Depois que o escritor George Orwell escreveu em sua obra “Moinhos de Ventos” que “a publicidade é o fruto mais sujo do capitalismo”, os mercadores de todas as estirpes disseram Amém! Caíram de corpo e alma na frutífera árvore do capitalismo que antes de vender uma mercadoria tem que primeiro exibi-la nas vitrines das ilusões para torná-la, aos sentidos do consumidor, mercadoria maravilhosamente necessária à felicidade humana na terra. No céu, a igreja garante. Produzir no consumidor fé de que a mercadoria é talentosa e valiosa.

Eis o objetivo da publicidade do governo do Estado do Amazonas com seu “Eu me Orgulho de ser Amazonense”. Um texto simplista tentando relacionar a realidade da região com suas potências naturais ao governo Eduardo Braga.

O ORGULHO É UM AFETO TRISTE

Quando uma pessoa afirma ser orgulhosa de si, é porque ela se duplicou, se observou, se analisou, e concluiu, tendo como referência um sistema de valores, que é importante para um específico fim. Fraude perceptiva e cognitiva: quando uma pessoa sai de si para se observar, já não é mais a que era ante e quem vê não é mais ela, mas uma outra que não ela. Logo, não pode orgulhar-se de si (Nietzsche). No mínimo comentar outro alguém. Em um caso real, para que uma pessoa orgulhe-se de si, é necessário que alguém de fora, com graus superiores de inteligência, carregando um sistema de valores, a julgue implícita nesse sistema, e afirme que ela é superior. Trata-se de um juízo, e um juízo, nesse caso, é uma prisão. Nada de virtude.

No primeiro caso, esses amazonenses não podem sair de si para se perceberem e entenderem sua “superior” realidade. No segundo, precisaria de uma outro – um paraense morador do Pará, por exemplo – para produzir a enunciação que criasse o fundamento do orgulho. Não há notícia que esse fato-juízo tenha ocorrido. Assim, o que resulta da vã tentativa é a dor. Dor que o senador Arthur Neto presenteou os transeuntes de Manaus. Exibiu uma outdoor com a enunciação: “O Orgulho do Amazonas”. Em seu caso, o orgulho está sustentado em 5% dos eleitores do Amazonas. Graus necessários para um orgulho, já que o orgulho, de acordo com o filósofo Spinoza, é um afeto triste.

SPINOZA PARA NÃO SE SENTIR ORGULHOSO

O orgulho é uma alegria nascida do fato de o homem ter de si mesmo uma opinião mais vantajosa do que é justo; e o orgulhoso esforça-se, quanto puder, por alimentar essa opinião; e, por conseguinte, os orgulhosos amarão a presença dos parasitas e dos aduladores e fugirão da presença dos generosos, que têm deles uma opinião exata”.

Spinoza não só revela simplesmente a face do triste-orgulhoso, mas revela também a face do tirano e de seus humildes-escravos. O convívio que o tirano necessita, pois não ameaça seu orgulho. E como diz Spinoza, “a humildade é uma tristeza que nasce do fato de o um homem contemplar a sua impotência”. O que deveriam considerar os “artistas” que participam da publicidade-personalista do governo Eduardo Braga, talvez deixassem de se orgulhar de ser amazonense, e então criassem obras capazes de transformar o Amazonas para que gerações presentes e futuras não tivessem mais que se orgulhar sob regência de qualquer governante.

1 thought on “ORGULHOSOS AMAZONENSES NO FILÓSOFO SPINOZA

  1. Um artigo lúcido.Maravilhoso. É raro conseguir verbalizar e escrever idéias tão claras e coerentes. Lhe agradeço por compartilhar suas idéias.
    Um abraço( Como dizem os espanhóis) desde Porto Alegre-RS

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