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Como já é praxe acontecer, todo fim de ano os membros a Associação Filosofia Itinerante (AFIN) realizam uma entrevista com uma mãe ou um pai de santo para saber quais suas previsões para o ano que se aproxima, como promessa do novo, apesar de muitas vezes, como temos percebido no Brasil, desde o ano de 2016, com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, eleita democraticamente, o ano novo teima em não se apresentar. Como se o tempo tivesse parado. Embora o tempo não pare, é sempre um vir-a-ser, como afirma o filósofo Heráclito e o poeta Cazuza. Entretanto, no Brasil vem predominando a mesma repetição. Exemplo mais próximo, os três últimos anos com Bolsonaro, eleito pelos mesmo que deram o golpe na democracia popular.

Este ano, que hoje finda, 31 de dezembro de 2021, entrevistamos a afável, singela, solícita, insigne, sensível, ética e detentora de uma inteligência impar, a engajada Mãe Zulinha. Na linguagem do filosofo Spinoza, uma mulher onde o amor se movimenta como contínua potência ontológica. 

Mãe Zulinha, mora na periferia de Manaus em uma casa que fica no centro de um terreno repleto de árvores, animais como pássaros, habitantes naturais das árvores,galinhas, picotas, papagaios e periquito fagueiros soltos íntimos vistantes, muitas flores, além de uma deslumbrantes colmeia. Na frente do terreno ha um portão de madeira. Quando nos aproximamos dele e batemos palmas, veio na nossa direção um cachorrão latindo e balançando o rabo, seguido de uma voz vindo do meio do terreno exclamando: Não tenha medo! É Freud! Não faz mal a ninguém”. Abrimos o portão, entramos com Freud nos lambendo e pulando com um olhar de quem nos analisava. Já dentro do terreno, outro cachorrão marrom, vei latindo em nossa direção, e a mesma voz exclamou:” Não tenham medo é Marx, não faz mal a ninguém. Como Freud só faz o bem e não olha a quem”. 

Contornamos a casa, e vimos a dona da voz. Era uma mulher esbelta, cabelos negros amarrados com um lenço colorido sobre a cabeça perto de uma churrasqueira assando uns peixes e fumando um charuto. Era Mãe Zulinha, que pediu que nos aproximássemos, e foi dizendo: “Já sei! É o pessoal da Afin!”. Confirmamos a observação e ela indicou que sentássemos em uns bancos que estavam distribuídos pelo terreiro. Um pouco ao fundo havia um círculo de cimento com uma espécie de estrado e uma vela vermelha acesa no centro. Ao lado do estrado, uma gata-amarela amamentava uns gatinhos. Mãe Zulinha disse: “É Rosa Luxemburgo praticando sua maternidade”. Mais no fundo do terreno havia um campinho onde crianças batiam uma pelada. O tempo estava convidativo, Havia chovido pela manhã e o clima estava propício para a prática do esporte bretão e a arte grega, o teatro.

Então, começamos a entrevista. 

ASSOCIAÇÃO FILOSOFIA ITINERANTE: Diante da realidade que os brasileiro estão vivendo, quais são suas previsões para o ano de 2022?

MÃE ZULINHA – Faltou vocês dizerem “realidade cruel”. Vai ficar pior!

AFIN – Pior?!

MZ – Sim, pior. Vai aumentar a miséria, o desemprego, a informalidade, as crianças e os adolescentes vão começar a sentir dificuldades de frequentar as escolas, a pandemia, com a Covid e suas variantes, ainda vai permanecer criando ansiedade e aumentando angústia-existencial em função da, ainda, impossibilidade de criar nova realidade com segurança social para todos. O desgoverno vai continuar com sua forma irracional de observar o Brasil pela sua perspectiva-pessoal.

AFIN – Quer dizer que vai ser a mesma redundância desses últimos três anos?

MZ – Com um agravo: é tempo de eleição, e o desgoverno vai fazer tudo para obscurecer o clima eleitoral para tirar proveito para suas ambições que, como já foi provado, não tem nada de democrático.

AFIN – Quer dizer, se as previsões são mais do que péssimas, porque péssimo já estamos vivendo, o que o povo tem que fazer? Pedir penico?

MZ – Não! Não, porque não haveria penico para tanta gente. Não esqueçam que o povo é a potência-política produtora de democracia. E o povo já vem mostrando que já começa querer mudar o jogo que nenhum juiz ladrão vai poder mudar o resultado. A coisa vai ficar pior, mas o futuro, para o presente atual, é 2023. Vocês estão querendo saber da previsões para o ano 2022. Se futurarmos o 2022 temos o 2023 que é o futuro de uma presente que já morreu na altura do campeonato. Entenderam?

