas públicas, o acesso da população negra ao mercado de trabalho formal”, ressalta o professor. “Essas pessoas são consideradas, até hoje, descartáveis”, afirma. 

Dados do Atlas da Violência de 2021 mostram que pessoas negras têm mais que o dobro de chance de serem assassinadas no Brasil. Relatório do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) com dados de 2020 revelou que, naquele ano, 182 indígenas foram mortos. Em comparação com o registro de 2019, houve um aumento de 61%. 

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Para Juarez, esses números são expressão de “um fenômeno em que um universo imenso de pessoas vive sem direitos sociais e tem de acomodar sua sobrevivência numa sub-cidadania, que nunca foi enfrentada seriamente no nosso país”.  

“No curto espaço de tempo em que foram adotadas no Brasil – diferentemente de outros países em que foram implementadas ao longo do século 20 -, as políticas de ação afirmativas têm se mostrado eficientes no combate às desigualdades”, opina Xavier. 

Para ele, se trata de uma situação de “ganha-ganha-ganha”, já que “não há como ter o desenvolvimento consistente de um país com a maioria da sua população à margem dos direitos e da economia”.  

Pacto narcísico entre brancos progressistas 

Debates como esse trazido à tona nas redes sociais com a vaga para o podcast Não Inviabilize não são, nem de longe, novos.  

Refletindo sobre o fato de Déia Freitas ter recebido ataques de pessoas brancas progressistas, Xavier comenta que “a população negra vem fazendo essa discussão ao menos desde o século 19”, ao exemplificar com as propostas da Conjuração Baiana. O movimento de 1798 tinha inspirações na revolução haitiana de 1791 e defendia a abolição da escravidão e um salário mínimo adequado às condições dos trabalhadores. 

Na opinião de Juarez o conjunto da sociedade brasileira, no entanto, se debruça sobre o tema a partir dos anos 1980, com a Assembleia Constituinte. 

“Mas acontece que no Brasil há círculos de privilégio. E pessoas que vivem nesses círculos parecem ter uma incapacidade cognitiva de compreender a realidade social de quem vive do outro lado da ponte”, descreve Xavier, se lembrando da clássica música dos Racionais

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Entre as argumentações contra o perfil da vaga divulgada pela podcaster, estava o de que a ação afirmativa seria ilegal.  

A discussão já foi feita na Constituição de 1988, reafirmada em 2012 com a adoção das cotas sociais e raciais nas universidades e reafirmada inúmeras vezes por decisões do STF, tal como quando o Supremo confirmou a constitucionalidade da Lei 12.990/2014 que reserva a pessoas negras 20% das vagas oferecidas em concursos públicos federais.  

“Resta, para além da ignorância em relação à questão legal, um supremacismo racial naturalizado. Pessoas que, ao aderirem ao pacto narcísico da branquitude, absolutamente não reconhecem o outro”, afirma Juarez. 

“Pacto narcísico” é um termo usado pela psicóloga Cida Bento no artigo Branqueamento e branquitude no Brasil. Nele, ela discorre sobre a existência de “um acordo tácito entre os brancos de não se reconhecerem como parte absolutamente essencial na permanência das desigualdades no Brasil”.  

Para Juarez Xavier, situações como a gerada pelo processo seletivo para o podcast “reafirmam a necessidade de seguirmos debatendo, com seriedade, os mecanismos de enfrentamento às desigualdades do nosso país”. 

 

Edição: Vinicius Segalla

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