O 'BARATO' QUE PREOCUPA À ONU NÃO DÁ BARATO (III)

POR ONDE PASSA A ROTA DO TRÁFICO

Quem vicia é o Mercado. O Grande Mercado, Mercado Global. Deus-Mercado. Nas cidades é que se generalizam os usos de entorpecentes, legalizados ou não-legalizados. Mas não são os “aviões”, “passadores” ou “mulas” que lucram com o lucrativo mercado mundial da droga. No Amazonas, além das famosas “festinhas” regadas não somente a álcool, muitos são os boatos de políticos que se fizeram em milionárias campanhas com a fortuna feita no tráfico de drogas. Destes, quem não se lembra em Manaus, do atual prefeiturável pelo PSC, deputado Silas Câmara (que tem um processo correndo em segredo de justiça no Supremo Tribunal Federal), que já foi acusado de envolvimento com o narcotráfico, contrabando, falsificação de dólares e dupla identidade? Em todo o Brasil, não só abundam “boatos”, não são poucos os casos comprovados de envolvimento de empresários e políticos com o crime organizado e o narcotráfico, que vão desde o truculento Hildebrando Pascoal (ex-deputado acreano), passando por Eustáquio da Silveira e Vera Carla da Cruz Silveira (casal de juízes que foram condenados à aposentadoria compulsória por liberação de sentenças de narcotraficantes). Até o Corinthians vinha servindo para lavar dinheiro da máfia russa. (Veja no Mídia Independente uma lista de políticos e juízes envolvidos nestas tramas). Enquanto, através do famigerado Plano Colômbia, os Estados Unidos acusa as FARC de ligação com o narcotráfico, o presidente Uribe, chamado de Dr. Varito pelo amigo Pablo Escobar, criou as bases para a globalização do narcotráfico colombiano (aqui). Segundo Virginia Vallejo, ex-namorada do chefão do Cartel de Medelin, foi Uribe, quando diretor da Aeronáutica colombiana, que deu licença a “Pablito”, para a construção de centenas de pistas de aterrizagem.

“Pablo sempre dizia: ‘se não fosse por esse bendito rapaz teríamos de estar nadando até Miami para levar a droga aos gringos’.”

Pode-se dizer que a origem do narcotráfico sul-americano está na forma com que alguns indivíduos perceberam como tornar-se bilionários explorando a condição de países do 3º mundo, ou em desenvolvimento, ou ainda emergente, conforme a nomenclatura de momento pela sociologia tradicional: países com os quais as chamadas grandes potências podem negociar/explorar. Neocolonização. A indústria que transforma a coca da Colômbia, Peru, Bolívia em cocaína para os Estados Unidos não vai daqui pra lá; ao contrário, vem de lá pra cá, passando pelo FMI, o BIRD, pela Bolsa de Nova York e pelos paraísos fiscais. Na América do Sul, em certa medida, é com o neoliberalismo que o narcotráfico se perpetua, quando a ditadura militar vai embora, deixando surgir uma nova ditadura apoiada em leis que mantêm as desigualdades sociais, uma destituição de todos os estatutos da cidadania, tudo sob o signo redemocratização. Mas esse prefixo “re” indica aí “para longe” da democracia. E assim no restante do mundo. Giovanni Quaglia, que agora está preocupado com a situação de Tabatinga-Am, trabalhou no Afeganistão (1996-97), preparando o banimento do cultivo da papoula, mas a cada ano só faz aumentar exponencialmente naquele país a produção e o tráfico de ópio. Outras bases eram feitas antes, no tempo do “Eixo do Bem” nos resquícios da Guerra Fria, pela relação do governo de Bush pai com o governo afegão, na época da resistência afegã contra os russos, continuando hoje com a consolidação por Bush filho da condição de miséria e falta de alternativa da população do país. E miséria é uma palavra que não soa nem ressoa dentro dos esquemas do narcotráfico. Atualmente o tráfico de drogas movimenta uma quantia por volta de US$ 1 trilhão ao ano. É de longe o mercado mais lucrativo do mundo, dando até 3.000% de lucros, pois um kg de folha de coca, que custa pouco mais de 2 dólares nos Andes, depois de refinado, chega na forma de cocaína por 10 mil em São Paulo, sobe a 40 mil nos Estados Unidos e chega a 100 mil no Japão, tudo com um custo de produção e distribuição baixíssimos. Apesar do combate ao tráfico de drogas, a cocaína, a heroína e outros derivados e sintéticos vão tomando as maiores cidades do mundo como ponto de chegada. Nova York, Tóquio, São Paulo, Cidade do México, Rio, Santiago… A visão sobre a força avassaladora do narcotráfico depende da posição geográfica, mas demonstra o mesmo desespero. O que faz Eduardo Primo da Silva, delegado subchefe da Polícia Federal em Tabatinga, afirmar:

