CONTAM QUE MORO PROMETEU AO PAI DESTRUIR A ESQUERDA DO BRASIL. AGORA, COM SUA SUSPEIÇÃO, COMO FICA A PROMESSA PATRIARCAL-BURGUESA FAMILIAL-PRIVADA?

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NO BALANÇO DA ESFINGE

 

Moro nasceu no ano de 1972, na pujança da ditadura. Antes, depois de 64, na força do golpe limitar-civil, prisões, torturas, sequestros e assassinatos contra personagens tidos como inimigos do regime, já haviam ocorridos. Entretanto, foi exatamente depois da imposição do AI-5, em 68, que castrou todas as garantias politicas democráticas e produziu a impossibilidade de qualquer sentido de liberdade, que foram criadas as perversas condições para que entre os anos de 72 e 74, o regime-ditatorial fizesse mais uso de seu poder repressor. A repressão tornou-se prática cotidianamente exacerbada contra os que pensavam democraticamente. Era a instalação definitiva do cruel período de terror imprimido sobre os brasileiros. 

O filósofo-psiquiatra Karl Jaspers chama de de peri mundo, o meio, o ambiente, o momento em que uma pessoa vivencia uma situação que envolve sua existência. O ano, a estação, o mês, o dia, a hora, o minuto, o segundo. Todos os corpos fenomenológicos que compõem o momento vivido, o que implica na experiência ontológica existencial de cada um. O peri mundo do Brasil era a ditadura. Não havia como escapar da condição dele. Mesmo os mais alienados, os que sequer sabiam da concretitude ditatorial, eram afetados por ele, visto que uma sociedade é a síntese de seus componentes politico, econômico, sociológico, psicológico, estético, moral, antropológico, etc., categorias que ninguém pode escapar de suas afetações.

O professor da Universidade Estadual de Maringá, Marcos César Danhoni Neves, escreveu um artigo no site Pragmatismo Político, publico no dia 19 de fevereiro de 2018, em que ele faz uma análise da construção da estrutura psíquica de Sérgio Fernando Moro, o Moro. Neste artigo, intitulado “Perseguição de Lula é Promessa de Família”, o autor narra que comentam na cidade de Maringá, que Moro prometera ao seu pai, que morrera em 2005, que eliminaria a esquerda no Brasil. Segundo Marcos César Danhoni, o pai de Moro era um conservador que apoiava o regime militar-civil e odiava o socialismo. Neste quadro, não há como não perceber o modelo patriarcal-burguês- paulínio-familial-privado como peri mundo dominante, como não há como perceber o grau de afetação deste modelo sobre Moro.

 

NO OLHAR DE ÉDIPO

 

Para Freud, a menina dos olhos da Psicanálise é o badalado Complexo de Édipo. É aí nessa triangulação que os afetos de rivalidade e amor, ambivalência, se encadeiam passando seus fluxos-libidinais ambivalentes em momentos de angústias de culpa e castração. O menino dirige sua libido para a mãe, desejando-a, e seu pai lhe aparece como rival. Por medo da castração, por desejar a mulher do pai, ele desenvolve a angústia-punitiva, visto que o pai surge para ele como a autoridade, o poderoso, a Lei, como diz Lacan. Angústia que posteriormente vai estruturar seu super-ego como referenciador ao Super-Ego-Social deslocado para a crença em Deus. Deus é formado no menino através dos atributos que ele fantasia no pai: onipotência, onisciência e onipresença. O pai representa todas as forças que ele, criança, não possui. O sentido teológico dos mistificados. 

Nessa situação de medo ao pai, o menino, para sublimar esse sentimento-angustiante, desenvolve uma forma de desejo para com ele, pai, que carrega elementos da mãe. Ou seja: o menino deseja o pai e quer que o pais lhe deseje. A psicanálise toma essa situação como resíduos-homossexuais. Entretanto, o menino continua tendo o pai como rival com pode de lhe castrar. Há nesse momento, o desdobramento de transferência pai-filho/filho-pai. O conhecido Ideal do Ego. O filho aspira ser como o pai, seu ideal, e o pai aspira que o filho realize o ideal que ele, pai, não realizou. Assim, fica formada a corrente fantasmagórica-edipiana indestrutível. 

No olhar de Édipo, Freud vai cunhar sua tese-profeticamente intemporal: A Criança É O Pai do Homem. Ou seja, a infância de uma criança institui os corpos futuros do adulto. Para a psicanalista Françoise Dolto, se uma criança vivencia uma educação oblativa, doadora, altruísta, solidária, ela sera será um adulto bondoso, amigo, comprometido com a sociedade e o mundo. Todavia, se ela tem uma educação captativa ela será um adulto egoísta, ambicioso, covarde, vaidoso, orgulhoso, submisso, simulador, mentiroso, etc. O que significa que ela foi impossibilitada de produzir afetos alegres relevantes junto com os outros que lhes permitissem se sentir segura, significada como sujeito-objeto de amor em si e no outro. Engajada e responsabilizada pela Ética-Subjetiva-Objetiva.

 

A PROMESSA

 

Não é só Freud quem mostra que a dívida é alimentada pela culpa. A culpa nasce de uma erro de entendimento da criança em relação a um sentimento projetado nos pais para depois, diante da censura deles, ser introjetada como castigo que se transforma  em auto-punição em função dela acreditar que cometeu um mal contra eles. Em um ego-adulto-infantilizado ela acompanha pela vida inteira o modus de ser desse sujeito-sujeitado à tirania de Édipo. Quando da vida adulta, mas ainda com ego-infantil, essa culpa é transformada em indignação moral-social. Deslocamento-projetivo-transferência. Foi essa a pulsão-culpa-morte que levou muitos acreditarem que Lula era corrupto, porque nos seus inconscientes Lula surgia como sublimação do mal da antiga criança, e Moro surgia como o pai-bom, protetor, o herói que salva os necessitados, o pai que a criança temia dominada pela culpa. O que a mídia de mercado-sádica-culposa-pulsão de morte, como a Globo, promoveu por seus interesses. Foi essa forma de mistificação-religiosa-culposa que elegeu Bolsonaro, responsável pelas mais de 303 mil mortes por Covid -19 juntamente com os que lhes depositaram crença.

Agora, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) julgou a suspeição de Moro anulando a condenação de Lula, mostrando que o presidente foi perversamente perseguido por personagens que usaram a instituição judiciária para sublimar suas ideias-sádicas-nebulosas. Se Moro prometeu, ao seu pai, destruir a esquerda, pergunta-se: como ele encontra-se agora lidando com essa realidade verdadeiramente jurídica em forma da absolvição de Lula, a mais importante liderança da esquerda no mundo atual, e a sua condenação de juiz que corrompeu a justiça em nome de um ideal de ego narcísico? Como ele se encontra com Lula Livre!?

Um ego-alegre-ativo sofre quando uma promessa-coletiva não é cumprida. Mas, sofre mais ainda um ego-estabelecido na família-privada, visto que implica e complica toda a força do poder semiotizado pelo patriarcalismo-judaico-fálico como verdade-moral incontestável. 

 

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