EDUARDO BRAGA E O PATÉTICO DIREITO DE RESPOSTA

Ofendido, segundo ele mesmo, na sua “honra pessoal” e no seu “governo”, Eduardo ‘Guerreiro de Sempre’ Braga esteve na tevê Cultura ontem para exercer o que ele mesmo chamou de direito de resposta. Embora não seja candidato direto a nada e o direito de resposta não tenha passado pelo exame jurídico do Direito, Braga não se fez de rogado, e numa histeria televisiva de mais de uma hora, fez a grade de programação da emissora mudar para lhe dar um horário eleitoral gratuito fora de hora e de contexto.

Braga ficou irritado com a surra que o seu candidato levou na terça-feira, com perguntas contundentes e lúcidas do repórter Walmir Lima, do Diário do Amazonas. Não confundir, no entanto, a postura democrática do repórter com o veículo de comunicação no qual trabalha.

Embora todo o esforço de Braga ontem tenha sido no afã de atacar o Diário, o eleitor intempestivo sabe muito bem que a relação entre o governador e o jornal é tão íntima e promíscua quanto a relação dele com o seu ex-mestre (ex?), Amazonino Mendes.

Braga, visivelmente possesso, era rodeado por duas cadeiras vazias, e deve ter pensado como a canção: “naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele tá doendo em mim”. Acostumado a tratar seus subalternos com humilhações, chantagens e ameaças, Braga sofreu pela ausência de Walmir que, é claro, não participou da patética. Nem André Alves, do A Crítica, outro jornal visceralmente ligado a Bragas, Amazoninos e Serafins. Nas outras cadeiras: um acuado jornalista do Em Tempo, que mesmo a contragosto não fez mau papel diante da histeria, levantando boas bolas para Eduardo cortar; do outro lado, outro jornalista, do Jornal do Commercio, que também fez a sua parte na armação das jogadas para o centroavante Eduardinho Guerreiro entrar de sola na inteligência da população; na ponta da roda (nesta roda existe ponta), um subserviente apresentador, que só não chamou o chefe de patrão para não dar mais na vista do que já estava dando: “posso,excelência, posso?”.

Braga preocupou-se em rebater acusações. Principalmente a das obras inacabadas de Fonte Boa, quando Braga invocou o imparcial e justo testemunho do ministro Gilmar Mendes, que teria visitado em pessoa todo o Alto Solimões, examinando as obras e inaugurando algumas. Também apresentou contundentes provas (na velha prática do calhamaço de papel, usada para enganar professor por muitos alunos que não faziam o trabalho escolar) das mentiras sobre a contratação ilícita da SEPROR, do casal de comunistas licenciados VanEron. Em nenhum dos dois casos, houve argumentação, mas tão somente desqualificação dos acusadores.

Braga aproveitou para exaltar o pai, Carlos Braga, a quem classificou como seu mais valoroso conselheiro. Carlos Braga, o Pai, no entanto, não demonstrou o seu valor como um bom conselheiro, uma vez que permitiu ao filho tramar e executar este patético direito de resposta.

Uma ilustração da retidão e limitação do entendimento do mundo que carregam Braga e a mídia, tanto a que lhe apoiou quanto a que lhe fez o papel de rival ontem: Braga, quando teve uma “bola” levantada por um dos jornalistas sobre a questão da educação, afirmou ter conversado com Leonel Brizola e Jefferson Péres “quando eles eram vivos”. Iluminação mediúnica? Poderes paranormais? Um governador metafísico? Nada disso. Apenas a comprovação de que algumas pessoas construíram para si uma idéia de mundo tão reta, certa e compacta, que não escapa sequer uma brechinha para suspeitar. São pessoas que observam o mundo pelo olhar técnico. E, ao contrário de Pessoa, são técnicos dentro e fora da técnica. Não chegam sequer ao óbvio.

O que lembrou um outro episódio envolvendo o próprio Braga: num debate no segundo turno de uma eleição municipal, anos atrás, os candidatos Eduardo Braga e Alfredo Nascimento (hoje aliados) trocavam acusações. Braga apontou para Alfredo e o acusou de não cumprir promessas feitas no seu primeiro mandato, incluindo o metrô de superfície. Alfredo rebateu, devolvendo as acusações, e dizendo-se protegido por Deus, acusou Braga de, quando prefeito, não ter cumprido as promessas que fez, ter esquecido a população, e feito como Herodes: lavado as mãos.

Braga, que tinha retornado dos EUA, especialista em gestão pública, que estudou em um celebrado colégio de padres, que se vangloria da inteligência privilegiada, calou-se, sequer percebendo a toada do pajé maluco. Também seus assessores, todos cristãos e de “nível” cultural, não perceberam a lambança de Alfredo, que trocou Pôncio Pilatos por Herodes. A imprensa também se calou, se valendo daquele ditado popular: quem cala, consente. Todos perderam para Abílio Farias (letra de Domingos Lima), que pelo menos não faltou às aulas de catecismo, e apenas errou ao coroar imperador o sábio romano.

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