MANIFESTO SOBRE A INEXISTÊNCIA DA POLÍTICA NA CIDADE DE MANAUS: O CASO DA NEGAÇÃO DA UTILIDADE PÚBLICA À ASSOCIAÇÃO DAS PROSTITUTAS DO AMAZONAS

A Associação Filosofia Itinerante, entidade sem fins lucrativos, manifesta-se contrariamente às forças reacionárias que vetaram o título de utilidade pública à Associação das Prostitutas do Amazonas. A bancada evangélica, que articulou-se para vetar o direito à associação de constituir-se legalmente no plano de atuação na cidade, acredita tê-lo feito por razões políticas, e não de cunho dogmático teológico. Erram, como errariam ainda que assumissem o ressentimento igrejal. A política não abrange a estreiteza intelectual, bem como a ausência da atuação no plano ético-estético. São, aliás, como poderemos perceber no texto abaixo, incompatíveis, a doutrina disangélica, claramente anti-Deus e anti-Cristo, e a práxis política, independente de sua vertente.

É por isso que, compreendendo e atuando dentro da sua potência democrática e linha intensiva de produção-comunalidade ativa, que a AFIN se manifesta e expõe a incongruência que caracteriza o silêncio e o absurdo de uma câmara dos vereadores, ditos representantes políticos da população, que ignoram o sentido comum da política, e anulam a si mesmos.

DA POLÍTICA COMO PRÁXIS DO HOMEM IN NATURA…

A filósofa judia-alemã Hannah Arendt, em seus estudos sobre a política, diz que a política é um assunto dos homens. Comum a eles, e a mais nenhuma outra espécie da chamada natureza. Trata-se da conservação de sua própria condição de estar no mundo, em coletividade. E de produção estética de modos de existir, infinitos em suas possibilidades, assim como em sua diversidade de expressões, sejam eles mais próximos ou distantes da natureza como potência do ser.

A busca de uma razão que componha uma coletividade, que compusesse o ordenamento da urbe a política, levou à busca de uma verdade do enunciado. Como práxis política, a polis grega tratou o enunciado menos como indicador desta razão do que como construtor. A verdade estava no discurso, em sua articulação, na persuasão. Já na era da decadência da polis grega, a verdade (razão política) desapareceu como persuasão, como produto do diálogo e da inteligência, para a busca de uma essência: um signo que, contrariamente trazido pelo enunciado, fosse ocultado por este. Assim, o binômio Sócrates/Platão é uma caricatura decadente de Atenas: a busca por uma verdade que não estava mais no raio de ação dos homens, mas oculta em um território fora de si.

Percebe-se, portanto, que em uma sociedade politicamente decadente, a verdade, a razão política está menos na capacidade de produção ético-estética de seus agentes do que de uma “verdade” composta de signos e elementos alheios ao real. Aí entra a razão disangélica, do cristianismo travestido, de um cristianismo sem Cristo, mais para Paulo de Tarso. Um Castracionismo.

E COMO ÉTICA PRODUTORA DO REAL

O filósofo luso-holandês Spinoza, em seu Tratado Político, afirma que uma sociedade se compõe de uma potência, corpus político resultante das potências de agir de seus habitantes. E que uma ética, longe de se confundir com a moral, é uma práxis, uma produção intensiva de modos de ser que, compondo com a natureza naturante, aproxima-se da perfeição (da Substância que Spinoza chama de Deus) e aumenta a potência de agir. Ou o que Nietzsche chama a Vontade de Potência.

Assim, uma democracia só se faz quando os afetos aumentam, quando os encontros são produtores de novas formas de pensar e de sentir. Quando a práxis de seus habitantes está em consonância com a Natureza.

A POLÍTICA COMO EXERCÍCIO DA IMAGINAÇÃO: A “MORTE” DO REAL

Assim, não pode se considerar político aquele que pratica um modo de ser a partir não do pensamento (produção de afetos/idéias), mas da imaginação (idéias inadequadas, afetos que diminuem a potência de agir). São corpos nocivos à política e à democracia.

Principalmente quando o seu estar no mundo advém da negação dos instintos, da potência de existir. Quando o seu princípio movente é imóvel, reacionário, não producente, reativo. Se a política é a práxis de produção de possíveis para o homem, um “possível” que lhe negue o estatuto da existência e da potência de agir não pode ser considerado político.

De forma que o disangelismo, o castracionismo travestido de cristianismo, pregado por Paulo, o de negação da vida, que desloca o sentido da ação do real para o imaginário, ao separar o reino do homem do reino de Deus, é uma ameaça a uma cidade que se quer democrática. O Cristo, filho de Maria, que era ação, práxis, potência, foi pregado na cruz e eternizado como o símbolo da culpa, da má consciência e da dor como formas de existir. Formas malogradas, patogênicas.

O sentido do ressentimento é a destruição. A moral cristã, tábua de julgamento, é código de ajustamento e de condenação. Interdição. Negação dos fluxos existenciais do corpo, do sexo, da atuação, da vida, de tudo o que é ativo. Inclusive a política.

MANAUS NÃO É UMA ILHA: A FALÊNCIA DO POLÍTICO ABRE ESPAÇO PARA A DECADÊNCIA

O fenômeno é mundial: o Papa condena o uso dos preservativos em um continente que padece epidemicamente de AIDS; o recrudescimento das condições de existência básicas da população faz com que aumente a audiência às igrejas de teor apocalíptico; conglomerados megaeconômicos substituem a teologia pelo teísmo financeiro (a teologia da prosperidade); cada vez mais o “religioso” se entranha na política.

Sintomas da ausência do político como potência ativa do homem em coletividade. A democracia representativa se apresenta cada vez mais como a antítese da democracia.

Em Manaus, cada vez mais a exploração da miséria humana produzida socialmente é trampolim para cargos no executivo e legislativo, tenham eles como meios de disseminação as tevês, rádios ou igrejas.

Num delírio que é histórico e coletivo, mas que se manifesta na individualidade patológica de cada um, vereadores da chamada bancada evangélica, mas não só eles, vetaram a concessão de utilidade pública à Associação das Prostitutas do Amazonas. Alegam razões de ordem política. Estas, não existem. Primeiro por não haver impedimento legal: a profissão de prostituta não é proibida no Brasil. Igualmente, não é proibida a associação de classes, se a classe profissional não é ilegal.

Segundo, e mais grave: a ausência de políticas públicas que garantam direitos básicos para toda a população, independente do seu ganha-pão, é o verdadeiro problema político. Ausência esta que a Associação procura diminuir, ao oferecer acesso à saúde, educação e proteção aos perigos inerentes à profissão.

Como bons representantes do disangelismo castracionista, travestido de evangelismo cristiano, ocultam o ressentimento e a força destruidora e aniquiladora do ser, resquício do delírio paranóide belicista de um povo hebreu, procuram colocar num plano político aquilo que é exclusivamente da ordem de uma patologia social. Nada a ver com o evangelho, com Cristo, ou com a religião. É, muito mais, uma espécie de antipolítica, antiética, antiestética, antiprodução do ser.

Ainda o filósofo Nietzsche, afirmando a moral como antinatureza, mostra que o ideal ascético do Castracionismo é antes um mal contra si mesmo: ao abolir o mundo real, pretendem fazer realizar-se o mundo imaginado; equivocam-se. Ao abolir o mundo real, desaparece tudo. Até a imaginação.

Daí o ato da Câmara Municipal de Manaus e dos vereadores exprimir apenas o que já se sabe sobre ela e eles: a sua inexistência política e real.

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