SÉRGIO RICARDO, A ARTE PARA CORISCO NÃO SE ENTREGAR

PRODUÇÃO AFINSOPHIA.ORG

 

                                       “Se entrega, Corisco

                                         Eu não me entrego, não!

                                         Eu não sou passarinho

                                         Pra viver lá na prisão

                                         Eu só me entrego só na morte

                                         Com parabelo na mão”.

 Sérgio Ricardo é o artista que entendeu clara e distintamente a função da arte: criar continuamente o novo. Seu engajamento estético reflete cristalinamente o dizer poético de Mayakovsky:”A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para moldá-lo”. Um engajamento-estético que desconstrói a afirmação que existe arte burguesa. Sendo a arte a produção do novo, e sendo o burguês um defensor e alimentador do mundo já posto pela burguesia, o chamado artista burguês, assim como o chamado intelectual-burguês, não passa de conservador-reacionário propagador dos valores de sua classe. Tudo que Sérgio Ricardo não é.

Sérgio Ricardo é um artista de seu tempo, mas com a intempestividade dita pelo filósofo Nietzsche. A intempestividade da filosofia do amanhã. Como o devir-político-estético, seus percursos se movimentam por todos os topos que pedem a criação. Articulista, escritor, poeta, cineasta, pintor, e, principalmente, músico, faz trepidar a imobilidade estabelecida pelas forças contrárias ao devir-humano. Onde houver a paz posta pelos poderosos que eu leve a vida-criativa, o que pode ser extraído de seus percursos-comprometedores. Desde alguns anos tem sido companheiro de Lula na luta pela produção da democracia.

Com ele, nada do “como se”. A fórmula de dissimulação de falsos artistas ditos engajados. Uma encenação “como se fosse real”. Sempre no real, Sérgio Ricardo viveu muito tempo na Favela da Rocinha-Vidigal, onde fez grande amizade com os moradores e criou muito companheiros, como Marcão. “No Vidigal tem uma turminha de bamba que não se esquenta com as ameças do rei, se vem o mal toda favela se levanta, seja lá quem for se espanta, se vem tirar chinfra de lei”. Enunciação-política-comunitária de concreta co-vivência.

Sua bem feita demonstração do conhecimento da alma do povo, Sérgio Ricardo mostra em seu samba Zelão. Um desfile das ideias e dos objetos que compõem a vida cotidiana do pobre na favela, principalmente a solidariedade. Zelão é expressão da metafísica do espirito de alteridade do pobre que comunga os mesmos sentimentos.

Todo morro entendeu quando o Zelão chorou
Ninguém riu, ninguém brincou, e era Carnaval
No fogo de um barracão
Só se cozinha ilusão
Restos que a feira deixou
E ainda é pouco só
Mas assim mesmo o Zelão
Dizia sempre a sorrir
Que um pobre ajuda outro pobre até melhorar

Choveu, choveu
A chuva jogou seu barraco no chão
Nem foi possível salvar violão
Que acompanhou morro abaixo a canção
Das coisas todas que a chuva levou
Pedaços tristes do seu coração.

 

Sua consciência socializada pelos bons afetos e pela razão-ativa, não compunha com a estupidez dos alienados. Na década de 60, no festival de música da Record, estava cantando a canção Beto Bom de Bola, quando afina flor da alienação que se tomava como jovem, começo a vaiá-lo. Não deu outra: ele  quebrou o violão e jogou nos alienados cujo comportamento alimentava a ditadura dominante. Anos depois, em um festival onde o cantor Odair José se apresentava, a velha e triste platéia, os alienados têm o dom de vararem a história e serem iguais em todas às épocas, também vaiou. Caetano, que participava do festival, entrou no palco e bradou, defendendo o José: “Vocês merecem é violão na cara!”, se referindo ao ato democrático de Sérgio Ricardo. E de quebra Caetano cantou junto com José, “Eu vou tirar você desse lugar. Eu vou levar você pra ficar comigo. E não me interessa o que os outros vão pensar”. 

Sérgio Ricardo morre aos 88 anos; músico participou da bossa nova ...

Perseguido de perto pela ditadura militar-civil que se apossou do Brasil e que não se separava dele nem um minuto, como mãe de misse, Sérgio Ricardo teve várias de suas obras censuradas, mas nunca se intimidou. Em 1974, filmou o seu A Noite do Espantalho com as participações dos também engajados artistas, Alceu Valença e Geraldinho Azevedo como músicos e atores. Hoje, na história da cinematografia brasileira é um dos filmes mais importantes. Foi indicado para participar do Oscar, fato que para a estética cinematográfica engajada não tem qualquer importância. Sérgio Ricardo tem monumental parceria com o outro engajado e inquieto cinegrafista, Glauber Rocha como no premiadíssimo Deus e O Diabo na Terra do Sol.

Parte dois do filme A Noite do Espantalho.

Ainda na década de 70, junto com o poeta amazonense Tiago de Melo, veio realizar uma apresentação em Manaus no Teatro Amazonas: poesia e música. Para melhorar e valorizar nossas biografias, nós, o pessoal do Grupo Universitário de Teatro do Amazonas (GRUTA), não perdemos a oportunidade-inusitada, marcamos presença com a performance mais efusiva do ator e encenador Rui Brito, que como comunista não se contentava em distribuir aplausos. O ápice da noite revolucionariamente gloriosa ocorreu no momento em que Sérgio Ricardo cantou, cantou, não, interpretou a embolada Vou Renovar que convida o povo tomar partido na luta pela vida.

 

 

 

Vou renovar
Sou um cantador da classe média
E trago por satisfação
Cantar para o ser humano
Que me ouve com atenção
Do que eu vejo todo dia
Faço verso e melodia
Pra poder ganhar meu pão

Vou renovar
Canto para a classe A
Canto para a classe B
Cantoria popular
Que não é nem A nem B
Cuja fonte está no povo
Onde eu vou buscar o novo
E aprender meu B-A-BA

Vou renovar
Porque é que eu fui classificar
Já está dando uma embolada
Eu me embolei no A com B
Me embolei no B com A
Mas me diga onde é que está
A classe do B sem A
E a classe do A sem B
Não me diga que ela é C
Porque C é comunista
E vai dar muito na vista
E os homens vão te apanhar

Vou renovar
No rompante da embolada
Deu-se a classificação
Mas vou me livrar do fato
Concluindo a falação
Pra ficar tudo onde está
Eu não me chamo Benedito
E fica o dito por não dito
E o dito por não falar

Vou renovar…

 

Um homem comprometido com a existência, por se saber fator-liberdade implicante na história, como Sérgio Ricardo, quando se angustia enfrenta a angústia-existencial diante da força da repressora com esses versos-musicais desafiadores:

Não tenho mágoas
Não precisa vir me consolar
Mágoas são águas
Vão para o mar
Trago lembranças
E essas eu não posso apagar
São a herança
Do meu caminhar
Se assim não fosse
Eu havia de ser um poço
Estaria que só caroço
Tropeço na ponta do pé
Quem vai pro fundo
Tem é que agitar o braço
Tem é que apertar o passo
Tem é que remar contra a maré.

 

Sérgio Ricardo é hoje, no Brasil onde perambulam em todos os lados nazifascistas, o artista profundamente necessário. O Brasil, onde a pandemia da Covid 19 é tratada com descaso por alguém chamado de Bolsonaro, tem que se encontrar presente.

Sérgio Ricardo é a presença Presente!

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