INFORMAÇÕES FALSAS FAZEM INDÍGENAS TEMEREM VACINAÇÃO CONTRA COVID – 19 NO PARANÁ

POVOS INDÍGENAS

Em Guaíra (PR), 63 indígenas Avá-Guaranis já foram vacinados; contudo, membros do grupo ainda demonstram desconfiança

Júlio Cesar Carignano
Brasil de Fato | Curitiba (PR) |

 

Indígenas têm sido alvo de ataques nas redes sociais desde que foi anunciada sua inclusão no primeiro grupo a ser vacinado contra covid-19 em todo o Brasil – Ilson Soares

Em meio a muitas incertezas e de forma tardia, teve início no Brasil, na semana passada, a campanha de vacinação contra covid-19 para os grupos considerados prioritários. Um dos grandes desafios nesta primeira etapa de imunização é combater a desinformação e a propagação de notícias falsas, as chamadas “fake news”, compartilhadas por grupos que colocam em xeque a procedência das vacinas.

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O obstáculo da desinformação é uma das principais preocupações de lideranças indígenas no Paraná. É o que aponta o cacique Ilson Soares, da terra indígena Yvohy, em Guaíra, comunidade que iniciou, nesta terça-feira (26), a imunização com aplicação da primeira dose da vacina em 63 indígenas Avá-Guarani.

“Nossa comunidade estava na expectativa para o início da vacinação, uma boa parte esperançosa com a chegada desta vacina, mas ainda contamos com o receio de alguns parentes que não querem ou têm medo de tomar a vacina”, diz o cacique.

Temor tem por base informações falsas

Segundo Soares, esse temor da vacinação se deve a informações falsas que têm circulado, além de histórias oriundas ainda da época da ditadura militar.

“Antepassados contavam histórias que perdemos muitos parentes naquela época por tomarem vacinas que eram contaminadas propositalmente com doenças com o objetivo de dizimar nossas comunidades. Hoje os tempos são outros e estamos buscando conscientizar a todos da importância de sermos imunizados e mantermos os cuidados mesmo após a vacina”, afirma o cacique.

Entre as mentiras veiculadas em comunidades estão a que os indígenas estão no grupo prioritário como “cobaias”, que a vacina provoca câncer e altera o DNA das pessoas ou que os indígenas vacinados irão falecer em seis meses.

Campanha de conscientização

Diante da onda de fake news, associações indígenas e indigenistas têm feito campanhas de conscientização junto às comunidades para combater esse movimento antivacina. “Historicamente os nossos povos sempre foram vítimas de doenças e epidemias trazidas pelos invasores. E, preocupados com que eles também fossem dizimados por esses males, correram atrás das curas. Mas também temos que ressaltar que as inúmeras vacinas hoje conhecidas contra doenças como o sarampo, a febre amarela e a gripe foram fundamentais para o controle dessas doenças”, pronunciou-se a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) em nota direcionada às comunidades.

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Ataques nas redes

Além da disseminação de informações falsas, os indígenas têm sido alvo de ataques nas redes sociais desde que foi anunciado que seriam um grupo prioritário na primeira etapa da vacinação, em razão do histórico de doenças e epidemias trazidas por agentes externos às aldeias, que historicamente dizimaram comunidades. Além de serem mais suscetíveis a doenças infectocontagiosas, a letalidade da covid-19 na população indígena é maior que na população não indígena.

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Letalidade entre indígenas

Em quase um ano de pandemia, de acordo com dados do Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena da APIB, 46.508 indígenas foram contaminados e 929 faleceram em decorrência de covid-19, afetando diretamente 161 povos em todo o país.

A alta mortalidade está diretamente ligada à situação de muitas comunidades, com casos de desnutrição, falta de acesso a água potável e dificuldade do acesso à saúde.

Ainda não há previsão de quando será aplicada a segunda dose da vacina contra covid-19 nas aldeias do Paraná. Enquanto isso, as aldeias seguem em alerta.

“Estamos conscientizando os parentes para que continuem tomando os cuidados mesmo após a vacina, para não abrir mão das máscaras, do álcool, não se aglomerar e sair das aldeias somente em necessidade, como no caso dos indígenas que trabalham nas cidades”, afirma Soares.

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Fonte: BdF Paraná

Edição: Camila Maciel e Pedro Carrano

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