AFIN (Gargalhando) – Entendemos! Mãe Zulinha tem razão! Era para nós pedirmos as previsões para 2023. 

MZ (Sorrindo) – Mas não esqueçam: um tempo futuro não antecede um presente-futuro. É preciso o movimento. Não é o que diz a dialética? A tese é hoje, a antítese é o antagônico como tese hoje, e a síntese é um ano depois de um ano que é 2023.

AFIN (Gargalhando) – Cararro! É mesmo! É que esquecemos que Mãe Zulinha é Filósofa, Cientista Política e Psiquiatra Materialista. Se entendemos é assim: 2022 é o momento antagônico movimentado por nossas atuações democráticas envolvendo todos o seguimentos sociais como unidade-povo.

MZ- Devir-Povo!

AFIN – Certo, Devir-Povo. Assim, mesmo como com toda a desgraça causada pelo desgoverno o Devir-Povo se movimenta em práxis e poises produtora do novo futuro.

MZ – Certíssimo (Batendo palmas)! Vocês também são sábios. 

AFIN – Mais ou menos. Agora, as previsões serão possíveis de serem maneiradas, mesmo péssimas para o ano próximo. Uma pergunta meio sacana: Quem a senhora acredita que vai ser eleito presidente? O Moro tem chance?

MZ (Gargalhando e dando uma boa baforada no charuto) – O Moro é uma candidatura delirante, própria de quem sofre da exacerbação-narcísica do ego. Insegurança-política-social. É próprio do caráter fálico-narcisista. Certo que existem muitos sujeitos-sujeitados semelhantes a ele que acreditam que o mal deve ser usado para fazer o mal aos outros em benefício de si próprio.  Mas essa quantidade de sujeitos-sujeitados não é suficiente para elegê-lo. Moro foi criado para não ser brasileiro. Foi criado com um Ideal de Ego norte-americano. Não ganha nem para porteiro do condomínio do Velho da Havan. No caso de Bolsosonaro, não tem nem o que se falar. Já foi, já era, nem precisa Jair se preparando para se defender dos processos, escafedeu-se. O seu nagacionismo, também conhecido como pulsão de morte, como diz Freud. Prestem atenção (Chama o cachorro Freud). Freud! Freud! Vem cá! Diz para o pessoal da AFIN o que faz uma pessoa ser negacionista (o Cachorro late várias vezes). Estão entendendo? Ele está dizendo que a pessoa negacionista sofre de disjunção dos instintos e conturbação no movimento da libido. Por isso, nega a vida pois não pode vivenciá-la. Sem instintos em unidades atuantes e a energia libidinal com falha na distribuição, não há encadeamento com Eros.

AFIN – Essa foi no ID. Mas, então, quem leva?

MZ (Sorrindo debochada) – Quem leva? Tá na barba, meus santos! 

AFIN – O Sapo Barbudo!

MZ – Sem qualquer dúvida. Nem a cartesiana. É Lula! Até Biden sabe. Não precisa nem convocar os santos e os cabocos.

AFIN – Mas, Mãe Zulinha, este ano é ano de Copa do Mundo. Será que a copa não pode ajudar Bolsosonaro?

MZ – Como?

AFIN – A Seleção Brasileira levantando o caneco. Ganhando.

MZ – A seleção não vai ganhar nada! Não tem salvação para Bolsonaro! Nem se houvesse o milagre da seleção ganhar. Essa seleção não ganha nem do Manaus Futebol Clube. 

AFIN – Falando sobre Manaus, e aqui no Amazonas como vai ficar?

MZ – Do mesmo jeito. Pior não pode ficar. Dizem que quando uma coisa está pior, pode ainda ficar muito mais pior. Mas no nosso caso, chegamos ao extremo. Não limite. Limite ainda pode-se ir a uma pouco além. Extremo, como afirma o filósofo Baudrillard, não há mais além. O Amazonas sempre teve péssimas administrações, mas esta é modelo modelizado.

AFIN – E quem pode ser eleito para governo do estado?

