A votação, no senado, para cassação ou absolvição do senador Renan, teve momentos, pré e pós, humorísticos dignos de uma ópera bufa. A começar pelos pronunciamentos recheados de tergiversações do “não tenho nada contra o senador”, “está em jogo o futuro do senado”, “se não fizermos justiça o que vamos dizer para nossos netos”…, elementos imprescindíveis ao espetáculo burlesco. Performance perfeita para disparar no Ibope. Entretanto, o que mais saltou ao riso foram os desempenhos da dupla JA: Jefferson e Arthur. Os ilustres representantes da verve amazonense no senado. O J, o ideal da moral. O A, o “orgulho do Amazonas”.

DA POLÍTICA E DECEPÇÃO DO A

O A, dando continuidade à compulsiva verborragia simulante, incorporou seu personagem senatorial, logo, logo depois que Renan anunciou sua renúncia. Aproveitou a marcação cênica e já gesticulou um vamos pensar no substituto. O senador petista Tião Viana, interino na presidência, mandou um devagar com o andor que a santa é de democracia(?). Em seguida, perguntado sobre os possíveis candidatos à presidência, respondeu um sendo bom para nosso partido, nós acatamos. Nada de sendo bom para o Brasil. Permitindo ao público a inferência que para eles, “o meu pirão primeiro”. Ou, como diria o cineasta alemão Werner Herzog, “cada um por si e Deus contra todos”. Em seu pronunciamento, falou não ter nada pessoal contra Renan, elogiou a carreira política do réu, os bons diálogos que mantiveram, ou seja, reconhecimento de sua importância parlamentar. E pediu, em nome da moral, da sociedade e da honra do senado, sua cassação. Divulgado o resultado da votação, se mostrou transtornado, afirmando estar decepcionado. Inquirido sobre a possível votação a favor de Renan de alguns membros de seu partido, respondeu que era possível. Para quem horas antes, ou minutos, era todo euforia sobre seus parceiros e certeza deificada da conjugalidade do PFL, se não era a encenação da encenação, é de transtornar o intransitivo. Locado no intransitivo, levou o público a pergunta: “Que líder é este, meu, que não conhece a fidelidade dos intransitivos de seu partido e do PFL? Lidera quem? Será que só é líder para a Globo e outras seqüeladas?”.

DA MORAL E O “OVO DA SERPENTE” DO J

Já, o J (belo trocadilho/foniátrico beleza), carregando seus preceitos morais milenares, determinado historicamente pela realeza dominante, como diria o filósofo Nietzsche, subiu ao púlpito sacro/político do senado (porque existem senadores que se acreditam estar em nenhum degrau abaixo de deus, pelo menos o deus deles) enunciando está em uma missão que não pediu e não queria. O público aplaudiu e inferiu um raciocínio do tipo como se não queria, porque aceitou, e engatou a não mais dúvida de que se tratava de uma contagiante bufonada. Indicados para relatores, outros não aceitaram e passar bem, colegas. J, não. Aceitou ser relator, porque não queria aceitar. Aí saltam as indagações hegelianas: “Quem analisou as provas/indícios? Foi o J que não queria aceitar, o que aceitou não querendo, ou os dois? O sujeito-indivíduo, o sujeito-absoluto ou o absoluto-englobante? Em qualquer pessoalidade performática, não foi o J. quem analisou. Daí, a primeira brecha para passar a suspeita sobre a coerência jurídica/epistemológica de J. Quando elaborava seu relatório não era ele quem era o sujeito da práxis jurídica/parlamentar, senhor de si mesmo saído de seu livre arbítrio senatorial. Como diria o poeta: “ninguém ama um ser/amor que não se quer”. E como diria o filósofo da liberdade, Sartre: “todo ato do homem é sua escolha. Até quando escolhe não escolhendo”. Entende-se, então, que J é responsável por seu relatório. Talvez Sartre, para o senador da moral, não importe, já que é um bom cristão e o filósofo um bom ateu. Seguindo seu gestual, o amazonense mostrou mais uma vez ser antibrechetiano ao querer sempre está na pele de outro (Brecht, em sua ironia, diz que todo homem está mais seguro em sua própria pele). Transladou-se epidermicamente ao afirmar que se fosse Renan, no momento em que foi procurado por João Lira, seu acusador, para um negócio com sinais ilícitos, como senador e ministro, mandava ele procurar outra pessoa. O paternal recurso de querer ser modelo para o outro. Ou o enunciado da análise fenomenológica da procura do outro em mim mesmo. O incômodo de minha imagem. Povoar o mundo com a imagem que tenho de mim mesmo. Estou em todos como exemplo imagético. A eliminação do outro em sua liberdade de ser. Ainda tentou filosofar, mas caiu na armadilha parabíblica do bem aventurados os meus imitadores, pois deles serão os meus erros: falou tratar-se de um sofisma a defesa de Renan, um argumento falso querendo se passar por verdadeiro. Talvez, por cultuar o texto platônico do Mundo Ideal, o Topos Uranos, onde habitam os modelos reais das res (coisas) que são sombras no Mundo dos Sentidos, mundo dos fenômenos, as aparências, o senador lançou mão deste recurso socrático-platônico. Não deu outra: o errado é que está certo. Platão é um filosofrastro (falso filósofo) e os sofistas são os filósofos. Platão é maníaco-depressivo em sua busca do Ser vivendo no não-ser, o mundo empírico. Os sofistas são devirianos vivendo em um mundo das contínuas mudanças, onde o movimento e o tempo são indivisíveis. Onde a realidade é produto das combinações dos acasos. Onde nada sai de uma providência. Que digam os filósofos Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Nietzsche, Marx, Deleuze, Negri, Guattari, Rosset… O senador escorregou no filosofema. Em síntese, usando um termo proferido pelo amazonense senador, sua acusação foi pífia. Daí porque foi fácil para Renan, o tautológico, derrubá-lo; também, com pífio argumento. Não precisava nem usar o recurso afirmativo de que se a moda de julgar senadores apenas por indícios sem provas pegasse a maioria do senado seria cassada. Renan lembrou ao amazonense que ele sabia das histórias eleitorais, em seus estados, da a maioria dos senadores ali presentes e ausentes. Fato esquecido pelo amazonense. Os expedientes escusos de serem eleitos através da chantagem, ameaça, uso amaldiçoatente da fúria de um deus perverso, troca de favores, tudo que é antidemocrático. Capturado por seu ideal de senado, fez ouvido de mercador às vozes antipopulares, antisenatoriais, destes senadores em seus estados. Lá onde plantaram suas raízes rumo ao senado. O ponto de confluência da maioria simulante. Por tal, é risível querer se apoiar no cineasta/filósofo Ingmar Bergman para sustentar sua profecia de que o “O Ovo da Serpente” (cinema de 1979) começou no senado. Além de que, dado o qüiproquó senatorial, não salta nenhum nazista com o talento dos nazistas do Reich. E, cá pra nós, a serpente não tem nada a ver com os negócios do homem e muito menos com o texto moral do senador.

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