PRODUÇÃO AFINSOPHIA.ORG

 

Todo fim de ano os membros do site Afinsophia.org e do Blog Esquizofia comparecem à casa de uma Mãe ou um Pai de Santo para para entrevistá-los e, assim, ouvir suas previsões referentes ao ano entrante. O ano alcunhado tradicionalmente de novo, visto que a palavra novo leva para entendimento de fatos e feitos benéficos, não só para cada pessoa em si, mas, também, para toda a sociedade. Embora saibamos que todo indivíduo é ele mesmo em si e a sociedade, como já foi afirmado pelo revolucionário filósofo Marx.

Entretanto, este ano, em função da imposição da pandemia, nós não realizamos a entrevista no face a face, como sempre fazemos. Diretamente, sentindo o cheiro da casa, o cheiro do café, o sabor da inigualável caninha, o bom e velho charuto, quase sempre cubano, o pastel recheado com jaraqui frito, banana frita, tapioca, cachorro latindo, gato dormindo nos atabaques, crianças brincando, bolo de fubá, manjar dos deuses. Nada disso foi possível, mas tão somente pela imaginação, posto que tivemos que recorrer a entrevista através da simulação da presença: a live. A desrealização do real como o duplo infantilizado, onde o outro desaparece fundando a gestalt do imperceptível. A ilusão-nostálgica do duplo. O fim do espelho de Lacan.

Porém, graças a nossa ignorância, a simulação teletecnológica tão defendida pelo doublê de filósofo, Pierre Lévy, foi impedida de se transformar em psicodelismo computador-visível. Não foi possível ser projetado como aplicativo live. Houve um agente providencial que não permitiu a transposição da gravação. Desta forma, salvo pelo filósofo Jean Baudrillard, transcrevemos toda a entrevista aqui no Afinsophia.org e o no Esquizofia.

 

A ENTREVISTA COM MÃE DAYMARA

 

AFINSOPHIA/ESQUIZOFIA (Todos alegres) – Mãe Daymara, com sua permissão, gostaríamos de oferecer esta entrevista-celestial para nossa querida-amiga Mãe Emília que se movimenta agora na caosmose-celestial junto com outras mães e pais, e que tem um nome construído com profícuos trabalhos junto à comunidade de Manaus.

MÃE DAYMARA (Emocionadíssima) – Claro! Esta histórica entrevista tem que ser oferecida com toda glória à Emília, minha honrada e inesquecível companheira. Trabalhamos muitas vezes juntas.

A/E – Honradamente, vamos começar a entrevista-histórica (Pausa). Tudo bem, Mãe Daymara?

MÃE DAYMARA (Gargalhando) – Não!

A/E (Surpresos) – Não!!

MD – Como tudo pode se encontrar bem com toda essa miséria no mundo. E no caso do Brasil, quase 15 milhões de desempregado, além da pandemia que já matou, só no Brasil, quase duzentos mil brasileiros. A barra está pesadíssima.

A/E – Desculpe Mãe Daymara! Fomos mal.

MD (Sorrindo) – Vou desculpar, mas não aceito que o pessoal da Associação Filosofia Itinerante (AFIN) use os mesmos clichês semióticos das aberrações. E aprendam de uma vez, para não errar mais: a desculpa não passa pelo sistema nervoso central. É mistificação, como diz o filósofo que vocês seguem, Nietzsche.

A/E – Fomos otários. Mas a senhora afirma que a barra está pesadíssima. Nos diga: em 2021, vai melhorar ou piorar?

MD – Depende.

A/E – Depende de quê?

MD – No caso do Brasil, que é a nossa responsabilidade, depende das atitudes da sociedade brasileira. Partir para a luta em todos os seguimentos: sociedade civil, Congresso Nacional, STF, movimentos sociais, igrejas progressistas, mídias democráticas, todas as vozes. Criar um novo agenciamento coletivo de enunciação produtor de novas formas existenciais de viver sem os quais o Brasil não sobrevive.

A/E – Falando em Congresso Nacional. Quem vai levar a eleição na Câmara? A turma do Bolsonaro ou o bloco contrário?