Quem não traficou, um dia, vai traficar droga em Tabatinga. Só neste ano já apreendemos cerca de 200 kg de pasta base de cocaína.”

O mesmo desespero constante nos últimos números do dia 20 deste mês de março em um relatório independente divulgado em Washington D.C. de que “a América e Europa estão ‘perdendo’ a guerra contra as drogas ilícitas”. Vários fatores contribuem para isso. O primeiro fator é apenas aparente: o fato do narcotráfico caminhar a partir de organizações secretas, nas quais reina um código de conduta muito rígido. O Cartel de Medelin, de Pablo Escobar, foi um exemplo de organização com tais características. No México, atualmente é que se encontram alguns cartéis com estas características centralizadas e hierárquicas, devido a negligência e corruptibilidade dos três últimos governos é o que firma o jornalista Ricardo Ravello. Diferente do Cartel de Medelin, que foi desbaratado com a morte do chefão, o Cartel de Cali, com a captura dos irmãos Orejuelas, utilizou a estratégia de se dividir em centenas de pontos descentralizados e sem hierarquia, em rede entre si e com outros grupos (financeiros, políticos, policiais, órgãos governamentais, comunitários, etc), tornando a perseguição e o ataque centralizado tradicional totalmente infrutíferos. Dizer que Abadía é sucessor de Escobar é uma pura ilusão para massagear o ego narcísico policialesco. Beira-Mar, Marcola, em si eles pouco representam. O Narcotráfico se tornou em uma velocíssima máquina que as polícias do mundo não conseguem rastrear, perseguir, capturar. Ainda mais porque não houve um abandono das antigas estratégias. As negociações continuam. Por isso o primeiro fator que citamos é apenas aparente. Toda vez que se acirra o combate ao narcotráfico, chega-se a um barreira intransponível: a CIA, o FBI e o governo dos Estados Unidos, justamente os que mais alardeiam combatê-lo. Ao que parece, é apenas uma forma de manter o controle dos fluxos dessa mega operação financeira. Que o estado civil colombiano continue destroçado faz parte da agenda de saldo estadunidense. Aqueles que condenam as ações das FARC não observam que mesmo que queiram, como têm apontado as tentativas de negociação apoiadas por outros chefes de estado, como Hugo Chávez e até o direitaço-francês Sarkosy, não tem como prosperar, enquanto a Colômbia for (des)governada por governantes subservientes à Casa Branca.

Os processuais de subjetivação que perpassam à utilização da folha de coca, que serve para o ritual milenar, o alimento, etc, e a transformam, a partir de insumos químicos, em cocaína, não podem ser estudados longe dos malefícios da Globalização. Os indígenas andinos não criaram o tráfico, os cabocos nos interiores do amazonas muito menos, ele se forma e se consolida enquanto consolida e é consolidado por empresas, governos, senhores ilustres, sentados à mesa com os grandes cartéis.

Como por qualquer frente que se ataque muitos outros micropontos surgem, a quem quiser agir para a diminuição do tráfico, terá que partir de dois princípios: ética e inteligência. Se Lula produzir alguma alteração a respeito do tráfico no Rio de Janeiro a partir do PAC, é porque não senta na mesa da truculência, nem policial, nem narcotraficante. Vai pelo meio, numa tentativa de modificação das subjetivações da forma de governar e de olhar as favelas, para agir na criação de outras alternativas para o jovem, para a criança, para o ancião.

Continua depois de amanhã…

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