A coluna Não-Cidade desta semana traz a primeira parte da entrevista com o educador Carlos Alberto Rocha. Carlos, de 43 anos, natural de Óbidos, no Pará, há 09 vivendo em Manaus, e há quase dez, devido a um glaucoma, que acomete membros de sua família, sem a experiência da visão. Compreendendo que um corpo, ao se modificar, altera suas propriedades mas não a sua capacidade de compor afecções, Carlos sabe que a deficiência só existe num plano onde os valores existem para manter posições sociais, quase nunca fixadas a partir da comunalidade, mas pela doença do ressentimento e da dor. Portanto, sabe que não é deficiente. Mas compreende que a ausência da atualização da experiência da visão, numa sociedade dominada pela moral de classe, cria condições para o surgimento do preconceito e da discriminação como formas do microfascismo. Por isso, diante das dificuldades, ele age.

Nesta primeira parte, abordamos os fatos que tem ocorrido na Escola Normal Superior da UEA, onde Carlos faz o quinto período do curso Normal Superior, com muitas dificuldades, decorrentes da ausência de um entendimento educacional por parte dos administradores da UEA, que leve em conta a pluralidade dos corpos, das potências, e das composições afetivas-afetantes que os estudantes são capazes de produzir.

Não-Cidade: Como é que está sendo a tua experiência aqui na UEA?

Carlos: Na universidade, eu tive grandes avanços e também muita batalha, porque os professores na prática não são preparados para trabalhar com alunos com deficiência, principalmente a visual. Por que com ele, você tem que ter um cuidado maior. O outro, que também precisa de cuidados é o surdo-mudo, mas com ele é mais fácil porque ele pode enxergar e se comunica através de sinais, e o deficiente visual é diferente, requer ainda mais cuidado, por que para aprender, ele precisa de mais estímulos, estímulos diferentes do visual apenas. Dia desses, numa aula, houve uma experiência interessante, de duas colegas que estavam apresentando um trabalho: enquanto uma estava trabalhando com a turma, a outra estava me orientando sobre como fazer o trabalho, quais os movimentos, falando, tocando. Foi muito marcante. Mas isso é exceção. Eu tive problema aqui com professores que passaram filmes legendados, e claro, eu não consegui acompanhar. Foi quando eu recorri a coordenação e à direção da Escola, que até hoje não me atendeu, não conseguiu me dar uma resposta satisfatória do porquê destes acontecimentos. O meu maior sonho é sair desta universidade com uma boa formação, sem precisar de favor de ninguém, através do meu próprio esforço, e ser um bom profissional.

NC: Quais são os pontos em que a universidade falha na questão da adaptação aos PNE´s?

Carlos: Eu estou nesta universidade há dois anos e meio, ou seja, cinco períodos, e nunca recebi um livro falado ou em braile. Estou na fase do estágio, da pesquisa, e preciso de muita leitura para poder embasar cientificamente as minhas pesquisas. Por isto, está sendo muito difícil. A universidade, até o momento, não fez nenhuma parceria com nenhuma instituição que tenha biblioteca, equipamento ou que trabalhe com o PNE, para o fornecimento destes livros, que existem, e também existem outras maneiras de fazer, como gravar um livro até mesmo pra gente adquirir, comprar. Eu tenho que dar meus pulos para mandar gravar ou pedir pra alguém ler para mim, e isso tem dificultado o meu acompanhamento do ritmo das aulas. A estrutura física até que não é ruim, porque eu estudo na parte de baixo, e não preciso estar subindo e descendo escada. Mas, em compensação, não há uma sala de recursos, de estudo onde o PNL possa ficar. Os dois Vox que tem, estão instalados na biblioteca, e eu não posso usar, porque atrapalha os colegas que estão lendo e precisam de silêncio. A mesma coisa com relação ao meu monitor, não dá pra ele ler pra mim na biblioteca. Tudo isso são barreiras aos PNE visuais que existem aqui na universidade. O que a universidade está fazendo para se adaptar às necessidades especiais? A que ponto ela chegou, de negar essas necessidades? E é nosso direito, meu e de quem for entrar aqui depois de mim, porque eu não entrei aqui por acaso. Eu me preparei, passei num vestibular e estou aqui, mas todos os dias tenho que encarar essa batalha, e o papel da universidade não é só abrir as vagas para os deficientes, mas também se adaptar a eles. E num momento em que o governo fala muito em inclusão, mas por enquanto ela ainda está engatinhando, e por aqui ainda nem passou.

