O filósofo da “zona de imoralidade da política”, José Arthur Gianotti, ouvido pela imprensa na cerimônia de promulgação da lei que institui o ensino de Filosofia e Sociologia, afirmou que a iniciativa é uma “triste bobagem”. Para ele, os alunos não sabem sequer português, não compreendem o que lêem nos jornais, como então aprenderão Filosofia? Aponta outro suposto gargalo: a falta de profissionais habilitados nas áreas de Filosofia e Sociologia fará com que outros, de áreas diversas, assumam ad eternum os postos de trabalho, “engessando o ensino filosófico no país”.

A “ZONA DE AMORALIDADE” DO AMIGO FHC

Gianotti, amigo de FHC, quando de um raro ataque da imprensa à política subserviente e enfraquecedora do Estado brasileiro por parte do príncipe dos sociólogos, atacou a imprensa, afirmando em artigo que “os riscos morais inerentes à política são um problema dos políticos – nunca da imprensa…”. Gianotti criou a “zona de amoralidade”, que defendia FHC de qualquer crítica ao desmonte da já precária estrutura do Estado brasileiro e da venda do patrimônio nacional aos interesses do mercado que entregaram um país duplamente falido a Lula.

Quando no combate ao governo do Sapo Barbudo, a tal “zona de amoralidade” desapareceu, e os “riscos morais inerentes à política” deixaram de ser um problema dos políticos e passaram a ser considerados chagas de uma prática política irresponsável, apoiadas por uma população alienada de sua própria condição.

OS ERROS E OS INTERESSES DE GIANOTTI

Gianotti confunde a Filosofia com a História da Filosofia. Primeiro erro. A filosofia para Marx não é um corpo inerte, um conjunto de negatividades que são condição material para a produção social humana. A História da Filosofia, como matéria morta, não serve à educação. Somente a Filosofia que “ativa o Pensamento” e “afirma a Vida” interessa a uma práxis revolucionária. Gianotti afirma que mais importante que estudar Filosofia é apreender as coordenadas semióticas das outras disciplinas escolares (português, matemática, história). É justamente retirando o elemento filosofante destes saberes, através da academicização (ou a especialização do conhecimento, que Marx viu), que o Estado hierarquiza e esvazia do seu elemento de potência ativa esses saberes. Quando já não há mais qualquer possibilidade de que esse conhecimento se territorialize na existência cotidiana das pessoas é que serve aos interesses do Estado (e do Mercado).

Por isso Gianotti participou ativamente do lobby contrário à inclusão da Filosofia e Sociologia no Ensino Médio, no governo do seu amigo sociólogo. Os interesses das escolas-empresas privadas pesaram mais que o seu marxismo anêmico.

Para o filósofo Espinosa, o filosofar é apenas para quem pode: quem constrói em si mesmo o filosofar como condição afirmativa da Vida, não como instância hierárquica dos saberes institucionalizados, para os falsos joguetes do vazio do poder e o academicismo lamê. O que faz com que, então, um analfabeto (que não domina os signos visuais, a sintaxe da língua e a organização numérica tal como organizados no saber do ensino de Estado) passe um troco, frite um peixe, tempere uma comida, prepare uma massa de cimento, levante um muro e faça uma leitura de mundo muito mais lúcida e real do que muitos doutores e pHDeuses que têm por aí? “O espírito que constrói os sistemas filosóficos no cérebro dos filósofos é o mesmo que constrói os caminhos de ferro com as mãos dos trabalhadores”, diria um Marx que não passou pelo Cebrap. Se a filosofia está em todos os lugares onde o filosofante passa, porque não estaria no Ensino Médio? Se há uma Filosofia que é desnecessária aos alunos, é justamente aquela que está atrelada à tradição da História da Filosofia, com seus “Platão foi…”, “Sócrates disse…”, “Descartes determinou…”, cultuada pelas hostes academicistas das quais Gianotti é partícipe e incentivador. Esta “filosofia”, ele tem razão, não é necessária.