MZ – Pela mostra que se tem, todos. Todos são iguais. Para piorar não tem uma candidatura de esquerda que possa se dizer: Essa tem virtualmente votos eleitorais. As esquerdas no Amazonas sofrem de anemia do contentamento. São profundamente deprimidas. Fazer política para elas é como uma fantasia-fálica: deslocamento do signo real. A vantagem das esquerdas no Amazonas é que o Lula vai ganhar. Aí, muito aproveitador vai deitar e rolar por cima da carne seca, como dizia o finado Dinho, ator do Grupo de Teatro Universitário do Amazonas (GRUTA). 

AFIN – A senhora não acredita que se essas esquerdas tomassem um banho de mijo do preto velho ela não se despertaria. Ia à luta. E não ia ter mais para qualquer direitista nazifascista e companhia?

MZ (Gargalhando) – Não, O mijo do preto velho ia era se perder. Um mijo tão importante seria jogado fora. Essas esquerdas não mudam nem no bucho da piraíba. 

AFIN – Qual a compreensão que a senhora tem para as esquerdas do Amazonas serem tão domesticadas, anestesiadas, alienadas.

MZ – Reificadas. São meras coisas (Chama o cachorro Marx e fala com ele). Marx diz para o pessoal da AFIN por que as esquerdas do Amazonas são desengajadas (O cachorro late várias vezes). Estão entendendo. Ele disse que é porque as esquerdas têm o mesmo conceito de política criado pela semiótica capitalista. Por isso elas não sabem o que é politica, trabalho, trabalhador, salário, greve. Para elas todos esses conceitos elas respondem como aprenderam com a semiótica burguesa-capitalista. Nunca realizaram a crítica dialética através da semiótica marxista. O mesmo conceito elas têm de educação. Por isso que não existe professor-educador de esquerda. Até mesmo quando fala em Paulo Freire. Elas não sabem, como afirma Lacan, que é a linguagem que cria o mundo, como o trabalho, como afirma o Marx. Se foi a linguagem do mundo burguês quem criou esses conceitos, é lógico que as esquerdas vão reverberar como se fossem revolucionárias, sem o exame dialético. Aí, não tem eleitor que acredite que uma proposta posta por um candidato que se diz esquerdista é para transformar o estado de coisa dominante.

AFIN – Essa Mãe Zulinha deixou azul os esquerdistas do Amazonas. E sobre os candidatos da Assembléia, Câmara Federal e Senado, vai haver renovação.

MZ – Como diz o jornalista-filósofo Mino Carta: tudo a mesma sopa. Os caras do Bolsonaro não vão ser reeleitos. Vai ter um senador que vai querer ser reeleito com ajuda das esquerdas, mas é profundamente reacionário, embora se diga que foi comunista. Que foi. Coisa da carochinha. Mas, nada de renovação. E nem renoVascão, que vai continuar na segundona. Para a depressão de meu irmão e meu sobrinho que choram quando ele perde.

AFIN – E sobre o movimento artístico do Amazonas? Vai desbundar? 

MZ – Infelizmente vai ter nenhum desbunde. Vai continuar quase da mesma forma. Como vocês sabem os artistas do Amazonas, principalmente de Manaus, são, em sua maioria, alienados. Também muito deprimidos. Existem alguns que querem formar um movimento de vanguarda, engajado, mas há muita fantasia não estética, com profundos sentimentos de culpa, muito sintoma psíquico familialista. É muito Édipo. E muitos estão sempre ligados com os governantes sem sequer desconfiar que a linguagem artística é totalmente diferente da linguagem paranoica da sintomática política. Não sabem com Maiakovski que “A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para transformá-lo”. Por isso é impossível uma previsão boa. Mas, existem aqueles que qualquer migalha é para eles uma mudança e uma boa dedicação das alcunhadas autoridades.

AFIN – E sobre a AFIN?

MZ (Gargalhando) – A AFIN tem sempre como previsão o sentido real da existência que diz: O Destino da Vida é a Política. Com esse sentido não existe previsão ruim. O que AFIN realiza é seu destino como produção práxis e poieses. 

AFIN – Valeu, Mãe Zulinha! Muito obrigado pelo excelsos esclarecimentos e nossos abraços ao Freud, Marx e Rosa Luxemburgo com seus gatinhos maravilhosos.

MZ – Estão vendo aquele pulando por cima da mãe? O nome dele é Lulinha. Não vão querer provar o peixe? Está gostoso! E tem mais: não provoca mijo preto.  Aproveitem que logo, logo vai aparecer uma galera famintona que engole todos esses peixes que nem socó! 

                                            

                                  Manaus, 31 de dezembro de 2021. 

 

 

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