DA VIOLÊNCIA DOS TANQUES DE ISRAEL A PAUL VIRILIO E BRECHT

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O homem-cidadão está continuamente engajado, de modo ontológico, com o élan do exercício de refletir sobre a sua condição no mundo e a sua existência singular junto às outras singularidades. Contínua criação de novas comunidades mais vastas, de condições necessárias para a produção da existência como a construção do bem comum. Democracia. E, neste caminho, transforma seu espaço, criando uma efetividade onde o físico é substituído pelo político. Combate, então, as leis que ele próprio criou. Às criticas, reinventa-as, cria novas leis e se empenha em se preservar como ser da partilha. E para tanto, enfrenta, com a doçura e a suavidade que lhe são peculiares, as leis que os tornam impotente diante dos encadeamentos da violência. Contra a violência, o homem-cidadão faz da fala um ente social. Discursa para que a existência seja exposta ao mundo. O homem-cidadão realiza a existência efetivando seus acordos discursivos. Homologia.

Quando este movimento é desprezado, a dissuasão é reduzida ao status de ficção e logo é substituída pela trajetória do assalto. Onde a dissuasão discursiva racional foi desprezada, resta a dissuasão pelas armas. Acontece que as armas, desta forma, não são invocadas com objetivo de matar ou destruir o adversário, mas de dissuadi-lo, isto é, interromper o movimento do adversário em curso e lhe impor, pela violência, sua concepção de existência. A partir de então, o corpo precisará ser auxiliado por projéteis. É aí que as armas, a tecnologia, a mídia e tudo que puder ser usado como um substituto da dissuasão discursiva racional, será usada para regular o movimento em curso do adversário. Os EUA demostram bem isso quando investem muitos mi/bi/trilhões em armamentos complicados, múltiplos e variados. É que, tendo o corpo como incapaz, tendo a sua razão discursiva esvaziada de significado, resta-lhe a bomba atômica, os tanques, as armas. E sempre será preciso armamentos mais potentes para demostrar ao mundo o seu poder de agressão. E, como a verdade lhe pertence, ele também deve demostrar ao mundo o perigo destas mesmas armas, quando em mãos inimigas, terroristas. Mesmos que estas armas não existam. Israel aprendeu muito bem com os EUA. Joga todo o seu arsenal militar, tecnológico e sua histórica raiva bélica sobre os palestinos para tentar regular o curso singular em movimento deste povo. Pois onde lhe faltou a suavidade da dissuasão discursiva, a blindagem de seus monumentais tanques vieram preencher esta falta.

O VEÍCULO BLINDADO

Paul Virilio diz o seguinte sobre o transporte, o veículo blindado:

“Com ele, a terra não existe mais. Melhor do que veículo de qualquer terreno, deveríamos chamá-lo sem terreno, ele sobe pelos taludes, transpõe os bosques, patina na lama, arranca na passagem arbustos e pedaços de paredes, derruba portas; ele foge do velho trajeto linear da estrada, da via férrea. É toda uma nova geometria que ele oferece à velocidade, à violência. Ele já não é apenas auto-móvel mas também projétil e lançador esperando ser emissor-rádio; ele projeta e se projeta. Com ele, novamente, a Morte mata a Morte já que faz frente, vitoriosamente, à temível metralhadora alemã.”

“GENERAL, TEU TANQUE É UM CARRO FORTE”, MAS…

Contudo, eis que os tanques de guerra, em sua superioridade que escamoteia toda uma política corrompida e faz dos corpos entes incapazes, assegurados pelos projéteis construídos com a certeza de pôr todo um povo abaixo, tem toda esta superioridade blindada enfrentada por uma intensidade da virtude (potência) da luta enquanto resistência ao estacionamento do movimento em curso. E nada de projéteis, apenas pessoas e suas forças intensivas.

Tanques de Guerra por você.

Por estas razões, Brecht pode dizer:

General, o teu tanque é um carro forte.

Arrasa um bosque e esmaga centos de homens.

Mas tem um defeito:

Precisa de um condutor.

.

General, o teu bombardeiro é forte.

Voa mais rápido que uma tempestade e carrega mais

que um elefante.

Mas tem um defeito:

Precisa de um mecânico.

.

General, o homem é muito hábil.

Sabe voar e sabe matar.

Mas tem um defeito:

Sabe pensar.

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