TRÊS MARCHINHAS E TRÊS NOTINHAS

.“Sempre é Carnaval! Sempre é Carnaval! Vamos embora pessoal!”

Em tempo de carnaval no Brasil saltam borbulhanças mil quanto ao que é ou não é carnaval original. A força mais próxima a Dionísio e seu Sátiro com suas vibrações plásticas/motoras/sonoras.

Uns dizem que carnaval mesmo é samba. Outros que é frevo. Outros que é axé. Outros que são Marchinhas. Outros, maracatu. Opiniões sempre com lastros ditas de bom gosto e inteligência, ou não. No caso das marchinhas, seus defensores se consideram mais inteligentes que outras opiniões, algumas até consideradas, por estes, de baixo valor, coisa da ralé. Entretanto, estes ‘marcheiros’, quando opinam opiniaticamente, não percebem e nem entendem que, embora as marchinhas tenham se mantido como signo de um tipo de carnaval, elas são de proveniência unilateral. São produtos exclusivos das enunciações da classe média urbana. A classe detentora da informação definidora de comportamento burguês, um ponto que coloca em suspeição a inteligência e bom gosto destes ‘marcheiros” classistas.

Mas as marchinhas mesmo, com seus pruridos burgueses, nos permitem alguns balançados graciosos que provavelmente seus ‘marcheiros’ não “bodejariam’ tal suas notinhas quase sempre, sutilmente, preconceituosas e discriminadoras dissimuladas como humor da época. Para outros opinantes, pseudo humor, e com patético intelectualismo. Tomemos três marchinhas, e vejamos se estes têm razão, ou não com suas notinhas.

NOTINHAS

Primeira Marchinha e a Notinha Cabeleira do Zezé, de Roberto Faissal e João Roberto Kelly.

Olha a cabeleira do Zezé

Será que ele é? Será que ele é?”

Para seus examinadores, um claro preconceito homofóbico de João Roberto Kelly que, segundo conta a lenda urbana carnavalesca, escreveu para se vingar de um garçom que tirara uma graça com sua mulher. Uma espécie de tentativa de sublimação da insegurança sexual de Kelly.

Segunda Marchinha e a Notinha O Teu Cabelo Não Nega, de João Valença, Lamartine Babo e Raul Valença.

O teu cabelo não nega mulata

Porque és mulata na cor

Mas como a cor não pega mulata

Mulata eu quero o teu amor”

O adversários examinando, pela ótica da discriminação racial, perguntam: “E se a cor pegasse? Os tais ainda queriam seu amor?”

Terceira Marchinha e a Notinha Maria Candelária, de Klécius Caldas e Armando Cavalcante.

Maria Candelária

É alta funcionária

Desceu de para-queda

Caiu na letra O,O,O,O,O”

Aqui os adversários aplaudem os compositores. Examinam os privilégios concedidos pelos governantes aos seus apaniguados que os faziam funcionários públicos, verdadeiros barnabés da inutilidade pública, caindo de para-queda em seus cargos sem qualquer concurso. Hoje, privilégio conhecido por “entrar pela janela”. Funcionários cabos-eleitorais, que garantem as eleições de seus indicadores. Apesar de saltar um preconceito com cheiro de “mulher burra”, a tal da Candelária, que não queria nada com o trabalho, só com a futilidade. Finalizam os compositores: “Que grande vigarista que ela é”.

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