ALDIR BLANC: “MAS SEI QUE UMA DOR ASSIM PUNGENTE NÃO HÁ DE SER INUTILMENTE… SABE QUE O SHOW DE TODO ARTISTA TEM QUE CONTINUAR”

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PRODUÇÃO AFINSOPHIA,ORG

 

Aldir Blanc é daquelas pessoas que carrega o espírito filosófico que nos fala Nietzsche: “um homem que continuamente vê, vive, ouve, suspeita, espera e sonha coisas extraordinárias; que é colhido por seus próprios pensamentos, como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, constituindo sua especie de acontecimentos e coriscos; que é talvez ele próprio temporal, caminhando prenhe de novos raios; um homem fatal, em torno do qual há sempre murmúrio, bramido, rompimento, inquietude”. Um Ser-Político.

Aldir Blanc é o poeta que realiza percursos extraindo o novo das entranhas dos antagonismos que se mostram em sua circularidade-pulsante. Poderia se dizer que ele faz parte da geração de Maio de 68. Não! Um poeta-filósofo transcende as gerações. Trata-se de um ser intempestivo. Como a lança do filósofo, ele cavalga com ela em todos os tempos deixando os rastros de suas metamorfoses.

Aldir Blanc é psiquiatra do movimento da antipsiquiatria que congrega os malditos David Cooper, Ronald Laing, Basaglia, entre outros malditos que escarafuncharam e mudaram a ética da doença-mental: doença-mental de um indivíduo não existe, mas, sim, a psicopatologia do sistema capitalista. O grande Pai-Édipo-Pervertido- Ensandecido, castrador das potência ativas e criativas dos amantes da vida.

Um dia, Aldir Blanc pensou: como posso tratar pessoas se eu tenho as mesmas perturbações delas? Honesto e comprometido com a saúde do mundo: deixou a profissão e passou a exercer outra forma de terapia-social: poetização dos sentimentos irrefletidos. “As frases e a manhãs são espontâneas. Levantam do fundo e ninguém pode evitar. Eu tento apenas mostrar cantando, o lado oculto do meu coração… Alguém entrou no meu peito agora, mas só amanhã vou saber quem é”, poetizou. 

Ele sabe que um bêbado é alguém que se movimenta em todas às direções. Por tal, é um deus: ocupa múltiplos territórios-transformadores. Porém, tem que ser também ser um equilibrista. O momento de seu repouso. Sem,contudo, paralisar o movimento. A vida é movimento-repouso, velocidade-lentidão, latitude-longitude. Daí, porque ele afirma que “o show tem que continuar”.

O impulso que movimenta Aldir Blanc, é sua potência-humor. Concebe até a dor como possibilidade de revelar o desejo pela vida. Certa vez, lhe perguntaram como ele conseguia temas para suas letras e ele respondeu: sabe que ouvir brigas de casais em apartamento é bem inspirador. Os casais-transbordados, como diz o filósofo Deleuze, revelam, sem qualquer pejo, a moral imobilizadora e acusadora do sistema de valores burgueses. 

A grande curtida universalmente-histórica que ele criou, e que foi musicalizada por seu companheiro João Bosco, foi Agnus Sei. Com sua lâmina-poética-marxista, ele vai cortando os dogmas da teologia-ortodoxa e seus concubinatos a-históricos que aprisionam os incautos. Os crentes sem crença na vida. Os mistificados. Por isso, ele proclama, como o filósofo discípulos de Nietzsche, Clèment Rosset, “o tempo vence toda ilusão”. A ilusão é o fatal desvio da vida. Todo iludido é um reificado: não comunica o movimento real, mas sim a abstração. A sua é essa, tirar os véus das percepções para impulsionar a revelação do Ser.

Com o filósofo Epicuro, se entende que ele diz: “O Ímpio não é aquele que despreza os deuses da multidão, mas sim aquele que adere as ideias que a multidão faz dos deuses”.  

Aldir Blac encadeia potências como movimento real, como nos mostra o mouro de Trier, Marx.

  

 

Agnus Sei

Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã
Vão levar ao reino dos minaretes a paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéisPara trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói vencer Satã só com orações
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê anda, ê ora, ê manda, ê mata, responderei não!Dominus dominium juros além
Todos esses anos agnus sei que sou também
Mas ovelha negra me desgarrei, o meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão

Meu profano amor eu prefiro assim
À nudez sem véus diante da Santa Inquisição
Ah, o tribunal não recordará dos fugitivos de Shangri-Lá
O tempo vence toda a ilusão
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê anda, ê ora, ê manda, ê mata, responderei não!

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