MD (Sorrindo) – Não existe turma do Bolsonaro. Falar desta forma é valoriza quem não tem qualquer relevância política. Os reacionários, retrógrados, antidemocratas sempre foram a maioria no Congresso Nacional e o Bolsonaro está servindo para a ambição deles. O próprio bloco contrário está contaminado por esses reacionários.

A/E – Mas a senhora não pode nem indicar uma pista de quem ganha?

MD – Posso. Pela minha vontade, ganha o bloco que faz parte a esquerda, mas temos que contar com a imoralidade-política dos outros. Mas, vamos levar essa. Que não é tão nossa. Vide os acordos.

A/E – Uma pergunta que interessa a maioria dos brasileiros: vai ter vacina para todos? E, completando: quando começa?

MD – A pergunta foi boa, já que um grande número de aberrações, seguindo o líder, afirma que não vai tomar e ainda diz que Deus não vai permitir serem contaminados. A vacinação começa pelos meados de fevereiro ou antes.

A/E – Com todo negacionismo do inquilino do Palácio do Planalto?

MD – O negacionismo não tem qualquer potência é apenas uma palavra esvaziada de ação. Por isso, não passa de superstição. O que produz o mundo é a potência criativa do Ser que se move como virtual-mutante do novo. A vacina faz parte do conactus da vida: a perseveração do viver. A vacina é a continuação da vida.

A/E – E o impeachment vai sair?

MD – É possível. Se o bloco de esquerda ganhar vai ser mais fácil. Mas a sociedade não precisa esperar o Congresso Nacional. Ela tem que não mais suportar as atitudes antidemocratas do inquilino. Tem que gritar uma basta! Se convencer definitivamente que para alguém ser presidente de uma República como o Brasil, tem que ser dotados dos atributos, princípios, predicados, valores superiores. Entender que não é o cargo que vai transformar qualquer um em uma autoridade para ser respeitada e ouvida. É preciso, também, muito panelaço todo o dia. A filósofa Hannah Arendt já afirmou claramente.

A/E (Batendo palmas ) – O que gosto na Mãe Daymara são esses profundos saques filosóficos. Claro que sabemos que ela além de filósofa é antropóloga, escritora, cinegrafista, atriz, poetisa, compositora, cantora, grande sambista, pintora, analista-política  e ainda joga futebol. E falando em futebol: o futebol brasileiro vai melhorar:

MD – Não. Vai continuar com os mesmo pernas de pau com jogadores e cartolas bajulando o inquilino. Mas eu tenho uma boa notícia para vocês. Para vocês não, para nós. O time do Manaus vai subir.

A/E (Palmas) – Falando em time do Manaus, e a cidade de Manaus como vai ficar?

MD (Sorrindo) – A mesma não-cidade. Trocaram um prefeito pelo mesmo. E com dois nomes mitificados. E como vocês sabem, mitologia não combina com política. O bíblico encontra-se envolvido com os mesmo personagens da realeza-fálica. Exemplo bem próximo: a indicação do ex-deputado Pauderney Avelino para a Secretaria de Educação do Município. O que é que Pauderney entende por Educação, já que passou todo seu tempo parlamentar defendendo causas antidemocratas como membro de um partido reacionário, um partido de patrões.

A/E – Quer dizer que Manaus está pebada?

MD – Não. Tem o devir-povo que não se submete às imposições irracionais das chamadas autoridades. Têm os reais movimentos sociais, tem os trabalhadores não pelegados.

A/E – A senhora perspectiva algum partido de esquerda entrando nesse movimento de criação da Cidade de Manaus, a original? Por exemplo o PT?

MD (Gargalhando) – O PT de Manaus é claramente de direita. Não viu a discursividade do candidato Zé Ricardo. Um marketing igualmente reacionário. Nada de ousadia. Referente ao povo como sujeito-histórico democrático, o PT é como a Universidade Federal do Amazonas: reificada e alienada em uma modelização esquizofrenogênica territorializada por seus segmentos burocráticos-institucionais-delirante não é traspassada por fluxos-mutantes e quantas-desterritorializantes. É preciso sinceridade: Manaus reflete muito a Universidade. Não devemos esquecer que a maioria dos profissionais da não-cidade foi modelada e organizada lá.   