Gianotti prega a falência do ensino de Filosofia. Afirma que é preocupante a qualidade dos cursos de Filosofia. Mais: somente agora o país estaria formando filósofos. Ele, que defendeu às custas da sua coerência intelectual os arroubos entreguistas do governo de FHC, assume, conscientemente ou não, dois enunciados: 1) que os oito anos de governo FHC foram desastrosos para a educação superior do Brasil, e; 2) que a recuperação está vindo somente agora no governo Lula.

AS NOÇÕES COMUNS E O RESSENTIMENTO DE GIANOTTI

O filosofante Espinosa (1632 – 1677) afirma em sua filosofia da Vida que um corpo é tão mais próximo da perfeição (Beatitude) quanto é capaz de ser causa de si mesmo. Quando os afetos produzidos nos encontros aumentam a sua potência de agir. Longe dos encontros maus, que imobilizam, o corpo se aproxima do estado em que sua produção afetiva-comunitária é máxima: a linha intensiva democrática. A democracia de Espinosa é aquela onde todos podem contribuir produtivamente na construção de um organismo-cidade vivo, em movimento e produtor de afetos alegres.

Mas, para produzir afetos bons, que contribuam com a democracia, é preciso que os corpos tenham com o corpo-democracia aquilo que o filosofante luso-holandês chamou de noções comuns. Elementos que permitam o encontro e a interação dos corpos, a fim de aumentar as potências. Um querer a Democracia, uma vontade de potência (Nietzsche).

Gianotti não tem noções comuns com o corpo-Democracia, com a Educação, com a Filosofia. O que ele aponta como fundamental, portanto, não parte de uma análise da Razão sobre a condição social do ensino das disciplinas, mas de um erro de quem confunde efeitos com causas, tomando a atual condição da Filosofia e Sociologia – efeito da laminação dos saberes pela institucionalização promovida pelas universidades – como justificativa para que estes saberes não transitem – ainda que institucionalmente – pelo ensino dito médio. Se assim o fosse, qual seria a função do próprio Gianotti como catedrático, doutor PhD?

Impossibilitado de compor com um corpo no sentido de aumentar a potência de agir e a potência democrática, só lhe resta o ressentimento. Até nisto foi fiel a seu amigo, FHC. Um alento. Ou não.

Leia aqui na íntegra, as declarações de Gianotti ao Terra Magazine.

3 thoughts on “O “FUNDAMENTAL” DO RESSENTIDO GIANOTTI

  1. Ao ler o texto O”Fundamental” do ressentido Gianotti passo a me perguntar: quem o escreveu? Com que intenção? É filosófico? No meu ponto de vista, revela-se tendencioso… Parte do viés da análise marxista. É lamentável.
    Quanto ao Fernando Henrique, só uma pergunta: Por que Lula e todo governo anterior não admite a grande importância que teve o governo do Fernando Henrique para o início da estabelidade econômica no Brasil? (Pode-se discordar da venda de parte das estatais. Mas, será que elas não tiveram o seu valor, seja no sentido econômico, na sua função social e política?) A História ainda fará justiça ao Fernando Henrique que, para sua época, foi um grande presidente.
    Lula foi um ótimo seguidor de Fernando Henrique, aproveitando as águas mais calmas…. Soube aproveitá-las. Teve seu grande valor, embora não pudesse evitar que um bom número partidários, alguns muito próximos, sucumbissem à corrupção, seja, aproveitando-se de qualquer meio para chegar ao poder ou usando do poder para interesses pessoais ou partidários. Certamente Gianotti é extramamente importante para o pensamento filosófico e político no Brasil. É uma voz discordante daqueles que acham que só existe uma verdade. Aliás, a filosofia se dá na diversidade do pensamento. Ninguém filosofa seguindo apenas uma linha de pensamento, embora esta seja uma tentação do pensador.

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