NC: Foi aí que você resolveu ir ao Ministério Público?

Carlos: Bom, pra começar, todo período que inicia, eu tenho um monitor que eles disponibilizaram, é o monitor que me acompanha na sala de aula, e ele recebe uma ajuda de custo para estar fazendo esse acompanhamento. Só que desde o início ele já encontrou dificuldade para receber; na verdade ele não conseguia receber. E ficou comigo a maior parte do tempo por amizade. Então nós estávamos lá na diretoria sempre, eu e ele, informando à diretora que não estava saindo a ajuda, que eu precisava de livros, então não dá pra dizer que eles não sabiam. A resposta era que a universidade não tinha recursos, que o que era feito era o possível, que não dava para fazer parceria por falta de recursos. Mas o estranho é que assim que o Ministério Público enviou o documento pra diretoria, a bolsa começou a ser paga. Outra situação: a biblioteca pública, que tem uma parte toda em Braile, se disponibilizou a gravar os livros ou parte dos livros que a gente precisa, bastando apenas estabelecer a parceria. Só que a coordenadora do curso colocou uma série de dificuldades, e sem a autorização dela ele não poderia fazer. Então quando eu cheguei no quinto período, que precisei mesmo, percebi que estava sendo tratado apenas como um número na sala de aula pelos professores. Foi inclusive quando eu fui reclamar que o professor passou o filme legendado, ela disse que chamaria o professor, mas não sei de que maneira ela fez isso que depois o professor ficou revoltado comigo. Nesse dia, eu cheguei a conclusão que não dava mais, e deixei de vir pra aula. Pensei comigo que só voltaria se a universidade me desse condições de continuar. Foi daí que eu resolvi ir ao Ministério Público. Pra mostrar que eu sou um cidadão, e não apenas um número na chamada. Mas eu não fui fazer uma denúncia, fui fazer uma consulta. Queria saber quais as leis que me amparavam, que direitos eu tinha como deficiente na universidade. Lá eles me orientaram a fazer a denúncia, que ficaria a cargo deles averiguar se a universidade se adequava ao que nós precisamos por direito.

NC: Mas tu fostes orientado quanto aos teus direitos?

Carlos: Fui, recebi a cópia da Lei. A universidade, pra funcionar dentro da lei de inclusão, deve ter salas bem adaptadas ao deficiente, com todo o material que ele precisa. Mas aqui, a biblioteca não tem livros sequer para os alunos ditos normais, imagina para os deficientes. No meu trabalho, por exemplo, é diferente. Lá eu sou asessorado, compreendido, diferente daqui. Lá eu sou cobrado, porque sou um funcionário, e me dão todas as condições de desenvolver meu trabalho.

NC: Então a universidade é que está deficiente?

Carlos: Com certeza, e não só para o deficiente, mas para todos os alunos. Nós temos o direito de estudar, mas esse direito está sendo tolhido, porque ela é omissa. Não sei a realidade das outras unidades, mas esta aqui está precária, e é difícil levar em frente os estudos.

NC: E como está o andamento do processo no MPF?

Carlos: Eu estou preparando a minha defesa, porque o vice-reitor mandou, em nome da reitora, uma resposta ao MP, e o que ele diz no documento? Que eu tenho todo esse aparato aqui na unidade! Disse que aqui tem parceria com o CAPE, que é a escola da cidadania, que eu nunca vi. Disse que tem os dois Vox, que tem, mas é nessas condições, não funciona, é dentro da biblioteca, e eu não posso usar, teria que ter uma sala especial. Alegou outras coisas que existiriam, e ainda, que eu nunca procurei a direção da universidade. Então eu estou preparando a minha defesa, documentada, com testemunhas, formalizada, para que eles venham averiguar. E eu nem quero desafiar a universidade, eu só quero ter respeitado o meu direito de estudar.

Na próxima terça-feira, Carlos fala sobre condição do PNE visual na cidade de Manaus: transporte coletivo, calçadas, política, educação, a associação dos deficientes visuais e outros temas comunitários.

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