CENTENÁRIO DE DOM HÉLDER CÂMARA: UM OLHAR SOBRE A VIDA

Fosse verdade que o tempo cronológico tem o poder de tornar a vida finita, hoje, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, estaria completando 100 anos. Mas como o tempo cronológico não pode prender a intensidade produtiva da vida do tempo Aion, com sua infinita potência poiética, o devir criador indivisível confiante do viver, Dom Hélder se apresenta, hoje, como a eterna e indivisível Vontade de Viver.

Dom Hélder escapa o tempo pulsado pela potência de sua singularidade de ser vidente ativador da vida. Existindo em um dos períodos mais perversos da história do Brasil, o regime opressivo e tirânico da ditadura militar que se instalou no país, ele não se apequenou e nem tergiversou da crença do sublime da palavra de Deus como práxis implícita à existência social do homem.

Anatemizado pelo regime de exceção e recusado pelos órgãos e empresas que se submetiam à ditadura, principalmente empresas de comunicação, como a Globo dos Marinhos, mensageiros e alcoviteiros da ideologia da predominante segurança nacional, ou seja, perseguido em todos as instâncias reacionárias, inclusive no próprio clero conservador, que pretendia cercear sua voz e seus atos comprometidos com os pobres.

Acredito nessas minorias capazes de compreender a ‘Ação, Justiça e Paz’ e de adotá-la como campo de estudo e de atuação. Chamo-as ‘minorias’ Abraâmicas porque, como Abraão, esperamos contra toda esperança.”

Dom Hélder fez de sua vocação ontológica/religiosa a aventura, ou engajamento, a opção pelas minorias massacradas pela estupidez e ambição do capitalismo. Existindo em uma região profundamente marcada pelas cicatrizes deixadas pelas feridas históricas traumatizadas pelos governos, fundamentou seus trabalhos como luta pelas liberdades populares. Tudo que causava ódio nas classes dominantes.

Detentor da facilidade da fala e da escrita, sem ser lacrimoso, usou a retórica e a literatura para materializar suas atuações sacro-coletivas. Durante anos teve como instrumento condutor de suas palavras libertárias o microfone da Rádio Olinda atingindo, em sua abrangência sonora/literária/social, as classes mais pobres. Os oprimidos, humilhados e ofendidos pela ganâncias dos pervertidos-capitalizados. Crônicas de seu programa Um Olhar Sobre A Cidade logo transformadas em livros. Verdadeiros sucessos de leitura, nunca ficando na primeira edição, tamanho o interesse dos leitores sobre suas comprometidas palavras que ultrapassaram as fronteiras do Brasil, atingindo países como a França, Itália, Espanha, Inglaterra, entre outros, principalmente países sul-americanos.

Com um sentido transcendente de liberdade, intercedeu resolutamente a favor dos estudantes, lavradores, artistas, religiosos, todos que se encontravam sob os olhos e o julgo dos ditadores. Os ameaçados de prisão, presos e torturados. Por tamanha ironia, o último preso político no Brasil aconteceu em fins de 70: um seminarista em Recife, seu auxiliar. O jovem estudante conhecido por Cajá. Um apelido popular revelador da singularidade dos laços amigos do arcebispo com o povo.

Dom Hélder Câmara, uma singularidade humana que nunca desesperou da vida, posto que sempre acreditou que o “O Deserto É Fértil!”

SE EU PUDESSE…*

Se eu pudesse…

Contrataria barcos que deslizassem suavemente, na hora em que a Cidade volta em disparada para cassa…

Se eu pudesse, à noite, no caminho de pessoas desanimadas, pessimistas, amargas, revoltadas contra tudo e contra todos, arranjaria rodas de crianças brincando e cantando.

Sozinha eu não fico

Nem hei de ficar

Pois uma dama destas

Há de ser meu par…

Se eu pudesse, na hora mais dura do enterro, quando o caixão é colocado terra a dentro, eu faria com que voasse sobre as cabeças dos presentes um bando de passarinhos, lembrando a Ressurreição…

Se eu pudesse, pertinho das Casas em que houvesse pessoas se sentindo sós e abandonadas, haveria uma voz bonita cantando canções destas que não morrem, são sempre belas e vão diretas ao coração…

Sempre em meu coração…

Eu sei e você…

Faz tanto tempo e eu me lembro sempre…

Também serviria algum instrumento bem tocado, bem bonito, bem saudoso: um violão, um bandolim, uma flauta, uma clarineta…

Tenho uma vizinha que tem o dom de adivinhar quando estou precisando de que ela toque, ao piano, músicas de sempre, mensagens de harmonia, de beleza e de paz…

Se eu pudesse, na caminhada de quem enfrentasse estradas sem fim, sem luz, sem companhia, faria surgir vagalumes alumiando o caminho e colocaria nem que fosse uma cigarra para quebrar a solidão…

Se eu pudesse, ao cair da noite, todas as igrejas tocariam o Ângelus, convidando a pensar em Deus, convidando a rezar… É uma hora diferente, tocada de graça… No cair da noite, até as pedras perdem a aspereza. Os enormes edifícios de cimento armado não esmagam a gente: quase se harmonizam, perdem de todo a agressividade…

Se eu pudesse, as bandas de músico, de vez em quando, sairiam sozinhas, pelo Centro da Cidade e, sobretudo, voltariam a tocar retretas em pracinhas de subúrbio, onde se guarda mais simplicidade e, de certo modo, mais fineza… Há dobrados que ficam para sempre no sentido da gente…

Se eu pudesse, de vez em quando, estenderia no céu o arco-íris e descobriria um jeito do arco-íris aparecer de noite… Se eu pudesse daria ao arco-íris a força mágica de desfazer ódios, intrigas, divisões, de modo que ele valesse, de fato, como sinal de entendimento, de amizade e de paz…

Ah! Se eu pudesse!…

E se vocês pudessem, o que aconteceria?…

* Crônica/poética publicada em 1976 no livro Um Olhar Sobre a Cidade, pela Editora Civilização Brasileira.

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