! Era uma vez um Lobo Mau. Um Lobo Mau tão mau, tão mau, mas tão mau que parecia que era bonzinho. Tinha um jeito cordial, compreensivo, atencioso, ma um tanto recatado. De um recato tal que ao passar pelas ruas as marocas fofocavam entre si ter ele algum segredo. Tinham razão as mexeriqueiras: ele guardava um sublime e maravilhoso segredo. Era apaixonadérrimo platonicamente por uma linda adolescente graciosa, brejeira, falante, inteligente, amada e respeitada por todos da cidadezinha, chamada Chapeuzinho Vermelho, em razão de em alguns momentos usar um lenço sobre seus anelados cabelos claros. Era tão amada que, inclusive, as próprias marocas jamais fofocaram sobre sua beleza de causar inveja. Temeroso de fazer a abordagem amorosa dado sua profunda timidez, Lobo Mau vivia dias angustiantes e noites indormidas imaginando beijá-la, acariciá-la, mimá-la como um fino cristal. Porém, certo dia descobriu que todas as quintas-feiras pela parte da tarde ela ia visitar sua vovozinha que morava em um linda casinha no bosque. Bolou um plano: só para vê-la, de longe, ia segui-la, sem ser visto, até a casa da vovozinha. Seria sua grande glória que nem cupido poderia proporcionar-lhe. Esperou a quinta feira, foi para a praça, caminho do bosque, esperou ela passar, deu um tempo e começou a segui-la, escondendo-se atrás das árvores. Todo cuidado era pouco. Não queria ser surpreendido por ela. Seria a morte. Lá ia ela, linda, brejeira, maravilhosa, com sua mochila nas costas, jogando miolos de pão aos passarinhos. E ele, feliz, o Lobo mais feliz do planeta. Quiçá do universo. Nessa felicidade, teve um puta susto. A Chapeuzinho desaparecera. Ele destrambelhou de vez. Perdeu a timidez e mostrou a cara: saiu correndo, procurando por ela, desesperado, pensando no pior. Quem sabe até que um Lobo Mau pudesse tê-la seqüestrado. Angustiado e ofegante, chegou na frente da casinha. Passo ante passo, empurrou a porta, que estava encostada, e entrou. Andou pelo cômodos até chegar ao quarto da vovozinha. Leu um bilhete que ela deixara para a netinha, dizendo que saíra para um hip-hop com as amigas, nisto ouviu alguém cantando entrando na casa. Ele tentou se esconder, mas não encontrou um só móvel que lhe coubesse. Olhou para cama e viu o vestido da vovozinha, seus óculos e sua toca de dormir. Não contou desgraça. Se vestiu com a roupa da vozinha, colocou os óculos e se meteu embaixo das cobertas com a cabeça para fora. Era Chapeuzinho quem havia entrado. Desaparecera porque tinha ido pegar flores para sua vovozinha. Se aproximou da cama, beijou a testa da boa velhinha e sentou ao seu lado em uma cadeira de embalo. E o Lobo Mau virou uma chaleira de tanto suar de pavor. Então, a bela adolescente começou a perguntar para que aqueles olhos tão negros, aquelas orelhas tão triangulares e aquela boca tão grande, e ela/ele foi respondendo o para quê daquelas partes. Quando disse que a boca era para lhe beijar, a Chapeuzinho pulou em cima dele, perguntado o que ele estava esperando. Se abraçaram apaixonadamente entre confissões e juras de amor eterno. E tomem beijos, beijos, abraços, abraços, risos, risos, felicidade infinita, intempestiva, aí Chapeuzinho deu uma grande gargalhada acompanhada da afirmação histórica que ele, Lobo Mau, era o primeiro travestir do mundo infantil. No domingo não deu outra: lá estavam Chapeuzinho e o Lobo Mau, vestido de vovozinha, na VII Parada GLTS (Gay, Lésbicas, Transexuais e Simpatizantes).

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