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PARA AUGUSTO BOAL, CRIADOR DO TEATRO DO OPRIMIDO, A MORTE NÃO EXISTE

“Todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas.”

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É assim que se inicia o Teatro do Oprimido, e é assim que culminou ontem a trajetória existencial de Augusto Boal.

A sua atuação teatral, diz-se, chega a mais de 70 países, número que tende a aumentar com sua morte, uma vez que ele afigura-se entre os maiores dramaturgos citados na dramaturgia mundial: “Augusto Boal reinventou o Teatro Político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislawsky”, noticiou o jornal inglês The Guardian.

O teatro realista burguês de Stanislawsky ele conheceu quando foi estudar doutorado em química na universidade de Columbia, participando do curso de dramaturgia, tendo aulas com John Gassner, que deu aulas a Tennessee Williams e Arthur Miller.

Mas foi a partir do teatro épico de Bertolt Brecht, no Brasil, na parceria com José Renato no Teatro de Arena, que o levou a desenvolver um teatro dialético, distanciando-se completamente de todo o ranço aristotélico do teatro realista, e aproximando-se do teatro épico de Bertolt Brecht.

O que Boal observa é, da Grécia antiga até a atualidade houve nuitas degradações e que essas degradações são confirmadas (oficializadas) a partir das principais manifestações sociais, entre elas, o teatro, dada a sua proximidade com a platéia. Por isso, tenta, a partir de uma nova poética, modificar as relações entre os homens, colocando platéia ante platéia, e os atores no meio apenas como aqueles que vão ligar o homem ao homem; mas, por isso, com uma possibilidade de análise a partir da razão, levando em conta as observações exteriores das formações históricas econômicas e sociais, conforme o pensamento marxista, distanciando-se definitivamente do teatro burguês e da teoria hegeliana, ou seja, “da vontade interior e dos caracteres dos personagens”.

Nesse momento, o teatro trabalhado por Boal e pelo Arena rompe de vez com o “sistema coercitivo” de Aristóteles e a empatia entre personagens e espectadores, garantindo sempre a “delegação de poderes por parte destes que se transforma em objetos daqueles”. O que não quer dizer, no entanto, assim como em Brecht, falta de emoção: “Como não vai o espectador emocionar-se com a MÃE CORAGEM, que perde os seus filhos, um a um, na guerra? É inevitável que nos emocionemos até as lágrimas”, diz Boal.

Toda a questão do Arena está não em diminuir a emoção, mas perceber racionalmente a que ponto esta emoção auxilia na manutenção do status quo ou desequilibrar a sociedade, quando a própria essência da sociedade, o povo, passa a participar efetivamente da cena.

Nesse momento, surge o que ficou conhecido como “Sistema Coringa”, que compreende o conhecimento do corpo pelo ator, exercícios e técnicas para tornar o corpo expressivo e utilizá-lo como linguagem e como discurso. Esses estudos culminaram com o “Teatro Invisível”, que “deve explodir em um determinado local de grande influência de pessoas. Todas as pessoas próximas devem ser envolvidas pela explosão, e os efeitos desta muitas vezes perduram até depois de muito tempo terminada a cena”. O Arena realizou esse teatro em restaurantes, trens, praças e muitos outros espaços, que podem ser verificados resumidamente no livro Teatro do Oprimido.

É quando o “espectador” deixa de existir e o teatro, e já “não delega poderes aos personagens nem para que pensem nem para que atuem em seu lugar”. Teatro-Ação.

BOAL ANTES E DEPOIS DA DITADURA

Tudo isso vinha sendo desenvolvido por Boal no final da década de 60. Não deu outra, depois de se exilar na Europa, enquanto desenvolvia trabalhos em vários países da América do Sul, onde sempre tocava nas questões que diziam respeito ás torturas no Brasil. Aí é que não deu outra: ao voltar ao país em 1971 foi preso e torturado. Segundo o anedotário político-teatral brasileiro, estando Boal no pau-de-arara, o torturador o interrogava se havia tortura no Brasil, e ele respondia, claro, que não existia; mas, em momentos em que a dor não era tão forte, não conseguia segurar e não conseguia parar de rir da ironia de ser torturado para afirmar que não existia tortura no Brasil.

E a ditadura não conseguiu diminuir a ação de Boal. Antes ele já vinha fazendo trabalhos em parceria com diversas pessoas, como Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Milton Gonçalves, Vera Gertel, Flávio Migliaccio, Floramy Pinheiro, Riva Nimitz, dentre outros, com apresentação de peças politicamente engajadas, como Chapetuba Futebol Clube, Gente Como a Gente, Eles Não Usam Black Tie, Revolução na América do Sul e O Testamento do Cangaceiro, que culminou com espetáculos como Arena Conta Zumbi, já apresentados neste bloguinho, que, segundo Boal, “destruiu convenções, destruiu todas que pode”, e que foi seguida de várias outras, como Arena Conta Tiradentes.

Em toda sua trajetória existencial, de 16 de março de 1931 a 2 de maio de 2009, Augusto Boal desempenhou inúmeras atividades, entre elas, a mais conhecida é o teatro, na qual ele estabeleceu toda sua capacidade de perceber e tocar o outro com seus gestos, dizeres e afetos, como forma de agir e transformar o Outro:

Em toda a minha atividade, em tantos e tão diferentes países da América Latina, pude observar essa verdade: os públicos populares estão sobretudo interessados em experimentar, ensaiar, e se chateiam com a apresentação de espetáculos fechados. Nestes casos, tentam dialogar com os atores em ação, interromper a história, pedir explicações sem esperar “educadamente” que o espetáculo termine. Ao contrário da educação burguesa, a educação popular ajuda e estimula o espectador a faze perguntas, a dialogar, a participar.”

Portanto, a morte não existe para Augusto Boal. Enquanto houver a necessidade de realizar esse trabalho de realizar uma arte que não seja realista e chegue aos outros homens como forma de transformação das realidades artísticas-sociais, ele estará presente. E isso é um processual contínuo ininterrupto, assim como a vida, assim como Boal.

2 thoughts on “PARA AUGUSTO BOAL, CRIADOR DO TEATRO DO OPRIMIDO, A MORTE NÃO EXISTE

  1. Maocir Junior,
    sim, Teatro do Oprimido é uma bíblia para quem quer fazer teatro popular ou perceber com um olhar mais aguçado, com inteligência, humor e ternura, a realidade que nos circunda, para podermos a agir pela razão, enquanto causa de si mesmo, como diri Spinoza.
    Abraços afinados e boa leitura!

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