A BRECHTIANA MARIA DA PENHA NA CIDADE DAS HEROÍNAS

Do vazio do poder e do engodo-simulacro da democracia representativa, que entende o demos apenas como número e não como composição intensiva das potências de agir de seus habitantes, pode-se extrair alguns acontecimentos, sintomas do quão aguda é a doença social produzida pela subjetividade do capital, tão graves quanto a alcunhada crise, mas sem a mesma visibilidade midiática.

Manaus, que elege dentre seus representantes para o exercício do legislativo quase todos os exploradores televisivos e radiofônicos da miséria social – sintoma do sintoma? – e que tem autoproclamadas representantes do movimento feminino nas instâncias legislativas e executivas mulheres (no signo sujeitado faloculturalmente, que fique claro) que se sujeitam aos desígnios e interesses muy machistas de maridos, amantes e patrões. Cita-se aqui a economista Renata, que jamais se quis líder, representante ou edil (ainda), mas que expôs, com farta documentação, afirma a Procuradoria Geral da República, as agressões físicas e psicológicas sofridas por ela e pela primeira-dama, capitã de um Centro de Desenvolvimento Humano, desferidas pela dupla de sócios, o governador Eduardo Braga e Ney Barros. Cabia Maria da Penha neles. Elas, no entanto…

MARIA DA PENHA, BRECHT E AS GARCIANETTES

Na manhã de ontem, na Assembléia Legislativa do Amazonas – ALE, a convite da deputada Conceição Sampaio (PP), a meiga Maria da Penha falou sobre a lei que batizou, com a sua história doméstica, que ela fez transbordar politicamente, expondo as entranhas da boa família de classe média e suas violências cotidianas. Maria, que sofreu todas as formas de violência e fez-se democrática apenas por não querer para as outras aquilo que havia ocorrido a ela: anos de violentação, um tiro pelas costas e a não condenação do ex-marido.

Não sabe, talvez, a doce e engajada Maria que a deputada que a convidou, e que se pretende a defensora das mulheres indefesas, elegeu-se e elege-se graças à condição de insegurança social, física, psicológica, alimentar, de pertencimento, intelectual, de convívio e de ausência da proteção do Estado produzida pelos governos aos homens e mulheres, em toda a parte de Manaus. Governos aliados ao PP de Conceição, através de seu presidente, o ex-deputado Francisco ‘Sortudo‘ Garcia. Talvez por isso o silêncio da defensora das mulheres quando a agressão a ser investigada é a do governador. É na emissora de Garcia – poderia ser em outra, todas se fazem iguais, mas é lá – que Conceição, que começou como repórter esportiva e se orgulha de ter entrevistado Roberto Dinamite, só de toalhinha, no vestiário do Vivaldo Lima, passando pelo programa dos já decadentes Nonato Oliveira e Lupércio Ramos, com quem aprendeu que exibir o desespero criado pela miséria social dos governos é atalho para chegar um dia a fazer parte destes governos. Sempre, é claro, mantendo a subalternidade, já que Manaus é a cidade que não teve uma mulher sequer compondo chapa na eleição para a prefeitura. Se até as universidades da cidade, pretensas detentoras do título de consciência intelectual da sociedade, caíram na esparrela, porque não Maria da Penha?

Mas Maria da Penha escapa. Não carrega os mesmos elementos de culpa, resignação e ressentimento desse movimento feminista nascido ao largo do paternalismo dos Garcia, com conceições, rebecas e iguais. Escapa ao falso truanismo falocrático de Lins, Sinésios, Rottas, Souzas, Bragas, Mendes e tantos outros, apenas vetores do mau encontro que é a subjetividade falocrática, ainda predominante nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.

Enquanto em mil vinhetas supercoloridas as Garcianettes se heroicizam na perpatuação da miséria, Maria da Penha, na sua atuação, compõe com Brecht: pobre da cidade que precisa de heroínas!

3 thoughts on “A BRECHTIANA MARIA DA PENHA NA CIDADE DAS HEROÍNAS

  1. Sabe por que não há comentários? Porque ninguém lê essas merdas que você escreve, seu rancoroso! Se você é mesmo filósofo, deveria saber que não és dono da verdade.

  2. Valeu pela leitura do texto e pelo comentário, Anônimo.
    O texto não se quer verdade, mas infelizmente para a cidade, as personagens citadas fazem-no uma verdade factual.

    Volte sempre!

  3. Acho que o nobre filósofo, já que diz que não escrever o que se supõe uma verdade, deveria pesquisar um pouco mais sobre a atuação parlamentar da deputada Conceição Sampaio. Bastaria deixar um pouco a preguiça de lado e pesquisar no Google. Suas opiniões totalmente preconceituosas a respeito da deputada nada têm de construtito. Dizer que a carreira televisiva de Conceição se resume a ter entrevistado Roberto Dinamite de toalhinha é ridículo, assim como dizer que ela explora a miséria alheia em seu programa de TV, que assisto com frequência. O sr. deveria assistior também, ao menos um dia, antes de emitir opiniões deste tipo.

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