SERIA GILLES DELEUZE UM PESSIMISTA?

Sai no Brasil obra que enxerga no filósofo não o cultuador de “cânone da alegria”, mas o crítico ácido que queria “a morte deste mundo”. Como Guy Debord, busca o pensamento que emerge quando todas as vias de ação parecem exauridas

Por Andrew Culp  | Tradução: Camila de Moura

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Desde que DarkDeleuzefoi publicado pela primeira vez, a cultura popular se colocou em dia com sua crítica à tecnologia e sua abordagem pessimista.

Apresentadores de telejornal anunciam um crescente “techlash1, isto é, uma reação cultural contra a tecnologia. Na realidade, as pessoas estão mais atentas às consequências sociais das tecnologias ligadas a 24/72, da monetização digital de aspectos fundamentais da atividade social, dos sistemas computacionais de marketinge de vigilância em massa, e dos novos meios informacionais de manipulação das crenças. DarkDeleuzerevela a cumplicidade entre essas coisas e certos modos deleuzianos de pensar, como o bordão exaustivamente repetido de que a internet é um rizoma. Seu argumento culmina numa crítica à conectividade.

Recentemente, o interesse em torno do pessimismo cresceu. Isso é visível no fascínio popular pelo fim do mundo, numa desconfiança generalizada do governo e num sentimento comum de desgraça. Para compreender esse fenômeno, é útil distinguir pessimismo de cinismo. O pessimismo se prepara para o pior, enquanto o cinismo o acolhe. DarkDeleuzeassume o pessimismo como a única forma de pensamento adequada à nossa época .

Um tempo terrível em que a catástrofe iminente parece inevitável. Apenas quando confrontados com algo verdadeiramente intolerável e todas as potenciais vias de ação parecem exauridas, é que somos forçados a pensar. Mas o pensamento não revela soluções inéditas, apenas novos problemas que nos permitem dar mais um passo.

Apesar dessas oscilações na maré da fortuna, num nível mais profundo, nada mudou. Para compreender essa avaliação terrível, é preciso recorrer a uma das influências implícitas de DarkDeleuze: Guy Debord. Debord, assim como Henri Bergson, enxergou no cinema uma mensagem definitiva sobre o seu tempo. Para ele, o cinema expressava algo de essencial sobre o tempo do capitalismo: um tempo morto que pesava sobre os vivos e no qual tudo permanecia o mesmo.

Assistindo hoje ao filme A Sociedade do Espetáculo [1973], é surpreendente constatar o quanto ele envelheceu nos últimos cinquenta anos – seus corpos nus são incapazes de produzir um estranhamento chocante, agora que a internet saturou cada canto do mundo com pornografia; suas imagens dos meios de comunicação em massa não exalam o fascínio da cultura de consumo atual, ao contrário, parecem artefatos enterrados há milênios, cujo destino pertence aos que falam em nome dos mortos; suas transmissões de notícias não trazem a urgência dos acontecimentos contemporâneos, mas disputas resolvidas há muito tempo e que agora só interessam ao juízo dos historiadores e a sua seca exposição narrativa é uma forma de crítica que “perdeu o fôlego”, como se diz hoje em dia. Suas técnicas formais foram fagocitadas pela mídia e cultura digitais, digeridas e vomitadas pela televisão, pela web e pelos smartphones.

Muitos deleuzianos se recusariam a associar seu pensamento com Debord. Especialmente aqueles que encaram o pensamento de Deleuze antes de tudo como um estado de ânimo. Eles enaltecem o compromisso de Deleuze com a afirmação, a plenitude e a criatividade – formando o que critico neste livro como o “cânone da alegria”. Tudo isso entra em profundo contraste com o pensamento de Debord, com seu parecer taciturno sobre a separação alienante, a dominação da vida pelo capital, o terrorismo dos regimes autoritários e o tempo vazio da mercadoria. O leitor atento perceberá, no entanto, que os temas subjacentes convergem num ódio comum pelo Estado, num desejo utópico da abolição do capitalismo e numa imagem da revolução como resgate da vida. Em Dark Deleuze, adotei o senso de desgraça de Debord sem aderir à sua dialética hegeliana, o que me permitiu localizar os elementos negativos da obra de Deleuze. O resultado é uma síntese que encontra Deleuze à vontade ao lado de tendências contemporâneas do anarquismo e do comunismo pós-situacionistas.

Central tanto para Deleuze quanto para Debord é o problema do presente. Para dar conta dele, os dois olham através do mundo das aparências, isto é, para além do espetáculo e do princípio de identidade. Cada um deles pensa o presente como algo distinto: para Debord, uma tediosa procissão do mesmo; para Deleuze, um mar flutuante de diferenças. Essas imagens contrastantes resultam de suas metafísicas do tempo. Debord está preocupado com o movimento hegeliano da história, enquanto Deleuze propõe sínteses alto-modernistas do tempo emergindo do campo da diferença. Ainda que os pontos de partida sejam muito distantes, os dois chegam à mesma conclusão: nosso tempo está preso num presente perpétuo. Esse problema é o ponto de partida deste livro. Com isso, acabo me afastando de Debord e de outros pensadores que criticam o capitalismo como uma forma do mesmo. A questão que me motiva, ao contrário, é esta: como é que uma máquina da diferença como o capitalismo refreia o evento da revolução?

Muito pouco mudou no último meio século, ainda que, paradoxalmente, tudo tenha mudado. Essa ideia aparece numa frase das ruas do maio de 68 parisiense, que sintetiza Debord, Deleuze e o problema do presente perpétuo: “Corra rápido, camarada, pois o velho mundo está atrás de você!”

1 N. da T.: Neologismo formado pela aglutinação das palavras technology(“tecnologia”) e backlash(“reação”, “contragolpe”).

2 N. da E .: fór mula que abrev ia a expressão “2 4 horas por dia, 7 dias por semana”, qual refere-se a negócios ou ser viços disponíveis o tempo todo, sem qualquer interrupção.

   

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