INFECTOLOGISTA REBATE MENTIRAS DIVULGADAS POR OMAR TERRA NA CPI DA COVID

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BOLSONARISMO

Para infectologista José David Urbaez Brito, depoimentos como o de Osmar Terra na CPI são “estarrecedores”

Eduardo Maretti Rede Brasil Atual
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“O que se fez sempre nas pandemias foi isolar os doentes e os mais vulneráveis, não as pessoas sadias”, disse Osmar Terra – Marcos Oliveira/Agência Senado

Os depoimentos de personagens como o deputado Osmar Terra (MDB-RS) na CPI da Covid, nesta terça-feira (22), formam um ambiente de debate “estarrecedor”, diz José David Urbaez Brito, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). “Ele fala como se fosse professor titular e conhecedor profundo da dinâmica de uma pandemia.”

A avaliação leva em consideração, inclusive, a capacidade de influência das falas em uma CPI, que potencialmente podem ser vistas por milhões de pessoas. O deputado mostrou “sinceridade” impressionante ao negar a ciência, se colocar contra medidas de isolamento, lockdown e a favor da imunidade de rebanho natural.

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Politicamente hábil, o parlamentar, considerado o “padrinho” no chamado gabinete paralelo de Bolsonaro, demonstrou segurança ao contestar evidências científicas a essa altura incontestáveis.

Para Urbaez Brito, se o tema em debate fosse algo “pequeno”, o impacto das opiniões seriam reduzidos, mas o que se discute no Senado “é a maior crise sanitária do país em um século”.

“Estamos falando de uma hecatombe. Todo mundo que trabalha do lado de cá – infectologistas, epidemiologistas, professores universitários, pesquisadores –, ficamos atônitos. A gente vê a insurgência de pessoas que não têm absolutamente nenhuma competência nesse campo, mas que se apoderaram das decisões, da narrativa e da comunicação.”

Um presidente “que pensa”

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) – citado pelo infectologista como um inquiridor “cirúrgico” – afirmou durante a sessão que o depoimento de Osmar Terra foi útil e que ele “prestou grande contribuição quando esclarece que o presidente (Jair Bolsonaro) é o único responsável pelas decisões que toma, e ele decide como quer”.

Em uma de muitas vezes em que foi questionado sobre sua influência na conduta negacionista do chefe de governo, Terra refutou haver um gabinete paralelo à margem do ministério da Saúde e declarou que “o presidente tem opinião própria, o Brasil tem um presidente que pensa”.

Osmar Terra, que teve tuítes negacionistas repercutidos por milhões de pessoas, como observou o vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), voltou a rejeitar a necessidade de distanciamento social e lockdown sistemática e claramente.

“Podemos isolar toda a população sem sair de casa durante quanto tempo? Isso não é factível”, afirmou, em resposta ao senador Rogério Carvalho (PT-SE).

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Mas governadores e prefeitos que adotam restrições não defendem um raciocínio teórico, aponta Urbáez Brito. “É evidente que alguém tem que trabalhar. Mas tem que definir muito bem as atividades essenciais.”

Basicamente, resume, são os profissionais de saúde e quem se dedica à produção, distribuição e venda de alimentos e medicamentos, além do pessoal de segurança e limpeza. “Com isso, se reduz cerca de 70% de circulação das pessoas”, explica.

O vírus tem capacidade de se transmitir e desenvolver a doença entre 14 a 21 dias. Com lockdown, as pessoas que não se infectaram não terão contato com os infectados, e a queda na transmissão será “vertiginosa”.

“Não é preciso muita ciência para compreender isso”, diz. Testagem em massa e máscaras de boa qualidade são também armas essenciais na luta, lembra.

Wuhan

O especialista lembra ainda que em Wuhan, a cidade chinesa onde provavelmente começou a pandemia provocada pelo SarS-Cov-2, as autoridades aplicaram um combate implacável à disseminação, com lockdown rigoroso e colocando até drones para monitorar a movimentação de pessoas, entre outras medidas.

“No mundo ocidental, nessa sociedade capitalista liberal, temos questionamentos sobre a liberdade individual de se movimentar. Mas, nesse momento, é preciso um grande consenso com todos os setores econômicos, sociais, de saúde, transporte, de tudo o que forma o tecido social. Alguns não vão gostar, mas é preciso exercer o poder a favor da coletividade”, diz Urbáez Brito.

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Países que deram certo

O infectologista cita Portugal, Reino Unido, França e Bélgica como países europeus que adotaram políticas restritivas que deram certo, apesar de erros como a realização da Eurocopa. Mas Nova Zelândia, Vietnã, a gigante Hong Kong (na China) e Twain, foram muito mais rigorosos.

“Se chega ou não chega vacina para eles, tanto faz. Mas não têm pandemia desde o ano passado. E se não tivéssemos vacina no Ocidente? O que íamos fazer? Dizer que não há maneira de fazer controle nenhum, que se infectem todos? O colapso do sistema de saúde seria permanente, e então seria a barbárie instalada.”

O especialista também rebate a “tese” defendida por Osmar Terra sobre imunidade de rebanho. Segundo o deputado bolsonarista, a imunidade natural deve se “somar” à vacinação para se chegar finalmente ao percentual necessário para pôr fim à pandemia.

A afirmação é cientificamente um disparate. “Se houvesse um vírus – inexistente na natureza, – absolutamente estável, imutável, que teoricamente não produzisse mutações mais eficientes, um grupo de pessoas se imunizaria pela infecção natural, e a vacina completaria o trabalho”, explica Urbáez Brito.

“Mas isso num surto pequeno. Numa pandemia, o número de vírus em replicação ao acaso tende ao ‘infinito’. Não se consegue controlar de modo algum de maneira natural.” Sem vacina, nesse cenário, o “repertório  imunológico” não  protegerá mais as pessoas de um novo de vírus.

Fugindo da raia

O sócio-administrador da Precisa Medicamentos, na mira da CPI da Covid, Francisco Emerson Maximiano, alegou, no fim da tarde de ontem, estar de quarentena obrigatória e que, por isso, não irá comparecer ao seu depoimento marcado para esta quarta-feira (23), a partir das 9h.

Segundo os advogados do empresário, ele desembarcou no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em 15 de junho vindo da Índia e a Coordenação de Vigilância Sanitária de Portos, Aeroportos, Fronteiras e Recintos Alfandegados determinou que ele cumprisse quarentena obrigatória de 14 dias. Por isso, o empresário não poderia ir a Brasília, alegam.

O comunicado, feito por e-mail, desagradou a comissão que, respondeu aos advogados que a CPI aguarda a presença do empresário. Alertou também que, se ele não se fizer presente, a ausência será considerada injustificada, e “serão adotados os mesmos procedimentos” tomados em relação ao empresário Carlos Wizard.

“Ele começou muito mal”, disse o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), ao reclamar do aviso da defesa de Maximiano na véspera de seu depoimento.

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A Precisa Medicamentos entrou na mira da CPI da Covid, depois das denúncias de que o governo de Jair Bolsonaro pagou preço 1.000% maior pela vacina Covaxin do que era anunciado pela própria fabricante, a indiana Bharat Biotech, seis meses antes. Documentos do Ministério das Relações Exteriores comprovam a transação.

Além disso, há suspeitas de corrupção e de pressão do governo federal para a compra da Covaxin. A empresa também já é alvo do Ministério Público do Distrito Federal por suposta fraude na venda de testes rápidos para covid-19.

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