GOVERNO DO ESTADO COMEMORA O FRACASSO DA ESCOLA FUNDAMENTAL NO AMAZONAS

O secretário de educação do governo Braga, Gedeão Amorim, diante do resultado da pesquisa divulgada pelo IBGE, que mostra a liderança do Estado no número de jovens a partir de 15 anos matriculados em aulas de alfabetização, comemorou. De acordo com declarações publicadas na imprensa, Gedeão afirmou que este é o resultado do trabalho empreendido pelo governo na educação, e que a meta é chegar a 4% de analfabetos no Estado.

O conceito de analfabetismo propalado pelos governos (inclusive o federal, que começa a modificar este entendimento a partir do novo ENEM) é o de alguém que não dispõe do conhecimento aplicável ao uso de signos gráficos necessários à leitura e à escrita. Recognição, reconhecimento de letras e palavras escritas. E não vai além disso. A leitura, que envolve a decodificação dos signos gráficos do alfabeto, vai muito além: ela engloba o próprio existir e o seu compromisso com a coletividade. Uma leitura da sua própria condição no mundo, para que seja possível pensar um mundo onde tais condições não sejam mais possíveis. Neste sentido, todas as pessoas são escritoras, já dizia o companheiro Sartre. Mesmo quem não dispõe do conhecimento do uso dos signos gráficos.

Daí um governo que se vanglorie de ter o maior contingente de jovens analfabetos e que precisam se matricular em cursos de alfabetização é também um governo que se orgulha (para usar um termo caro ao governo Braga – e ao bolso dos cidadão!) de que suas escolas não estão conseguindo alfabetizar as crianças. E se o governo falha na mínima tafera de propiciar aos seus cidadãos a familiaridade com os signos gráficos, é porque está à anos-luz de proporcionar uma escola organicamente envolvida com a comunidade. E quando a escola abandona a comunidade, o aluno abandona a escola.

ALFABETIZAÇÃO AFINADA NÃO SE REDUZ AO LETRAMENTO

A AFIN, Associação Filosofia Itinerante, tem entre seus vetores intensivos o projeto de Alfabetização de Jovens e Adultos como um processual intensivo de saberes e dizeres, que emanam da potência desejante dos estudantes, envolvidos nas questões da cidade. Trata-se de evidenciar com eles a leitura de mundo que já possuem e que é resultante do processual do existir, inserindo apenas o aspecto técnico da decodificação dos signos gráficos (leitura) e produção de dizeres e saberes na linguagem gráfica (escrita). Desfazendo assim a mistificação hierarquizante da moral capitalística que coloca o chamado ‘analfabeto’ (não existem analfabetos) está numa escala inferior.

A primeira turma de estudantes está concluindo a etapa da leitura e escrita, e escolheu como mote o nome da companheira Damiana, falecida em acidente automobilístico, e que era estudante, não conhecia a técnica das letras e das palavras, mas era conhecedora da leitura-mundo, sabia o que acontecia daqui até o último bastião do universo, e discutia todos os assuntos com a sabedoria que a verdadeira leitura traz. Ela sabia, por exemplo, que só interessam aos governos os números, e que com estes os governantes se contentam, esquecendo que cada número daquela estatística tem sonhos, expectativas, desejos, e precisa comer, vestir, pensar, amar. Entendimento este que não consta no otimismo da secretaria de educação quando vê evidenciada na pesquisa o fracasso do ensino fundamental no Estado do Amazonas.

Embora realize este projeto sem a ajuda de nenhuma entidade governamental ou não-governamental, e conte apenas com o apoio desejante de seus membros, a AFIN, enquanto entidade sem fins lucrativos de agenciamento de fluxos, afectos, perceptos, saberes e dizeres na inteligência coletiva, até topa uma parceria com o governo do Estado para ampliar o projeto de Educação de Jovens e Adultos. Desde que a AFIN entre com a metodologia processual, a concepção do projeto como Novo, o entendimento filosofante dos saberes, dizeres que perpassam os estudantes, e o governo entre apenas com aquilo que lhe compete: devolver os impostos pagos pelo contribuinte em ações efetivas de cidadania ativa.

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