O TRABALHO É FILOSÓFICO
Quando Marx afirma que “o espírito que constrói os sistemas filosóficos nos cérebros dos filósofos é o mesmo que constrói os caminhos de ferro com as mãos dos trabalhadores”, ele revoluciona o pensamento e altera a realidade. Destrói a dicotomia da potência produtora e do produto. Sintetiza o trabalho como o momento da práxis transfigurador do real posto. Nos leva a acompanhar o pensamento transfigurador: trabalhar é criar realidades. O operação do conatus (potência contínua) social.
Aí Brecht analisa o trabalho não mais como conatus, mas como objeto-reificado do capitalismo, exploração patológica da força do trabalhador, e ironiza-o em seu poema O Dinheiro.
“Ao trabalho não o quero seduzir.
Para o trabalho o homem não foi feito.
Mas do dinheiro não se pode prescindir!
Pelo dinheiro é preciso ter respeito!”
(…)
Taí! Marx e Brecht. O filósofo mostra o trabalhador filosofante, constituindo o mundo no momento de sua experiência produtiva: causa de si mesmo. O teatrólogo mostra o trabalhador alienado com o produto-efeito de sua potência trans-formado em desejo-necessidade do capital.
Nesse 1° de Maio, muitas instituições e trabalhadores, alguns sem saber, comemoram a data, e entendem o trabalho como os dizeres de Brecht. E de forma honesta. Não desconfiam do blefe social de suas funções trabalhistas. O que para o teatrólogo é ironia, para eles é verdade. “Para o trabalho o homem não foi feito”, diz. Gonzaguinha, faz coro: “Sem o trabalho o homem não pode ser feliz!”. Tem razão o engajado artista. Brecht diz que o homem não foi feito para esse trabalho alienante. Gonzaguinha afirma que o homem sem o trabalho alienante pode ser feliz. Belos versos inquietantes. Aí a poderosa lógica do trabalho alienante: O Dinheiro. Esse, sim, tem que se “ter respeito”. Patologia social: é esse dinheiro que estabelece o salário do trabalhador. O lucro psicótico da mais-valia. Tudo que tenta negar o trabalhador/filósofo de Marx. O dinheiro como alcoviteira, como diz Marx, seduz o trabalhador para o amor das necessidades impostas pelo capital.
Nisso, a angústia das comemorações.
Aí não dá outra: Brecht manifesta Marx no poema Canto Das Máquinas.
Alô, queremos falar com a América
Através do Oceano Atlântico com as grandes
Cidades da América, alô!
Perguntamos-nos em que língua
Deveríamos falar, para que
Nos entendessem.
…
Mas agora temos juntos nossos cantores
Que são compreendidos aqui e na América
E em toda parte do mundo.
Alô, ouçam o que nossos cantores cantam, nossos astros negros
Alô, escutem quem canta para nós…
…
As máquinas cantam.
2
Alô, estes são nossos cantores, nossos astros negros
Eles não cantam bonito, mas cantam no trabalho
Enquanto fazem luz para vocês eles cantam
Enquanto fazem roupas, fogões e discos
Cantam.
Alô, cantem mais uma vez, agora que estão aqui
Sua pequena canção através do Oceano Atlântico
Com sua voz que todos entendem.
…
As máquinas repetem seu canto.
…
Isto não é o vento nas árvores, meu menino
Não é uma canção para a estrela solitária
É o bramido selvagem da nossa labuta diária
Nós o amaldiçoamos e o elegemos
Pois é a voz de nossas cidades
É a canção que nós cala fundo
É a linguagem que entendemos
Em breve a língua-mãe d o mundo.
Tradução: Paulo César Souza
corentha
gostaria de saber sobre filosofos que falam sobre trabalho
como é um trabalho de um filosofo????????????????????????????????
Tende, em geral, a ser intrínsecamente antagônico à pragmática de vossa pergunta… Não muito simples de se entender para quem não entende!