A/E – Mas dizem que Manaus é atrasada, nunca muda, elege sues próprios inimigos, porque sofreu um forte trabalho enfeitiçante de macumba: enterraram uma carcaça de mula embaixo do Teatro Amazonas.

MD (Dando uma estrondosa gargalhas) – Que é isso, companheiros e companheiras? De macumba eu conheço. Esta história de carcaça de mula é usada por todo governante incompetente e corrupto para se defender e agir ilegalmente com o dinheiro . O diálogo é esse: “Prefeito, Manaus não avança. não sai do atraso”, pergunta o povão. “É a carcaça de mula!”. “E por que as autoridades não desenterram a carcaça da mula que tanto impede o desenvolvimento e o progresso de Manaus?”. “É impossível: para desenterrar a carcaça da mula nos teria que derrubar o Teatro Amazonas, e isso é um atentado a história da cidade, o orgulho dos moradores, e os franceses responsáveis pelo templo artístico, não iam gostar”. E tem mais: os animais não têm nada ver com a moral dita humana. Isso é antropomorfismo: atribuir sentido humanos aos animais. Incompetência é incompetência. Se uma mula tivesse que se enterrar jamais seria em Manaus. Se enterraria em sua terra, junto com seus companheiros.

A/E – E a segunda turma do STF vai julgar a liminar de Lula?

MD – Não.

A/E (Surpresos) – Não!

MD – Vai julgar a parcialidade de Moro.

A/E – E o que vai acontecer?

MD – Lula vai ter seu direitos políticos resgatados e Moro desmascarado sofrendo vários processos, chegando ao fim da linha de sua ilusão-fálica de ser um eminente jurista.

A/E – E a Globo vai informar ao povo que seu mito não era nem humano-juridicamente para ser tratado como mito?

MD – Vai. E vai fazer o que sempre faz com as mercadorias que usa: vai jogar no lixo-midiático.

A/E – E na decisão da Copa Brasil, quem vai ganhar Palmeiras ou Grêmio?

MD – Nenhum dos dois: todos dois são bolsonaristas.

A/E – E qual vai ser o destino das fake news?

MD – Vai diminuir a força de enganação do incauto. As eleições municipais já mostraram que elas não estão com toda bola. Não adiantou: as esquerdas se fortaleceram.

A/E – Falando em eleições, como vai ser administração do Edimilson, do PSOL em Belém?

MD – Boa. Ele tem os princípios básicos para se ser governante. Tem uma inteligente acima da média, é dotado de sensibilidade necessária ao novo e uma ética coletiva comprometida com o Bem Comum. Tudo que falta em todos governantes reacionários das direitas e ultra-direitas. E por que não dizer: os nazifascistas.

A/E – Não poderia faltar a pergunta narcísica: E quanto o Afinsophia.org e o Esquizofia, quais são as previsões? 

MD – Nenhuma!

A/E (Surpresos) – Nenhuma! Então, vamos acabar?

MD – Vocês não se metem a ser filósofos? Então, vocês sabem que as previsões são realizadas para as coisas, ideias, pessoas que atuam ou não atuam no tempo pulsado. O tempo modelizado pela semiótica dominante. Assim, como o espaço e a matéria de expressão como objetividade territorializada. Vocês são movimento, devir-mutante. Ninguém pode futurar um movimento. O que Marx tão sabiam. O que vai acontecer com vocês é produto do agenciamento coletivo estético que revelará novas formas de sentir, ver, ouvi e pensar. O que vocês já realizam pelas virtualidades poiéticas. 

A/E – Que toque, hein, meu. E nós ainda imaginamos que somos os tais. Agora, nesse finalzinho Mãe Daymara, não dava para fazer uma performance musical?

MD – Só se for uma samba. Pode?

A/E – A senhora é uma deusa! A senhora pode tudo!

MD – Então, vamos lá:

“Não deixe o samba morrer

Não deixe o samba acabar

O morro foi feito de samba

De samba pra gente sambar.

Quando eu não puder

Pisar mais na avenida…” 

 

 

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