do livro Viva Vaia (1986), de Agusto de Campos
do livro Viva Vaia (1986), de Agusto de Campos

A sociedade de consumo do sistema capitalista, apesar de sub-viver (de sub: sem vida ativa) do supérfluo, o desnecessário ontológico, têm alguns signos, que, embora vazios, arranham pouco a condição social dos entes urbanos quando estes fazem uso de suas mercadorias, cujas vendas as alimentam. O que não é o caso de empresas que mergulham na voracidade do capital para se destacar frente a outras empresas concorrentes, como lei maior do lucro sobre o lucro. O que é o caso da mega butique Daslu.

Sendo a sociedade de consumo um universo psicodélico que trata das ilusões produzidas pelas inseguranças de alguns sujeitos/sujeitados, a chamada dívida existencial, que procuram adquirir mercadorias para, por um passe de mágica, alimentar esses vazios, fica entendido que uma butique como a Daslu não se faz sozinha. Não cria moda obrigatória ao uso de “fina flor social urbana”. Sua sustentação sai do ‘desejo’ criado como necessidade pela própria sociedade capitalista de consumo. Onde estas classes, indiferente com a existência procuram afagos nos tecidos, modelos, talhos e brilhos, arquitetos lisonjeiros como objetos das inúteis crônicas sociais.

A DASLU NA POLÍTICA PAULISTA

É publico que a butique Daslu contou sempre com a preferência das chamadas famílias privilegiadas das escadas sociais de São Paulo. Ela sempre teve como clientes as variedades do glamour malsão urbano vindo de todas as instâncias sociais, e como não poderia deixar de ser, principalmente em São Paulo, da instância política. Aí a estreita relação com a filha do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckimin, e em estreita relação com o atual governador, José Serra, pretenso candidato à presidência do Brasil, e da família de Geraldo Alckmin, ex-governador, também de São Paulo. Infere-se daí que o sucesso ‘luxuoso’ da Daslu não foi um mero acaso de sorte na passarela da moda brasileira. Teve seus jogos de cintura para ganhar a notoriedade que hoje surge como “cipó de arueira no lombo de quem mandou dar”.

DA PRISÃO E DA CONDENAÇÃO DE 94 ANOS

Hoje, dia 26 de março, a dona da butique, Eliane Tranchesi, e mais seu irmão Antônio Carlos Piva, ex-diretor financeiro da Daslu, e mais Celso Cunha, ex-diretor da importadora Multiport, encontram-se presos.

DOS CRIMES

Sonegação fiscal, formação de quadrilha e falsificação de documentos.

Crime no sistema financeiro.

Em, abril e 2005, o Ministério Público Federal pediu a condenação do grupo. Com este desfecho, fica evidente que todo o luxo exibido na passarela da vaidade da elite paulista só ocultava o lixo da corrupção que contamina a democracia.

Luxo-lixo-luxo
se não tem lixo não tem
luxo não tem lixo
precisa de lixo pra ter luxo
pra ter lixo tem o luxo
pra mais luxo vai mais lixo vai
mais lixo pra mais luxo que
só cresce quando o lixo cresce
mais luxo mais lixo mais
luxo do lixo que
vem dos que não tem luxo
os que tem mandam mais lixo
pra miséria do lixo do
mundo gente-lixo-luxo-lixo
para o luxo-gente-lixo.

Augusto de Campos

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, outubro de 2006)

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