PROTESTO NO HOSPITAL TROPICAL DE MANAUS REVELA PSICOLOGIA DA SUBALTERNIDADE

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Certos gestores tem uma maneira de governar que pode revelar se são ou não democráticos. Pode-se observar isso através da relação que eles estabelecem com seus subordinados. Quando não são, privados – por si mesmos – da possibilidade de ações ativas que promovam modificações reais dentro de sua área profissional de atuação, é para eles essencial que também seus subordinados sigam a mesma linha de imobilidade. Todos trabalham num contrato tácito da imobilidade e improdutividade, e qualquer deslize, qualquer ação que promova uma melhoria ou que permita à população que é usuária daquele serviço provoca verdadeiras crises histéricas no gestor antidemocrático. Igualmente, se surge alguma manifestação de contrariedade aos atos de algum subordinado, este também entra num estado de desespero que beira a sociopatia.

Em ambos os casos, fica evidente para qualquer pessoa o aspecto burlesco e patético de cenas onde o subordinado é exposto na inapetência de sua gestão diante de seus chefe. O desespero é tamanho que ele acaba protagonizando cenas dignas de uma comédia de costumes. Garantia de risos para quem ainda não perdeu o senso de humor, mesmo diante dos afetos tristes que tais gestões tentam disseminar entre seus usuários e funcionários.

Na lógica Senhor-Escravo, a relação de submissão é evidente quando observada do ponto de vista do escravo. Este só é escravo quando existe um senhor. Se a sua condição no mundo só pode ser confirmada mediante este olhar que foi eleito – pelo próprio escravo – aquele que lhe traz a certeza (melhor, a ilusão da certeza) do existir concreto no mundo, então significa dizer que este olhar é condicionador da sua segurança existencial. Não há nada pior para um escravo do que conviver com a incerteza de não saber como o seu Senhor lhe vê.

Mas a recíproca também é verdadeira. Se só é possível existir um Escravo a partir do olhar dominador de seu Senhor, este também só existe a partir daquele. Jogada percebida pelo filósofo alemão Hegel, e que também é belissimamente descrita na peça “O Balcão”, do francês Jean Genet. Observando que tipo de pessoa é o Escravo, sabe-se quem é o seu Senhor.

O DAY AFTER DO PROTESTO

Na manhã da quinta-feira, o governador “Guerreiro de Sempre” Braga estava no Instituto de Medicina Tropical de Manaus, realizando inaugurações, acompanhado do médico Sinério Talhari, diretor do IMT, indicado por Braga ao cargo, quando se depararam com uma manifestação de ONG´s ligadas a pacientes soropositivos do próprio hospital, que reivindicavam melhoria nas condições de tratamento.

Surpreendido, e visivelmente alterado, o Dr. Sinésio tratou de desmentir os manifestantes, aproveitando para reiterar, diante do governador, a sua ilibada reputação. Tratou de, em seu discurso, numerar obra por obra todas as melhorias da gestão Talhari-Braga, salientando que não há nenhuma razão para descontentamentos dentro e fora do Hospital Tropical. Em sua vez, Braga devolveu a rasgação de seda, tecendo loas ao seu subordinado. As informações estão nas edições de ontem dos jornais impressos.

O que não saiu nos jornais, no entanto, foi o day after, quando o assunto entre os funcionários – segundo fonte intempestiva – era o destempero de Sinésio diante da manifestação contrária. Não seria a primeira vez que Sinésio reage desproporcionalmente quando questionado diante do governador.

O que também causou risos e comentário entre os funcionários foi a fotografia, publicada em um jornal da cidade, em que Sinésio aparece visivelmente enfurecido, dedo em riste diante de um manifestante. O discurso de Sinésio também teria chamado a atenção pela imprecisão e pelo hiperbolismo de detalhes que não chegam a ser novos no hospital, e que não representam melhoria nas condições de trabalho ou de atendimento ao usuário.

Resta saber como ficou o Senhor, mas dá para desconfiar.

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