O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

OS DESENHOS ANIMADOS: A TRISTEZA NA TEVÊ

É grande a influência que a televisão exerce, atualmente, na hierarquia da mídia. E como sua programação está cada vez mais relacionada à lei do business e, conseqüentemente, à lógica do mercado, que fundamenta o ultraliberalismo que apartou a opinião (doxa/política) do espaço público de criação e alegria, a informação na tevê (e em outros veículos midiáticos) sustenta três características principais: ela deve ser fácil, rápida e divertida. A informação é produzida na televisão como uma ficção, com a função definida de distrair. Ela não surge como o esforço intelectual/material de aperceber as relações entre as pessoas, os objetos, as instituições, os espaços e seus cruzamentos a fim de se tornar um elemento constitutivo da cidadania. Ao contrário, as informações emitidas pela tevê apresentam-se como a paralisação da criação social, posto que sintetizam a realidade segundo os ditames da subjetividade capitalística. Daí ela ter que ser fácil, rápida e divertida, no claro intuito de impedir o estranhamento das imagens e da linguagem televisiva e nos conservar na empatia. É o que ocorre com os chamados desenhos animados, que tem como principal público as crianças e os adultos infantilizados.

Em 30 de abril de 1998 em Los Angeles, uma central de televisão, interrompeu sua programação infantil (uma vez que não é para crianças, mas infantilizada) para “informar” “ao vivo” um suicídio. As câmeras controladas/controladoras da mídia serva do mercado pegaram tudo: o homem ateando fogo em sua roupa e logo depois, com um fuzil, atirando em sua cabeça. A programação infantil era constituída de desenhos animados.

Este fato é contado pelo jornalista filosofante Ignácio Ramonet em seu A Tirania da Comunicação. Ele continua dizendo: “As crianças passaram portanto da violência virtual dos desenhos animados a uma das cenas realistas mais brutalmente traumatizantes”.

Os desenhos animados são fáceis, rápidos e divertidos. Pelo menos, é esta a impressão que vários tele-espectadores (que não são apenas crianças ou adolescentes) compartilham. São nestes onde muitos encontram a felicidade de se sentar e ver aqueles personagens antropomorfizados/seqüelados, que carregam com eles os signos do mundo do business e da lógica do mercado mundial. Eles demonstram sentimentos humanos padronizados, próprios da subjetividade capitalística, como: somente o mais esperto se dá bem, sensualidade sem sexo, o dinheiro como objeto de desejo, homofobia, violência gratuita, a divisão do mundo em céu e inferno, a paranóia estadunidense dos infindáveis ataques à Terra e a seu país, o ilimitado poder dos norte americanos, o estereótipo do estúpido e do imbecil, a banalização da inteligência, pornografia, propaganda ideológica, apologia ao consumo, entre outros.

O caso ocorrido em Los Angeles ilustra bem a insuficiência cognitiva da tevê, impulsionada pelo acordo latente que ela assegura com o mercado internacional. Pouco importa quem seja o tele-espectador. Ele sempre é um dado, um número cuidadosamente mensurado pela segmentaridade dura da tevê-mercado. Importa é lucrar. Se há uma preocupação por parte dos donos temporários das concessões dos canais de tevê com a divisão de horários, classificação de censuras, pesquisas de “opinião” para identificar público-alvos, é porque estas medidas são necessárias ao controle exercido pela mídia televisiva.

E os desenhos animados assumem bem este controle. Eles funcionam como coordenadas semióticas que vão impondo às crianças imagens/linguagem já prontas, constituídas. Isto dificulta a produção de imagens por parte das crianças. A criatividade e a variação contínua própria à criança, que não se encontra em uma espacialidade e temporalidade determinada por instituições e subjetividades laminadoras, vão sendo minadas pelas imagens/linguagens pré-concebidas dos desenhos animados.

No entanto, há a criança livre, que a partir de suas experiências únicas produz suas próprias imagens. A criança que está FORA do mundo duro que a tevê ajuda a conservar. A criança que preserva o seu ser como variação contínua infinita, que se metamorfoseia a cada novo contato com um modo de existência diferente. A criança que a tevê não consegue alcançar. A criança que brinca no tempo irreversível do turbilhão de criações e animações-alegres.

Enquanto a mídia televisiva se fecha em si própria, se encolhendo até os pés dos patrões do grande capital, com seus desenhos que nada animam e só conservam a tristeza, a criança joga, livremente, seu pião talhado da madeira e com ele participa dos movimentos que escapam à tristeza do mundo-adulto.

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