“MORTE DE CHEFE DA MILÍCIA FAZ PARTE DE ESTRATÉGIA PARA ELEIÇÕES”, DIZ PESQUISADOR

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ENTREVISTA

Para sociólogo José Cláudio Souza Alves, estratégia relaciona a milícia ao tráfico e desresponsabiliza o papel do Estado

Mariana Pitasse
Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |

 

Wellington da Silva Braga, conhecido como Ecko, foi morto em operação da Polícia Civil no último sábado (12) – Reprodução

No último sábado (12), jornais de todo o país noticiaram a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, retratado como um dos criminosos mais procurados do país. A descrição de bandido renomado não foi cunhada à toa: Ecko era um dos líderes da maior milícia do Rio de Janeiro.

A morte de Ecko foi parte de uma operação da Polícia Civil, planejada para a sua captura. À imprensa, o atual governador do Rio, Cláudio Castro (PSC), comemorou a morte do líder miliciano como um dia histórico. Segundo ele, “Ecko simbolizava a impunidade”. O senador Flavio Bolsonaro (Patriota) também celebrou, parabenizando a ação policial nas redes sociais.

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Para José Claudio Souza Alves, sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que estuda as milícias há mais de 26 anos, Ecko era peça descartável dentro da estrutura miliciana que fazia parte e sua morte integra uma estratégia que vem se consolidando no Rio de Janeiro visando as eleições de 2022.

“A morte do Ecko se alinha a uma escalada de assassinatos e de construção de uma ideia de uma ação ‘antimiliciana’, que tenta escamotear a verdadeira forma da milícia no Rio, jogando nas costas do tráfico, nas costas do Ecko, uma repercussão equivocada. Ele era um mero soldado. Não comanda essa estrutura”, explica em entrevista ao Brasil de Fato. 

O grupo miliciano a que Ecko fazia parte é organizado na Zona Oeste da capital e já foi batizado de três formas distintas ao longo dos anos: “Liga da Justiça”, “A Firma” e, por último, “Bonde do Ecko”. Seu auge de atuação remonta ao ano de 2007. 

Ecko se tornou uma das lideranças do grupo, em 2017, após a morte do seu irmão Carlinhos Três Pontes, ex-traficante do Morro Três Pontes, em Santa Cruz. Os dois foram responsáveis por estabelecer uma articulação mais direta da milícia com a facção do tráfico Terceiro Comando Puro. 

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Nos últimos meses, o grupo ganhou destaque nas páginas dos jornais por ter as atividades relacionadas ao ex-vereador do Rio Dr. Jairinho, preso pela morte do enteado Henry Borel, de 4 anos, e seu pai, o coronel Jairo, ex-deputado estadual.

Ao contrário da repercussão da morte de Ecko veiculada na imprensa, José Cláudio ressalta que o acontecimento não significa uma grande transformação na estrutura miliciana.

“Eles matam seus membros, principalmente quem é ligado ao tráfico, mas não vão tocar na estrutura, quem é ligado ao aparato do Estado, por isso, a milícia continua funcionando. O controle territorial, por sua vez, se fortalece e se amplia. Figuras como os Bolsonaro e demais grupos de extrema direita vão ser os beneficiários dessa manutenção, já calculada, enfileiradamente, para o desfecho nas eleições de 2022”, afirma.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: O que representa a morte do líder miliciano Ecko na última semana em operação da Polícia Civil do Rio?

José Cláudio Alves: O assassinato do Ecko, a meu ver, faz parte de uma estratégia que vem se consolidando no Rio de Janeiro. Essa estratégia se iniciou em outubro do ano passado, a um mês das eleições, com uma ação conjunta da Polícia Civil e da Polícia Rodoviária Federal, que vitimou 17 pessoas na Baixada Fluminense. Trata-se de uma espécie de guinada da atuação policial com o objetivo de matar membros do que chamam de “narcomilícia”. 

Essa estratégia sinaliza a ideia de que existe uma milícia que está sendo construída pelo tráfico de drogas. Algo absolutamente falso já que as milícias se constituem basicamente por agentes do Estado e não por traficantes. 

 Quando fazem essa construção alegam que os traficantes são responsáveis pelas milícias.

 

Assim, jogam a responsabilidade da milícia nas costas do tráfico e isentam a estrutura policial do Estado, que é absolutamente comprometida com a milícia. Também ratificam a imagem de “bandido bom é bandido morto” como prática que “resolve” os problemas do Rio. 

A morte do Ecko, portanto, se alinha a uma escalada de assassinatos e de construção de uma ideia de uma ação “antimiliciana”, que tenta escamotear a verdadeira forma da milícia no Rio, jogando nas costas do tráfico, nas costas do Ecko, uma repercussão equivocada. Ele era um mero soldado. Não comanda essa estrutura. 

