Na mesma escola do episódio objeto-meia, integrantes dos freis capuchinhos de Manaus e paroquistas que participam do projeto “Meu Velho Amigo”, da paróquia de São Sebastião, que trabalha com doutrinação católica dentro das escolas, estiveram promovendo palestras de doutrinação. Dentre os executores, há uma professora universitária que afirma trabalhar em várias faculdades particulares de Manaus. Em uma das salas, ela notou que um aluno não quis participar da oração final. Ao término, questionou o rapaz o porquê dele não ter rezado. Ela afirmou que não acreditava em Deus. “E no que você acredita?”, foi a pergunta de uma professora universitária assustada e ofendida em sua fé. “Em Darwin. O homem veio do macaco”, foi a resposta do estudante. A professora então passou a desfilar as ladainhas teofastras, com a ajuda de alunos que tinham no estudante um contestador. Ao final, vendo-se incapaz de dobrar a convicção do estudante, a professora se dirigiu à diretoria da escola, para solicitar o endereço do estudante, a fim de visitar a família, para ela a origem do problema do ateísmo do estudante.

DO SABER COMO POTÊNCIA E COMO FORÇA.

É possível a educação onde não há possibilidade de produção de saberes libertadores? Não. Onde os saberes não se configuram como corpos que produzem aumento da potência de agir das pessoas, não pode haver educação.

O filosofante Espinosa, crente convicto na idéia de Deus, fez dela o ponto de partida de sua filosofia. Deus sive Natura. A Substância. Um Deus-Natureza-Fluxo, correndo por fora do existir, e que engendra todos os entes. Um Deus-Produção, contrário ao Deus-Inação da igreja Católica Paulínica. Daí ter falado em Deus (e não o negado), e mesmo assim ter sido perseguido pela Inquisição e por governos teo-ortodoxos.

Espinosa sabia que um saber é um corpo-idéia, que produz uma afecção, quando do encontro com outros corpos. Quando este encontro se dá de maneira a diminuir a potência de ação das pessoas, é que se produziu uma idéia inadequada, uma incompreensão. Assim, a idéia de Deus na época de Espinosa, e desde antes dele, com os chamados filósofos cristãos, já estava a serviço da dominação e da força opressiva.

A idéia de um Deus antropomorfizado (carregado de paixões humanas, demasiado humanas), vingativo, ciumento, cultuador da Dor serve menos à um re-ligare do que à produção de uma subjetividade de controle das expressões e produções coletivas da multidão. É com esse Deus que o projeto dos capuchinhos trabalha.

Daí a impossibilidade da fala colocada pelo estudante ter sido compreendida pela professora: esse corpo-idéia (Deus) colocado pelo estudante produziu uma afecção no corpo-professora. Como não há noções comuns entre o corpo-idéia-Deus e o corpo-professora (elementos incorporais em comum aos dois corpos e que permite o aumento das potências), produziu-se uma idéia inadequada, não houve movimento, mas apenas a confirmação da imobilidade do corpo-professora.

Daí a frustração da professora diante da discordância do estudante a ponto dela sentir, na recusa deste a rezar, o fracasso do seu “projeto”. E tentar enredá-lo na sua imobilidade, o que o estudante não permitiu.

Tudo, é claro, contrário à uma educação transformadora. Por isso o projeto se realiza nas escolas estaduais sem nenhum tipo de oposição da direção. São corpos que compõem afetos tristes, diminuição das potências de agir das pessoas, bem de acordo com a “educação” praticada pela maioria das escolas estaduais/municipais.

Mais: com a atitude, a professora não apenas mostra sua impossibilidade epistemológica de compreensões para além dos clichês, mas também incide em um ato que atenta contra a Constituição Federal do Brasil. Impede o estudante de exercer sua crença, seja ela qual for, colocando-a como patologia diante dos colegas do estudante e da direção da escola. Discriminação. Além disso, entra – sem razão justificável – na privacidade do estudante, ao solicitar do diretor o endereço do aluno sem a aquiescência deste. Erro passível de processo civil e administrativo contra o diretor da escola, caso tenha fornecido o endereço, já que a professora não tem poderes policiais para exigi-lo, nem ele o direito de fornecer dados particulares de seus alunos a outrem sem prévia autorização ou mandado judicial.

Leia aqui uma ilustração de como a idéia de Deus pode ser usada para uma educação transformadora.

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