O NATAL COMUNITÁRIO DO PAPAI NOELSON

O Natal é o nascimento do Novo. Novas relações nas quais as pessoas possam entrar em proximidades autênticas, para além das performances utilitaristas que tentam se apropriar das manifestações subjetivas construídas comunitariamente. Assim, todos os anos, desde 2002, Nelson Rocha deixa passar os fluxos do Papai Noelson e sai por bairros da cidade de Manaus distribuindo sorvetes gratuitamente para a criançada e para todos que entram afetivamente, independente de cronologias, no gosto dos diversos sabores do sorvete. Todo o evento sendo organizado por Nelson, proprietário da fábrica de sorvetes Sempre Frio, com a participação e auxilio de amigos e comunitários. A AFIN acompanhou Papai Noelson na distribuição que ocorreu ontem desde a manhã até a tarde e traz aqui imagens e uma entrevista com o Papai Noelson sobre as afecções de entrar numa linha lúdica com as pessoas. Corre a meninada, vêm todos que é o sorvete do Papai Noelson que vai passando.

Há 14 ou 15 anos atrás eu descolori a barba brincando num bar, o clube da esquina, uma amiga minha fez o gorro do Papai Noel e eu saí por aí e eu vi que as crianças começaram a achar interessante, ficavam brincando. Passaram-se um 7 ou 8 anos, aí em 2002 eu me caracterizei de Papai Noel, mas era mais uma brincadeira mesmo. Só que eu tive a intensão de fazer a entrega de sorvetes só aqui no Núcleo 5, eram 50 caixinhas de sorvete. Eu ainda não estava caracterizado como Papai Noel, só estava com a barba, o gorro e uma camiseta vermelha. Em 2003 tive a intensão de fazer, mas houve um acidente com um parente da Vitória. Em 2004 nós começamos com 5.000 copinhos de sorvete, em 2005 com 10.000 copinhos e foi virando tradição. As pessoas aqui do Núcleo 5 principalmente, porque na época nós fazíamos só o Núcleo 5 e o Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Quando foi em 2006 nós fizemos aqui no Núcleo 5, no Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e fomos a caminho da Carbrás. O negócio já foi mais sério. Em 2006 já foi pra 14.000 copinhos de sorvete.

As crianças me cobrando, as crianças aqui do Núcleo 5 e do Nossa Senhora do Perpétuo Socorro já me chamam de Papai Noel durante o ano todo. E eu fui cultivando a minha barba, 4 a 6 meses; esse ano eu deixei de agosto pra cá. E esse ano, com ajuda da comunidade, nós fizemos mais do que dobrar o número de sorvete: 30.000 copinhos de sorvete e num bairro novo, que nós não tínhamos ido: o Novo Aleixo. Virou uma festa, uma alegria enorme, todo mundo participa, as pessoas vêm, aparece voluntário não sei de onde, que vão surgindo. Esse ano, por exemplo, eu investi pouco, eu gastei dinheiro meu pouco. A comunidade participou, eu ganhei 25 fardos de açúcar, 2 fardos de leite, a produção que auxilia aqui fazendo a matéria. Eu faço questão apenas de dar uma contribuição simbólica pra eles. Quem banca economicamente é só eu com a ajuda desses voluntários que aparecem. Tem gente que eu nem conheço que tava participando aí. Economicamente até o ano passado foi só eu. Esse ano não, esse ano a comunidade ajudou. Não teve um parlamentar. Teve fornecedor que doou fardos de açúcar. Mas muita gente ajudou.

Ontem eu fiz parte de um evento da TV Amazonas como um Papai Noel voluntário. Eu fiquei emocionado. Eles estavam distribuindo presentes numa comunidade carente do Novo Israel, eu nem sabia que aquilo lá era Novo Israel ainda. Uma das crianças ganhou uma bicicleta, ela chegou em mim, me abraçou e disse: “Meus desejos todos foram realizados. Eu sabia que ia ganhar uma bicicleta, mas não sabia que ia ver o Papai Noel”. Aí foi lágrima. Foi muito emocionante, eu gostei muito da participação. É um veículo de comunicação, tem seus prós e seus contras, mas um evento desse é muito bonito e eu participo de novo ano que vem.

Ano passado uma loirinha agarrou a calça do papai noel, ela devia ter uns 8 anos eu acho. E ela tava chamando a irmã mais nova e disse: “Eu falei pra você que ele existia, ele veio e ele está aqui”. Como é que não chora. Esse ano eu propus pra mim que eu não iria chorar porque o evento ia ser maior e realmente até agora a pouco eu não tinha chorado. Mas a que mais me marcou foi essa do ano passado, que a menina agarrou e não largava a minha calça.

Eu não aceitaria nenhum tipo de envolvimento com alguém que quisesse tirar proveito econômico num evento como esse, a não ser que eu seja pego na rasteira. Eu estou disposto a ano que vem dobrar o número de sorvetes e fazer nesses 4 bairros que eu fiz hoje num dia e no outro dia difundir isso indicando um lugar onde as pessoas vão receber o sorvete, pra se concentrar num local só, num dia só porque fica mais fácil, a gente não tem condição física pra agüentar o dobro ano que vem. Esse ano eu tô esgotado. É muito cansativo.

Em 2005 perguntaram o que o Papai Noelson desejava pra 2006 e eu disse pro jornal Diário do Amazonas, dentre outras coisas, eu desejava a reeleição do presidente Lula. A gente já vinha participando da campanha, em 2002 tínhamos produzido um adesivo: “Por um Brasil decente, Lula presidente”. Em 2006 fizemos outro: “Em 2002 votei em Lula; em 2006, Lula outra vez”. Esse ano, como todo mundo sabe e vê que o governo de Lula está dando certo, independente dessa mídia horrível, e eu não vou falar nome porque todo mundo sabe quais são, que está sempre dando privilégios à classe que tem privilégios há muitos anos, então eu desejo que o Lula continue o que está fazendo, porque está bom demais e evolua e faça o seu sucessor em 2010.

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