Esta semana, fontes informaram ao Bloguinho Intempestivo sobre uma pesquisa que foi feita em um bairro da zona sul de Manaus sobre a incidência de doenças mentais e distúrbios entre moradores. O resultado surpreendeu alguns trabalhadores da saúde: altíssimos índices de tentativas de suicídio, problemas sexuais de diversas ordens, depressão, automedicação e orientação farmacológica equivocada. Infelizmente, para quem acompanha a questão da saúde mental no Amazonas, para além da imagem marketista produzida pela opinião oficial, o quadro não é novidade. Em Manaus, diferente de outros centros, a saúde mental, enquanto questionamento pertinente às políticas públicas de saúde e educação, sequer existe.

Como já colocado em outras oportunidades aqui neste bloguinho, em Manaus as tentativas de intervenção no quadro de produção subjetiva da doença mental inexistem, e ficam somente no terreno do marketing governamental, aliás, como a maior parte das questões políticas. Enquanto Santos, Campinas e Rio Grande do Sul avançaram na questão da mudança da perspectiva de atendimento ao doente mental, em Manaus o HPER (Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro) e o PAM da Codajás continuam sendo o referencial para atendimento e acompanhamento dos casos que, com muita sorte, conseguem marcar uma consulta com o psiquiatra. Não estamos colocando aqui sequer o aspecto institucional (ou a Desinstitucionalização) enquanto mudança paradigmática que entende a profilaxia e a terapêutica da saúde mental numa perspectiva mais social e política do que clínica científico-médica, mas ainda não haver nem mesmo um sistema de atendimento suficiente para atender a demanda nos moldes da psiquiatria tradicional.

As famílias que precisam lidar com alguém acometido de uma doença mental em Manaus deparam-se com a total falta de informação a respeito de como proceder e que cuidados tomar. A maior parte dos psiquiatras que atua na rede pública enfatiza um tratamento meramente farmacológico, deixando de lado o aspecto psicossocial, que permeia o acontecimento “doença mental”. Não há psicólogos na rede pública em número e estrutura suficientes para a demanda que a cidade produz. O paciente fica então fadado ao tratamento dos sintomas pelos psicofármacos, e convive com seus efeitos colaterais e mesmo com a sua inutilidade, visto que é tão difícil conseguir uma consulta na rede pública que um acompanhamento mais preciso e individualizado torna-se quase impossível. Assim, muitos abandonam o tratamento e tem que se virar com seus próprios problemas e dificuldades.

Por este quadro, Manaus não pode se afirmar como uma cidade que tem políticas para a saúde mental ao contrário do que pregam os seus autoproclamados representantes, que se alternam na subserviência aos desígnios do governo do Estado, se prestando inclusive a se tornarem ferramentas na falsa oposição entre governo e prefeitura.

O QUE ACONTECE AO NOSSO LADO

O especialista argentino Hugo Cohen, que trabalha com saúde mental na América Latina (OPS – Organização Panamericana de Saúde) fala sobre a experiência do Chile, onde o principal hospital psiquiátrico do país fechou por falta de pacientes. Naquele país, a política de saúde mental passa primeiramente pelo oferecimento de serviços alternativos ao confinamento que efetivamente modificam a relação entre os agentes públicos de saúde e os pacientes. A partir desta mudança, cria-se também uma forma diferente de entendimento da saúde mental pela própria população, que passa a enxergar as manifestações patológicas como tratáveis, e enfraquece o desentendimento supersticioso de que o doente mental, ou o “louco” são irrecuperáveis e precisam ser confinados. Outro aspecto desta abordagem da saúde mental é que ela ultrapassa o aspecto meramente clínico e transborda no social. Cohen deixa bem claro que não bastam os fármacos, mas que o aspecto do vínculo e do pertencimento ao grupo são igualmente ou mais importantes no sentido do tratamento (o conceito do vínculo foi desenvolvido pelo psiquiatra argentino Pichón-Riviére). E mais: posiciona a discussão sobre os direitos civis do doente mental, quando coloca o Estado como co-responsável pela produção das condições de adoecimento, e pela ausência de políticas sociais de apoio ao doente mental (como o direito ao afastamento do trabalho, o direito à previdência, etc).

Mais uma vez os argentinos na vanguarda, para desespero dos ressentidos pseudo-nacionalistas. Naquele país a questão da saúde mental é discutida há muito tempo, e há experiências de mais de 30 anos nesse aspecto (ver, por exemplo, o livro do psiquiatra Alfredo Moffatt, “Psicoterapia do Oprimido”). No Brasil há avanços, mas Manaus estagnou. Nem oferece a opção errônea do confinamento e do tratamento clínico-médico, nem oferece alternativas efetivas para o tratamento desta questão de saúde pública que em Manaus é alarmante. Ou seja, enquanto os dirigentes continuarem delirando, a solução para a saúde mental em Manaus é não enlouquecer!

6 thoughts on “A DOENÇA MENTAL E OS GOVERNOS

  1. Gostaria de dizer que Manaus, por ser uma cidade com grande espaço de matas,digo, florestas muitas ainda virgens, poderia se fazer um espaço para se cuidar de pessoas com doenças mentais, afinal a recuperação é mais rápida, usando os recursos da natureza, por outro é lamentável, que os profissionais desta área não gostem de sua profissão, porque se assim fosse, já tinha um local de referência, para tal tratamento mesmo que fosse caro, (pois, o oque se diz Centrad é utópia), em outras cidade já existem, principalmente para as pessoas que sofrem com os trastornos Bipolar. Temos o Hospital Eduardo Ribeiro, mas já é pequeno para a demanda, então deveria os responsáveis pelo Estado e Município se unirem procurassem, fazer um local apropriado, que tivessem os profissionais da saúde trabalhando juntos (Psiquiatra, Psicológos, Assistentes Sociais, Neurológicos e outros que tivessem paciência para ministrar bons coselhos, quando estes saisem das crises psicóticas, aí no Amazonas teriam tb. um ponto de referência neste sentido, obrigada .. ainda espero que isso aconteça, afinal tem muitas pessoas precisando de tratamento mental devido ao chamado stress, que a cidade grande propociona, é o que estamos vendo..

  2. Olá !
    Parabêns pelo blog e por vocês abordarem este tema tão pertinente nos dias de hoje!
    Gostaria de saber se vocês poderiam me informar como posseo ter acesso a pesquisa citada no texto referente a saúde mental na zona sul de Manaus.
    Um abraço
    Estarei aguardando a resposta………..

  3. Elizany,
    Esta pesquisa foi feita pela SEMSA, foi um levantamento interno que eles fizeram a partir dos dados recolhidos pelos agentes de saúde das casinhas da família. Talvez você consiga os dados na própria SEMSA. Mas não sabemos se eles disponibilizam ao público em geral.
    Valeu!

  4. muito boa a pesquisa serve para chamar atençao para a saude mental que esta esquecida nas ruas da nossa cidade, parabens, gostaria de saber se vocês poderiam me informar como posso ter acesso a pesquisa citada no texto referente a saúde mental na zona sul de Manaus.
    sou estudante de psicologia e esta area me intereca muito aguardo resposta eliana

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.