Qual o objetivo dessa estratégia?

Essa é uma lógica de palanque, construída para fortalecer o discurso da extrema-direita, a qual Cláudio Castro [PSC], atual governador do Rio, e seus comandados se vinculam.

 Uma lógica que já produziu efeitos nas últimas eleições, fortalecendo politicamente grupos milicianos na Baixada e no Rio. 

 

O desdobramento disso foi a criação do 39° Batalhão da Polícia Militar em Belford Roxo, na Baixada, em uma região chamada Complexo do Roseiral. De janeiro até agora já foram mortas mais de 20 pessoas em operações contra o Comando Vermelho nessa área, fortalecendo um grande projeto de expansão miliciana.

Outra escalada se deu na chacina do Jacarezinho, favela comandada pelo Comando Vermelho. Essa foi uma clara manifestação de apoio às milícias dessa área. 

Ecko se tornou líder da milícia “Liga da Justiça” após a morte de seu irmão Carlinhos, em 2017. A disputa pela chefia local dessa milícia está em jogo também agora. Quais os cenários possíveis?

A liderança do Ecko já sofria contestação por parte do Danilo Dias Lima, conhecido como Tandera. Ele rompeu com o Ecko em uma disputa interna. A polícia atribui a uma discordância em relação aos vínculos da “Liga da Justiça” com o Terceiro Comando Puro. Eu acho que isso é falso, até porque o próprio Ecko tem sua origem no tráfico. 

A meu ver essa disputa está se dando pela recusa do Ecko de valorizar interesses e ganhos que a polícia e o governo do estado querem obter com essa milícia nesse momento. Interesses que estão associados à expansão do controle territorial, econômico e político, visando as eleições de 2022. Como Ecko discordou desse uso e dessa potencialização, ele virou uma peça descartável. O Tandera a meu ver aceitou esse acordo e virou uma peça em ascensão.

 É o cenário de 2022 que está se projetando, o controle dessas áreas que está em jogo.

 

É disso que se trata, constroem dimensões da violência, eliminam os que são descartáveis e vão se projetando como heróis nessa estrutura que eles próprios construíram. 

A morte de Ecko pode significar uma queda ou perda de poder de Jairo e Jairinho dentro desse grupo miliciano?

As lideranças de Jairo e de Jairinho não estão em jogo. Não estão ameaçados porque fazem parte do jogo político, estão consolidados, são vinculados à estrutura de poder do Estado. A meu ver, não representam um desalinhamento, eles consolidam esse poder. 

O Tandera, o Ecko, são soldados de frente, prontos para serem mortos, mas os grandes negócios prosseguem. As mortes deles são rearranjos de fortalecimento de quem tem poder nesta estrutura, que é normalmente quem tem o poder político, para quem a polícia mata, para quem a polícia faz o serviço sujo. 

É preciso ter muita atenção e não acreditar que esse movimento significa uma grande transformação e fim dessa milícia. Não tem nada a ver com isso.

O senador Flavio Bolsonaro comemorou a morte de Ecko nas redes sociais, no último sábado (12), parabenizando a operação da polícia civil. Qual o real sentido dessa comemoração?

Figuras como Flavio Bolsonaro com histórico de envolvimento com milícias, com homenagens a milicianos, com envolvimento com Adriano da Nóbrega, que foi líder do Escritório do Crime, também com relações com Fabrício Queiroz, outro membro da estrutura miliciana de Rio das Pedras, comemoram a morte do Ecko porque os interessa. 

Com um acontecimento desses, eles limpam a imagem de que são vinculados a essa estrutura, dizem que apoiam a morte de milicianos.

 Na verdade, é a morte de um traficante que operava em parceria com a milícia e foi colocado como líder para ser morto. 

 

É uma peça útil também porque permite um marketing “antimiliciano” desse governo, o que é pura mentira. Eles são a própria estrutura miliciana. Claro que vão fazer esse discurso de comemoração, mas é uma jogada midiática que vão lançar mão. A morte do Ecko cumpre esse papel e a milícia se torna um palanque. 

Eles matam seus membros, principalmente quem é ligado ao tráfico, mas não vão tocar na estrutura, quem é ligado ao aparato do Estado, por isso, a milícia continua funcionando. O controle territorial, por sua vez, se fortalece e se amplia. Figuras como os Bolsonaro e demais grupos de extrema direita vão ser os beneficiários dessa manutenção, já calculada, enfileiradamente, para o desfecho nas eleições de 2022.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Jaqueline Deister

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