CIMI: HUTUKARA DENUNCIA, EM NOTA, MORTE DE DUAS CRIANÇAS YANOMAMI EM DECORRÊNCIA DO GARIMPO

Foto CIMI

do CIMI – Conselho Indigenista Missionário

Hutukara denuncia, em Nota, morte de duas crianças Yanomami em decorrência do garimpo 

“A morte das duas crianças Yanomami é mais um triste resultado da presença do garimpo na Terra Indígena Yanomami (TIY), que segue invadida por mais de 20 mil garimpeiros”, diz a nota da Hutukara Associação Yanomami sobre o acidente fatal de duas crianças envolvendo uma draga instalada em uma balsa de garimpo em seu território.

Lideranças da comunidade Macuxi Yano, região do rio Parima, informaram, na última quarta-feira, 13, à coordenação da Hutukara que dois meninos, de cinco e sete anos, estavam desaparecidos. Segundo os relatos, eles brincavam “próximos à balsa de um garimpo instalada no local”. Imediatamente, a coordenação da Hutukara acionou o Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Y´ekwana (Condisi-Y) e o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Desei-Y), que disponibilizou uma aeronave para o sobrevoo no local. A Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Corpo de Bombeiros foram acionados pelo Condisi-Y e, no mesmo dia, os bombeiros iniciaram as buscas. A Funai não se manifestou até o momento dessa publicação.

À tarde do dia 13, o corpo do menino de cinco anos foi encontrado pela comunidade e, na quinta feira, 14, os Bombeiros encontraram o menino de sete anos.

A nota da Hutukara traz dados estatísticos de um aumento estrondoso do garimpo na região do rio Parima, nas proximidades da comunidade Macuxi Yano. Em relação a dezembro de 2020, a floresta degradada aumentou em 118,96 hectares. Significa que mais 53% da floresta foi derrubada em menos de um ano na região. Significa, também, que as comunidades próximas da instalação do garimpo estão mais vulneráveis às ações dos garimpeiros pelo aumento do número de pessoas que vem ali se instalando para desenvolver o garimpo, bem como atividades de suporte a ele.

O relatório “Cicatrizes na Floresta: Evolução do garimpo ilegal na TI Yanomami em 2020”, elaborado pela Hutukara Associação Yanomami e pela Associação Wanasseduume Ye’kwana, com assessoria técnica do Instituto Socioambiental, diz que uma das modalidades do garimpo na TIY “utiliza dragas flutuantes localizadas nos leitos de grandes rios”, como é o caso dos rios Uraricoera, Mucajaí, Catrimani e Parima.

Na região do Parima, segundo o relatório, “desde o auge da corrida do ouro na Terra Indígena Yanomami, nas décadas de 1980 e 1990, não se observava uma movimentação tão intensa no rio”, o que remete, mais uma vez, ao aumento da vulnerabilidade dos Yanomami frente aos garimpeiros.

Pelo menos dois fatos ocorridos em 2020, divulgados pela imprensa e verificados no estudo da Hutukara, demonstram essa vulnerabilidade e consequentes riscos à vida dos indígenas. Em junho de 2020, dois Yanomami foram assassinados em um conflito com garimpeiros e o “relato obtido na época dava conta de como o garimpo na região vinha se intensificando, com aumento das hostilidades para com os indígenas”. Em dezembro daquele ano, “o cantor paraense Wanderley Andrade realizou um show a convite de garimpeiros no interior da TIY, evidenciando simultaneamente a consolidação dos acampamentos garimpeiros e a certeza de impunidade”, denuncia o relatório.

A nota da Hutukara traz, ainda, o alerta feito em setembro de 2021 pelo Fórum de Lideranças da Terra Indígena Yanomami: “o aumento da atividade garimpeira ilegal na TIY está se refletindo em mais insegurança, violência, doenças e morte para os Yanomami e Ye´kwana”.

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) manifesta sua profunda dor pela morte das duas crianças e sua solidariedade com os povos Yanomami e Ye’kuana. Também expressamos nossa indignação diante da permanência e o aumento expressivo do garimpo na Terra Indígena Yanomami, sustentados pela inação do Estado brasileiro, omisso a suas responsabilidades constitucionais e às decisões da Justiça, bem como evidenciada ineficácia das operações pontuais dos últimos anos. É absolutamente imprescindível que o Estado brasileiro cumpra com sua obrigação constitucional de proteção das terras indígenas.

Basta de mortes e de violência contra os povos indígenas!

Confira a Nota da Hutukara na íntegra.
 

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Nota da Hutukara Associação Yanomami
sobre a morte de duas crianças em balsa do garimpo no Parima, TIY

 

13 de outubro de 2021

A Hutukara Associação Yanomami (HAY) recebeu na manhã desta quarta-feira (13) a informação de lideranças indígenas da comunidade Makuxi Yano, região do Parima, Terra Indígena Yanomami, sobre o desaparecimento de duas crianças ocorrido no final da tarde de ontem.

Segundo o relato, dois meninos, de 05 e 07 anos, brincavam no rio que banha a comunidade, próximo à balsa de garimpo instalada no local, quando foram sugados e cuspidos para o meio do rio e levada pelas correntezas.

A Hutukara encontrou entrou em contato com o Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (Condisi-Y) que por sua vez acionou a Funai (Fundação Nacional do Índio) e o Corpo de Bombeiros para se deslocarem ao local na busca pelos corpos e enviou ainda um ofício ao Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y) solicitando um voo urgente para o local do acidente.

Ainda no final da manhã, o corpo do menino de 05 anos foi encontrado pela comunidade. A outra criança segue desaparecida.

Em nota, o Corpo de Bombeiros de Roraima informou que recebeu a solicitação do CondisiY referente ao afogamento de duas crianças indígenas que teriam sido levadas pela correnteza de um rio na região do Parima, município de Alto Alegre.
Os mergulhadores do Corpo de Bombeiros vão se deslocar ainda hoje até a região para iniciar as buscas em uma aeronave disponibilizada pelo Dsei-Y.

Procurados, o Dsei-Y e a Funai ainda não se manifestaram.
 

Garimpo

A morte das duas crianças Yanomami é mais um triste resultado da presença do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, que segue invadida por mais de 20 mil garimpeiros. Até setembro de 2021, a área de floresta destruída pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami superou a marca de 3 mil hectares – um aumento de 44% em relação a dezembro de 2020. Somente na região do Parima, onde está localizada a comunidade de Macuxi Yano e uma das mais afetadas pela atividade ilegal, foi atingido um total de 118,96 hectares de floresta degradada, um aumento de 53% sobre dezembro de 2020. Além das regiões já altamente impactadas, como Waikás, Aracaçá, e Kayanau, o garimpo avança sobre novas regiões: em Xitei e Homoxi, a atividade teve um aumento de 1000% entre dezembro e setembro de 2021.

O Fórum de Lideranças da Terra Indígena Yanomami se reuniu em setembro para trazer a voz da floresta, e já dissemos: o aumento da atividade garimpeira ilegal na Terra Indígena Yanomami está se refletindo em mais insegurança, violência, doenças, e morte para os Yanomami e Ye’kwana. As autoridades brasileiras precisam continuar atuando para proteger a Terra-Floresta, e impedir que o garimpo ilegal continue ameaçando nossas vidas.

Dário Vitório Kopenawa Yanomami
Vice-presidente da Hutukara (Associação Yanomami)

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