DEBORA MELECCHI DENUNCIA FALTA DE TRANSPARÊNCIA DE DESCASO DO MINISTERIO DA SAÚDE: ATÉ HOJE NÃO EXPLICOU CANCELAMENTO DE IMPORTAÇÃO DO KIT INTUBAÇÃO

Por Conceição Lemes

Tragédia mais que anunciada.

No momento, além do combate ao próprio vírus, brasileiros com covid-19 enfrentam mais uma mortal ameaça: a falta de medicamentos para intubação.

De cada 100 pessoas infectadas pela covid-19, 15 a 20 necessitarão de internação.

Das hospitalizadas, 30% a 40% terão de ser intubadas.

É o único jeito de insuflar os pulmões afetados e fazer o oxigênio chegar neles.

O procedimento é desconfortável e exige um conjunto de medicamentos imprescindíveis para a sua realização. O chamado kit intubação.

Sem esses medicamentos, não dá para entubar os doentes e ventilá-los.

E sem ventilação, eles morrem.

Desde o início do ano, sinais de alerta em relação à baixa dos estoques começaram a soar.

Em vários estados, havia falta de um ou outro nos hospitais públicos do País.

Há dez dias, pesquisa do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP) com 234 farmacêuticos de hospitais de todo o Estado revelou um dado assustador: 77% informaram problemas de desabastecimento de medicamentos nos seus locais de trabalho, em particular, alguns sedativos e neurobloqueadores musculares, indispensáveis para intubação.

O levantamento, feito entre 6 de fevereiro e 3 de março, mostrou que o problema se apresenta de forma semelhante hospitais públicos,  privados e filantrópicos.

Para piorar, na sexta-feira (19/03), uma  bomba explodiu.

Em 12 de março de 2020, o Ministério da Saúde cancelou uma compra internacional de medicamentos para o chamado kit intubação.

A informação consta de um ofício – a recomendação 54, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), de 20 de agosto de 2020 – encaminhada pelo Ministério da Saúde.

O documento faz referência ao cancelamento:

“Considerando que em 12 de agosto de 2020 a operação Uruguai II, executada pelo Ministério da Saúde para aquisição de medicamentos do kit intubação foi cancelada, sem que seus motivos fossem esclarecidos”.

“O Ministério da Saúde nunca se manifestou sobre o cancelamento; até hoje não nos explicou o motivo, embora tenhamos questionado”, denuncia a conselheira nacional de Saúde Debora Melecchi, coordenadora da Comissão Intersetorial de Ciência, Tecnologia e Assistência Farmacêutica do CNS.

Os dados que o Conselho Nacional de Saúde tem sobre a situação são informais.

“O governo se nega a fornecer informações ao controle social; falta transparência”, acusa.

Para Debora Melecchi, o desabastecimento dos medicamentos do kit intubação mostra o “descaso” do governo Bolsonaro com pandemia.

Na sexta-feira à noite (19/03), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância em Saúde) editou uma medida que flexibilizou as normas para importação e produção no Brasil  dos medicamentos do kit intubação.

A Anvisa agendou ainda reunião para o domingo (21/03) com representantes da indústria farmacêutica, conselhos nacionais de Secretarias de Saúde (Conass) e dos Secretários Municipais de Saúde (Conasems), entre outros.

Mas esqueceu de confirmar e a reunião foi cancelada.

Está agendada para esta terça-feira (23/03).

ANVISA ALIJA CNS DE REUNIÃO SOBRE KIT INTUBAÇÃO

Estranhamente, a Anvisa não convidou o Conselho Nacional de Saúde para participar da reunião de amanhã.

Ou seja, alijou o controle social, modus operandi típico do governo Bolsonaro.

A propósito, a Comissão Intersetorial de Ciência, Tecnologia e Assistência Farmacêutica do CNS está tentando reunião na próxima quarta-feira (24/03) para tratar do assunto.

Estão convidados Ministério da Saúde, Conass, Conasems, Sindusfarma (Sindicato da Indústria Farmacêutica) e Anvisa.

“Esperamos finalmente obter dados reais sobre a situação”, objetiva Debora Melecchi.

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